Coronavírus: 27 perguntas e respostas para entender tudo que importa sobre a doença

  • Camilla Veras Mota, Rafael Barifouse e Matheus Magenta
  • Da BBC News Brasil em São Paulo e em Londres
Gêmeos usam máscaras em mercado de rua em Pequim

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Houve casos de mortes de crianças por coronavírus

O texto foi atualizado em 19 de novembro de 2020.

O novo coronavírus infectou mais de 55 milhões de pessoas em cinco continentes desde o surgimento da doença, em dezembro passado. Mais de 1,3 milhão morreram.

O espalhamento na doença ao Brasil, onde até agora 167 mil pessoas morreram, ampliou o compartilhamento de informações — nem sempre verdadeiras — sobre o nível atual da crise e como se proteger da doença. Autoridades falam em "infodemia", ou seja, uma "epidemia de informações falsas".

A BBC News Brasil reuniu 27 dúvidas que surgiram desde o início do surto. Há perguntas sobre sintomas, o que fazer em caso de suspeita da doença, dicas compartilhadas em redes sociais, taxa de mortalidade, formas de prevenção, impacto econômico e alastramento do vírus no Brasil, entre outros tópicos.

As respostas abaixo se baseiam em dados que vêm de infectologistas e virologistas entrevistados pela reportagem e de fontes oficiais como a Organização Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde brasileiro, o Serviço de Saúde do Reino Unido e os centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da China.

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Olimpíada de Tóquio foi adiada

1. Quais são os sintomas da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus?

A maioria das pessoas que desenvolve sintomas começam a aparentá-los ao redor do quinto ou sexto dia, segundo os dados disponíveis até agora.

Os principais são: febre, tosse e dificuldade para respirar. Em um número menor de casos há espirro e coriza. Em geral, após uma semana, a doença causa dificuldade para respirar e alguns pacientes necessitam de tratamento hospitalar.

Ao longo da pandemia, os pesquisadores identificaram também que parte dos infectados apresenta outros sintomas, como perda de olfato e de paladar, coágulos e diarreia.

Mas nem sempre todos esses sintomas aparecem.

Pessoas que não desenvolveram sintomas até o dia 12 têm pouca probabilidade de desenvolvê-los, mas ainda podem carregar a infecção.

2. Estou com sintomas parecidos. Devo ir ao hospital?

Em julho, o Ministério da Saúde brasileiro mudou o protocolo e a orientação agora é que a pessoa procure atendimento médico nos primeiros sinais da covid-19.

A ideia é evitar que pacientes sejam atendidos já com casos mais graves.

Sendo assim, o paciente com suspeita não deve mais aguardar em casa a manifestação mais presente dos sintomas.

3. Quão letal é o novo coronavírus?

A taxa de letalidade da doença provocada pelo novo coronavírus é estimada em 2,4%, segundo o levantamento mais recente da plataforma Our World In Data. Ou seja, a cada 100 pessoas que contraem o vírus, em média, pouco mais de duas morrem.

É muito quando comparada à taxa de mortalidade da gripe comum, de menos de 0,1%, mas pouco quando comparada a quantos morreram, por exemplo, com a Sars, doença ligada a outro coronavírus que surgiu na China em 2002 e registrou taxa de mortalidade de cerca de 10%.

Mas esses dados estatísticos não são precisos porque milhares de pacientes em tratamento ainda podem morrer, o que elevaria a taxa de mortalidade. Por outro lado, também não está claro quantos casos leves podem não ter sido reportados, então a taxa de mortalidade também pode ser menor.

4. Quantas pessoas sobrevivem ao coronavírus?

No surto atual, com base em dados de 44 mil pacientes infectados pelo novo coronavírus, a Organização Mundial da Saúde informa que:

  • 81% desenvolvem sintomas leves;
  • 14% desenvolvem sintomas graves;
  • 5% ficam em estado crítico;

O infectologista Luis Fernando Aranha Camargo, do Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta, no entanto, que não se sabe ainda a respeito da sobrevida desses pacientes, o que vai acontecer a longo prazo.

Por isso, não é possível ainda fazer afirmações categóricas sobre os pacientes recuperados.

5. O coronavírus tem cura?

Não existe vacina ou tratamento contra o vírus que evite mortes até agora. Quando o ciclo do vírus termina — ou seja, você adquire a doença, mas, depois de um tempo, os sintomas desaparecem completamente — você estaria teoricamente curado. É a chamada cura espontânea.

Mas não se sabe, por exemplo, se nosso corpo adquire imunidade ao vírus após o primeiro contágio. China e Japão relataram casos de pacientes que pareciam ter se curado, mas voltaram a manifestar a doença — não se sabe, porém, se foram infectados uma segunda vez ou apenas tiveram uma recaída da primeira infecção. Ao longo dos meses surgiram outros relatos do tipo em alguns países, como o Brasil, mas nada foi confirmado até agora.

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Várias combinações de medicamentos estão sendo testadas para tratar a doença causada pelo coronavírus

E há precedentes nesse sentido: mesmo infectado uma vez, nosso corpo não cria imunidade contra o vírus da influenza, por exemplo, como destaca o médico Luis Fernando Aranha Camargo. Por isso, aliás, que existe vacina contra ele.

Três vacinas que até agora divulgaram dados sobre eficácia (da Pfizer/BioNTech, da Moderna e a Sputnik V) foram testadas em dezenas de milhares de pessoas, não apresentaram problemas significativos de segurança e nem reportaram reações adversas inesperadas nos voluntários.

No entanto, ainda não se sabe quanto tempo dura a imunidade oferecida pela vacina. Os voluntários precisarão ser acompanhados durante muito mais tempo para que essa dúvida seja esclarecida.

Além disso, nenhuma das empresas apresentou uma análise detalhada de sua eficácia em diferentes faixas etárias, embora Tal Zaks, diretor-médico da Moderna, tenha dito à BBC que seus dados preliminares sugerem que a vacina "não parece perder sua potência" em pessoas mais velhas.

Ainda não se sabe se as vacinas simplesmente evitam que as pessoas adoeçam gravemente ou se também podem ajudar a impedir a propagação do vírus de uma pessoa para outra. Leia mais neste link aqui.

Os hospitais também estão testando medicamentos para verificar se têm algum efeito. Até agora, dois deles conseguiram reduzir parte das mortes e dos casos graves: o remdesivir e a dexametasona. Leia mais neste link aqui.

6. Uma pessoa pode ser infectada pelo novo coronavírus duas vezes?

Há muitas coisas que os cientistas não sabem sobre esse novo vírus. E isso inclui a possibilidade de uma pessoa ser infectada duas vezes ou mais. Até então, acreditava-se que isso não fosse possível, tendo em vista o que se sabe sobre outras infecções virais respiratórias.

Mas tem havido cada vez mais relato de reinfecções pelo vírus. Segundo o CDC, casos foram registrados, mas ainda são raros.

7. A transmissão é rápida? Passa pela tosse?

Milhares de novos casos estão sendo registrados todos os dias. No entanto, os analistas acreditam que a real dimensão do surto pode ser 10 vezes maior que os números oficiais indicam.

Estima-se que no surto atual cada pessoa infectada passou a doença para menos de três pessoas, em média. Mas isso cai quando os países adotam medidas que evitam que o vírus seja amplamente transmitido, como o distanciamento social.

Em geral, todos os vírus que afetam o trato respiratório são transmitidos pela via aérea ou pelo contato das mãos com a boca ou com os olhos — respirando no mesmo ambiente, tocando algo que uma pessoa infectada tocou, por exemplo.

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Surto começou na cidade chinesa de Wuhan e já se espalhou para diversos países

A definição de contato próximo do Ministério da Saúde brasileiro é "estar a dois metros de um paciente com suspeita de caso por 2019-nCoV, dentro da mesma sala ou área de atendimento (ou aeronaves ou outros meios de transporte), por um período prolongado, sem uso de equipamento de proteção individual. Ou cuidar, morar, visitar ou compartilhar uma área ou sala de espera de assistência médica".

8. Se a taxa de mortalidade é relativamente baixa, por que tanta preocupação?

Em primeiro lugar, o fato de estarmos diante de um novo vírus sempre gera uma preocupação maior porque não se sabe exatamente como ele se comporta, o quão facilmente sofre mutações.

Não é possível afirmar com certeza, por exemplo, se uma pessoa que foi infectada, mas ainda não apresenta sintomas, os chamados "assintomáticos", pode infectar outras.

Apesar disso, a OMS disse, em junho, que "as evidências disponíveis de rastreamento de contato relatado por países sugerem que indivíduos assintomáticos têm muito menos probabilidade de transmitir o vírus do que aqueles que desenvolvem sintomas".

"Um subconjunto de estudos e dados compartilhados por alguns países em investigações detalhadas de agrupamentos e atividades de rastreamento de contatos relatou que indivíduos assintomáticos têm muito menos probabilidade de transmitir o vírus do que aqueles que desenvolvem sintomas", informou a organização.

A OMS ressalva que "estudos abrangentes sobre a transmissão de pacientes assintomáticos são difíceis de conduzir, pois exigem o teste de grandes coortes populacionais e mais dados são necessários para melhor compreender e quantificar a transmissibilidade da SARS-CoV-2".

O organismo informou que está "atuando com países ao redor do mundo e pesquisadores globais para obter uma melhor compreensão baseada em evidências da doença como um todo, incluindo o papel dos pacientes assintomáticos na transmissão do vírus".

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Coronavírus é mais infecciosa do que a gripe comum

Além disso, não há imunidade na população para um novo vírus que surge de repente e se espalha rapidamente. Isso faz com que essa taxa relativamente pequena de mortos acabe representando um número absoluto alto de fatalidades.

Nesse sentido, preocupa a prevalência do vírus em países com sistemas de saúde pública mais frágeis, com menos recursos, com menor capacidade para lidar com um volume alto de doentes de uma vez só.

Aliás, a OMS destacou que o Brasil tem um histórico de lidar com surtos e epidemias, com o caso recente da zika, que pode ajudar na luta contra a disseminação da doença.

Medidas como quarentenas e suspensão das aulas assustam e causam transtornos, mas especialistas apontam que esse tipo de medida é eficaz para conter o surto, como tem acontecido na China.

"Essas ações podem ser disruptivas e ter impacto econômico e social em indivíduos e comunidades. No entanto, estudos mostram que a adoção em etapas dessas intervenções podem reduzir a transmissão em comunidades", explica o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.

9. A OMS declarou que o vírus é um pandemia. O que isso significa?

O termo é usado para descrever uma situação em que uma doença infecciosa ameaça muitas pessoas ao redor do mundo simultaneamente.

Declarar uma pandemia significa dizer que os esforços para conter a expansão mundial do vírus falharam e que a epidemia está fora de controle.

Uma das pandemias mais graves já enfrentadas ocorreu entre 1918 e 1920. Estima-se que 50 milhões de pessoas tenham morrido na pandemia da gripe espanhola, mais do que os 17 milhões de vítimas, entre civis e militares, da 1ª Guerra Mundial.

Pandemias são mais prováveis com novos vírus. Como não temos defesas naturais contra eles ou medicamentos e vacinas para nos proteger, eles conseguem infectar muitas pessoas e se espalhar facilmente e de forma sustentada.

Na prática, ao afirmar que estamos diante de uma pandemia, a OMS sinaliza que é hora de passar para a fase de mitigação, ou seja, deixar de se concentrar na detecção de novos casos e adotar medidas para tratar os pacientes em estado mais grave e evitar mortes.

10. É verdade que o vírus não sobrevive no calor? Como ele se comporta em diferentes temperaturas?

Essa foi uma dúvida que surgiu no início da pandemia depois que o então ministro da Saúde brasileiro afirmou não saber qual seria o comportamento do vírus ao chegar ao Brasil, pois o país ainda estava no verão.

Hoje, com o Brasil caminhando para atingir 200 mil mortes, o questionamento parece ter sido elucidado.

De acordo com o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, o NHS, de forma geral as temperaturas mais baixas aumentam o tempo de sobrevivência do vírus da gripe no ar. No calor, portanto, a sobrevida deles fora do corpo é menor.

Além disso, há ainda o fato de que no frio as pessoas tendem a ficar mais em ambientes fechados, o que favorece a propagação de doenças respiratórias.

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Países apostaram em testagem em massa para controlar pandemia

É importante lembrar que uma variedade diferente de coronavírus — causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), por exemplo — surgiu no verão, na Arábia Saudita.

11. Tomar chá quente mata o vírus? Evitar boca seca mata o vírus?

Essas dicas vêm sendo compartilhadas nas redes sociais e são falsas, segundo Camargo, infectologista do Einstein. Ele disse que chegou a receber pelo WhatsApp a segunda, que dizia que médicos japoneses tinham recomendado às pessoas que bebessem água porque o vírus iria para o estômago e lá seria destruído pelos ácidos estomacais.

Segundo o Ministério da Saúde, até o momento não há nenhum medicamento, substância, infusão, óleo essencial, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir ou tratar a infecção pelo novo coronavírus. Isso vale para todas as fake news envolvendo chá quente, vitamina C, vitamina D e bebida alcoólica, entre outras.

Camargo ainda acrescenta: a informação mais confiável nesse sentido é aquela publicada em periódicos médicos, que tenha sido comprovada com pesquisa. Sites como o The Lancet e o Journal of the American Medical Association têm reunido boa parte do que tem saído em termos de pesquisas médicas sobre o coronavírus.

12. O que funciona, então, para combater o vírus?

  • Lavar as mãos com frequência é básico e é o que vem sendo apontado como mais eficaz;
  • Não botar a mão na boca, no nariz ou nos olhos também evita levar o vírus para as mucosas do corpo, por onde ele também entra. Entra também por via aérea, ou seja, alguém tosse, espirra e você respira aquilo;
  • É fundamental usar lenço na hora que tossir ou espirrar e jogar aquele papel fora na hora;
  • Não há evidências científicas de que as máscaras cirúrgicas sejam eficazes;
  • Manter hábitos saudáveis para fortalecer a imunidade. Ou seja, dormir a quantidade de horas certas para a sua idade, alimentar-se bem, manter-se hidratado, fazer exercícios físicos regularmente e tentar reduzir o estresse;
  • E, claro, se você tem uma gripe, evite o contato com outras pessoas, mas principalmente com idosos. Isso pode abrir caminho, por exemplo, para uma infecção cruzada de dois vírus da gripe diferentes que, claro, vão sobrecarregar o sistema imunológico da pessoa.

13. Já que tocamos nesse assunto, por que idosos são principais vítimas fatais?

De fato, a taxa de mortalidade do novo coronavírus aumenta a partir dos 60 anos e chega a 15% para quem tem mais de 80 anos. Por dois motivos: a imunidade a partir dos 60 anos perde força, o que deixa a pessoa mais suscetível a algumas doenças e também com capacidade comprometida de lutar contra infecções.

Ocorre também que as células do sistema imunológico que deveriam apenas matar as células infectadas acabam atingindo também aquelas que estão sadias.

Além disso, existem as chamadas comorbidades. A chance de alguém com mais de 60 anos ter outros problemas como diabetes, pressão alta, problemas cardíacos, entre outros, é maior, o que gera um peso adicional no corpo na hora de lutar contra um novo vírus.

14. Crianças podem ser infectadas pelo coronavírus?

Sim. As crianças podem ser infectadas com coronavírus aproximadamente na mesma taxa que os adultos, mas os sintomas geralmente são leves.

15. Estou grávida, devo me preocupar?

Especialistas e autoridades afirmam não haver motivo para acreditar que mulheres grávidas ou os bebês sejam mais suscetíveis aos efeitos do novo coronavírus do que qualquer outra pessoa.

Apesar disso, segundo o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, o NHS, elas foram incluídas na lista de pessoas com risco moderado (clinicamente vulneráveis) como precaução.

Isso ocorre porque as mulheres grávidas às vezes correm mais risco de contrair vírus como a gripe.

Não está claro se isso acontece com o coronavírus. Mas por ser um vírus novo, é mais seguro incluir mulheres grávidas no grupo de risco moderado.

Pode ser possível passar o coronavírus ao bebê antes de ele nascer. Mas quando isso aconteceu, os bebês melhoraram.

Não há evidências de que o coronavírus cause aborto ou afete o desenvolvimento do bebê durante a gravidez.

16. Ter asma é um fator de risco? O coronavírus pode causar um ataque?

Infecções respiratórias, como o novo coronavírus, podem servir de gatilho para sintomas de asma.

A entidade Asthma UK recomenda àqueles que estiverem preocupados com o vírus que sigam uma série de passos para cuidar da saúde.

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Infecções respiratórias podem disparar para sintomas de asma

Isso inclui, por exemplo, portar seu inalador preventivo no dia a dia. Ele ajuda a interromper o risco de um ataque de asma ser disparado por qualquer vírus respiratório, incluindo o novo coronavírus.

Mas se a falta de ar e outros sintomas piorarem, procure atendimento médico.

17. Como detectar se a pessoa está doente?

Em geral, numa doença como esta, amostras de secreção respiratória são levadas ao laboratório. Ali, técnicas de detecção de material genético viral podem identificar a presença do agente infeccioso.

Mas durante o surto atual a China ampliou sua metodologia e passou a considerar um caso confirmado também por meio de diagnóstico clínico associado a um exame de imagem do pulmão.

A mudança, segundo as autoridades chinesas, visava a dar mais celeridade ao tratamento e ao isolamento dos pacientes infectados com a doença, além de ampliar o escopo de quem precisa ser monitorado por eventuais sintomas.

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Diagnóstico do novo coronavírus inclui análise de laboratório, avaliação clínica e exame de imagem

18. Por que alguns pacientes ficam de quarentena em casa, e não no hospital?

A quarentena domiciliar está entre as medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde para pacientes que estão em bom estado clínico, sem necessidade de internação.

No hospital, aumentam as chances de que mais pessoas entrem em contato com o paciente, podendo propagar doenças entre outras pessoas que estão em situações mais graves e com a imunidade baixa.

Há também o risco de que a pessoa infectada pelo novo coronavírus seja atingida por outras doenças que circulam no hospital.

A quarentena em casa é também uma forma de tentar evitar que os hospitais fiquem sobrecarregados.

As pessoas em quarentena domiciliar devem ter cuidados redobrados com a higiene, como usar máscara quando tiverem contato direto com outras, lavar as mãos com frequência, usar álcool em gel e não compartilhar objetos de uso pessoal — como talheres, copos e toalhas.

19. É verdade que esse vírus surgiu como uma arma biológica criada na China? É verdade que já existia patente de laboratório farmacêutico ligada ao novo coronavírus?

Primeiro, não há qualquer indício ou evidência de que esse novo vírus foi criado em laboratório. Também há informações falsas circulando sobre um instituto que teria feito uma patente de remédio para tratar o coronavírus. Mas esse instituto faz pesquisa sobre outros tipos de coronavírus, sem qualquer relação com o surto atual.

A droga, ainda em fase experimental e sem aprovação pelas autoridades competentes, foi usada apenas em animais. E pode, inclusive, ajudar os cientistas que hoje buscam desenvolver algum tipo de tratamento contra a covid-19.

20. Então, qual foi a origem do surto?

A hipótese mais provável, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é que a epidemia começou em um mercado da cidade chinesa de Wuhan e foi transmitida de um animal vivo para um hospedeiro humano, antes de se espalhar de humano para humano.

Nesse mercado eram vendidos tanto animais vivos quanto já abatidos. Mas não se sabe ainda qual animal está ligado ao novo coronavírus.

Mas também não há certeza se de fato o surto começou no mercado chinês. Um estudo de pesquisadores chineses publicado no periódico médico Lancet alega que o primeiro diagnóstico da covid-19 ocorreu bem antes, em 1º de dezembro, e que o paciente em questão "não teve contato" com esse mercado de Wuhan.

Desvendar essa origem é um "trabalho de detetive", diz à BBC o professor Andrew Cunningham, da Zoological Society of London, no Reino Unido.

Uma grande variedade de animais pode ter servido como "hospedeiro" do vírus, especialmente o morcego, conhecido por ser portador de um número considerável de coronavírus diferentes.

Segundo Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, este é mais um vírus que chega à espécie humana por causa de impacto ambiental.

Ao desmatar, degradar o ambiente e ampliar a proximidade de animais silvestres para alimentação, recreação ou estimação, o homem se aproxima de vírus com os quais não tinha contato nem imunidade. Se expõe ao que ele chamou de uma nova virosfera.

21. Cachorros e gatos podem se infectar e transmitir a doença?

Segundo o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA), há relatos de animais infectados com o vírus em todo o mundo.

"Foi relatado que um pequeno número de cães e gatos de estimação estão infectados com SARS-CoV-2 em vários países, incluindo os Estados Unidos. A maioria desses animais de estimação adoeceu após contato com pessoas com covid-19", informou o órgão.

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Uso de máscara é fundamental para evitar contágio

22. Qual será o impacto na economia global?

Economistas e especialistas hesitam em falar em números nesse estágio inicial do surto, mas alguns temem que a paralisação da atividade econômica ao redor do mundo leve a uma crise do tamanho da ocorrida em 2008.

Mas é possível identificar qual forma o impacto terá e observar os danos econômicos causados por episódios similares no passado, especialmente o caso da Sars entre 2002 e 2003, que também começou na China.

Uma estimativa indica que o custo do surto de Sars à época para a economia mundial foi de US$ 40 bilhões (R$ 167 bilhões em números atuais).

No surto atual, a economia de diversos países despencou em patamares jamais vistos nas últimas décadas ou em um século. O desemprego disparou no Brasil e nos EUA, por exemplo. Bolsas de valores têm despencado ao redor do mundo e dezenas de empresas enfrentam desabastecimento na cadeira de fornecedores, como Apple e Microsoft.

Há impactos graves também no setor turístico e de companhias aéreas.

Segundo o último boletim Focus (19/11), divulgado pelo Banco Central (BC) com base nas expectativas do mercado para a economia, o PIB (Produto Interno Bruto ou a soma das riquezas de um país) do Brasil deve cair 4,66% neste ano.

A projeção, no entanto, é mais otimista do que há quatro semanas, quando se previa queda de 5%.

23. É arriscado importar produtos da China?

Em geral, os coronavírus sobrevivem pouco tempo no ambiente. Questão de horas ou dias, no máximo.

Isso ocorre por causa do envelope, uma espécie de camada de gordura que envolve o vírus e o torna vulnerável a um simples detergente, por exemplo.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos afirmou que não há, até agora, nada que indique qualquer risco associado à importação de produtos industrializados e ou de origem animal.

24. Se eu ficar doente, posso me afastar do trabalho? E tenho direito a algum benefício?

A BBC News Brasil ouviu advogados e professores de direito trabalhista para esclarecer essas dúvidas: Gisela Freire, sócia da Área de Trabalhista do Cescon Barrieu; a advogada e professora de direito trabalhista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Daniela Muradas e o também advogado e professor de direito trabalhista da Universidade Federal de Pernambuco Carlo Cosentino.

Leia mais sobre isso aqui.

Em abril, o governo federal disponibilizou o chamado Auxílio Emergencial para trabalhadores informais, autônomos, MEIs e contribuintes do INSS. O valor do benefício era de R$ 600 e "foi criado para garantir uma renda mínima aos brasileiros em situação mais vulnerável durante a pandemia de covid-19", diz o governo.

O benefício no valor de R$ 600 começou a ser pago por três meses (abril, maio e junho), para até duas pessoas da mesma família; em julho; uma 4ª e 5ª parcelas também foram autorizadas. Em setembro, o governo federal anunciou o pagamento de mais quatro parcelas de R$ 300 até o final de 2020.

Para mais informações sobre os requisitos para obtê-lo, acesse este link.

Também é possível receber o chamado auxílio-doença, caso alguns requisitos sejam cumpridos, como período de carência exigido, ficar incapacitado para o seu trabalho ou para a sua atividade habitual por mais de 15 (quinze) dias consecutivos.

Mas disso depende o envio da documentação para o INSS — e a subsequente aprovação do benefício pelo órgão.

25. Qual é o risco de contrair a doença viajando de avião?

O ar em um avião pode muito bem ser de melhor qualidade do que em um escritório, por exemplo — e quase certamente é melhor do que um trem ou um ônibus.

Embora possa haver mais pessoas por metro quadrado em um avião cheio, o ar está sendo trocado de forma mais rápida — a cada 2, 3 minutos, comparado a uma taxa de 10 a 12 minutos em um prédio com ar-condicionado.

Enquanto você está em um avião, o ar que você respira está sendo limpo por um instrumento chamado filtro de ar particulado de alta eficiência (Hepa, na silga em inglês). Este sistema é capaz de capturar partículas menores do que aquelas que são capturadas pelos sistemas comuns de ar condicionado, incluindo vírus.

26. E circular de transporte público?

Grande parte do risco potencial de infecção em trens e ônibus depende de quanto esses transportes estão cheios, o que varia de acordo com cada cidade, cada rota e horários.

São Paulo tem três das dez linhas de trem e metrô mais lotadas do mundo, segundo pesquisa do Google Maps feita com a avaliação de usuários da plataforma de outubro de 2018 a junho de 2019 durante o horário de pico (6h às 10h).

Se você estiver viajando em um trem ou ônibus relativamente vazio, os riscos mudam. Também são fatores importantes o grau de ventilação dos veículos, a limpeza pela qual eles passam, e quanto tempo você passa dentro deles.

Uma pesquisa de 2018 feita em Londres pela especialista Lara Gosce, do Instituto de Saúde Global, mostrou que as pessoas que usavam o metrô regularmente eram mais propensas a sofrer sintomas semelhantes aos da gripe.

Mas David Nabarro, consultor especial de coronavírus da Organização Mundial da Saúde, disse à BBC que, embora o transporte público seja uma coisa importante a se observar, as evidências sugerem que o tipo de "contato breve" que as pessoas têm quando viajam juntas não parece, até agora, ser a "fonte mais importante de transmissão".

27. Como um surto como esse acaba?

Diante do quadro de queda do número de novos casos da doença, autoridades chinesas já estimam que as transmissões estarão totalmente sob controle até abril. Por outro lado, temem que um eventual "efeito bumerangue", depois que uma pessoa oriunda do Irã chegou infectada ao país.

Especialistas também já esperavam que houvesse picos da doença em outros países além da China, mas não era possível prever quando isso ocorreria.

Ou seja, com base no que já ocorreu em epidemias anteriores, dá para estimar o que pode acontecer na trajetória do vírus, mas não quando ela vai acabar.

"Quando um vírus é introduzido em uma espécie, ele costuma causar doenças mais graves no início, mas depois passa por um processo de adaptação e se torna mais brando. Do ponto de vista evolucionário, ele precisa transmitir seus genes adiante. Não adianta matar todos os hospedeiros", diz Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Vírus são organismos propensos a sofrer mutações, o que permite que eles saltem de uma espécie para a outra, como teria ocorrido com este coronavírus.

Mas essa característica também permite que eles se tornem mais bem adaptados ao organismo humano e menos agressivos, aumentando as chances de convivermos com eles.

Há três grandes formas de uma transmissão chegar ao fim:

  • medidas adotadas por autoridades de saúde impedem que haja contato entre pacientes infectados e pessoas saudáveis, evitando novos contágios;
  • processo de imunização do hospedeiro, ou seja, quanto maior a circulação do vírus, mais pessoas adquirem anticorpos contra ele e ficam imunes, fazendo com que o vírus perca força, ou sejam vacinadas;
  • dizimar toda a população mundial, o que seria um fracasso para o vírus, porque ele morreria junto.

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