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29 de julho, 2002 - Publicado às 09h39 GMT
Abandonar o vício pode exigir ajuda profissional
Fátima e Luiz conseguiram parar de fumar
Fátima e Luiz conseguiram parar de fumar

Isabel Murray, de São Paulo

As campanhas maciças contra o tabagismo fizeram com que quase ninguém no mundo esteja mais alheio aos males causados pelo cigarro.

Por isso, todos os dias fumantes tentam largar o vício, e 80% deles conseguem sozinhos. Outros precisam de ajuda profissional.

O casal Fátima e Luís Carlos Azeredo é um exemplo de sucesso com apoio médico. Fátima, de 48 anos, trabalha com recolocação de estrangeiros no Brasil e fumava desde os 18 anos de idade.

O seu marido, Luís Carlos, é engenheiro mecânico, estuda direito e fumava desde os 15 anos. Ambos estão sem fumar há dois anos, mas foi e está sendo uma dura batalha.

Psicologia

Clique aqui para ler o especial "O Cigarro em Julgamento"

"Entramos para o Grupo do Hospital do Coração, que é quase um alcoolatras anônimos, mas é fumantes anônimos, com a supervisão de uma psicóloga", conta Fátima.

No grupo, quem estáo disposto a parar de fumar aprende dicas do que fazer quando bater a vontade incontrolável de acender um cigarro.

"Tomar água o dia inteiro, andar, pensar em outra coisa, escovar os dentes, fazer esporte", diz Luís Carlos.

Fátima tinha um motivo especial para parar de fumar: queria fazer uma longa viagem de avião até a Rússia.

"Eu iria ficar 23 horas num avião. Se eu tivesse que ficar 23 horas sem fumar, iria me esfaquear ou matar alguém." Fátima conseguiu seu objetivo em cinco meses e pôde visitar a Rússia.

As viagens de avião parecem ser o maior martírio dos fumantes. O corretor de seguros Genésio Moreira do Nascimento, de 65 anos, não chegou a esfaquear ninguém na última viagem que fez quando ainda fumava, cinco anos atrás.

Mas encontrou um método alternativo para compensar a falta do cigarro durante as 12 horas de vôo.

"Eu fiquei bêbado!", diz Genésio, rindo. "Mas o comissário só me trouxe mais bebida depois que eu falei um palavrão em português. Aí bebi e dormi. Foi o jeito."

Tratamento

Para quem não quer substituir um vício por outro, o grupo antitabagismo do Hospital do Coração, em São Paulo, é um dos mais respeitados na área.


Célia passou a respirar melhor depois que parou de fumar
Depois de passar por uma avaliação médica, os pacientes usam adesivos de nicotina e o remédio bupropiona, um antidepressivo que serve para controlar a ansiedade e é comercializado com o nome de Ziban.

"O nível de recaídas fica em torno de 20%. Nosso sucesso é em torno de 62%", explica Silvia Cury, coordenadora do grupo e ex-fumante.

"Outras pessoas acabam desistindo durante o tratamento, o que é diferente da recaída."

As desistências são muitas porque, sem a nicotina, o fumante passa a sofrer os sintomas da síndrome de abstinência. Para muitos, é incontrolável.

"É uma vontade igual quando você está com sede, com a boca seca sem saliva", diz Fátima Azeredo, referindo-se à sensação de precisar fumar.

"É um desespero. Você começa a apertar a mão, a puxar o cabelo, você precisa da nicotina... Mas com tempo vai passando, a vontade vai ficando mais branda."

"É como a dor pela perda de um ente querido. No começo você acha que não vai agüentar, depois vai ficando mais fraco", compara ela.

Apesar do sofrimento, quem para de fumar tem muitas vantagens. Célia Regina Rahme, de 52 anos, é gerente de recursos humanos de um hospital em São Paulo. Ela fumou durante 30 anos e parou há dois, usando apenas os adesivos de nicotina e a força de vontade.

Três dias após ter colocado na boca o último cigarro, ela teve uma grata surpresa.

"Na subida da rua para a minha casa, eu senti o ar entrando no meu pulmão. A impressão que eu tive depois de três dias sem fumar é que eu tinha ficado 30 anos fechada numa caixinha de sapato, sabe?", conta Regina, exultante.

"Antes eu me cansava ao subir a rua, e aquele ar entrou no meu pulmão com uma sensação que eu nunca havia tido. Foi uma coisa que me fez pensar muito. Toda vez que eu tinha vontade de fumar, eu me lembrava desse dia."

Peso

Uma grande preocupação de quem deixa de fumar é com o aumento de peso.

Estudos do Ambulatório de Tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, em São Paulo, indicam que o ex-fumante engorda, normalmente, de dois a três quilos nos primeiros meses. Pode chegar a seis quilos no primeiro ano e a dez quilos em cinco anos.

Isso acontece porque a nicotina tira o apetite e dá a sensação de saciedade ao cérebro. Quando a pessoa deixa o cigarro, o organismo reconquista o apetite normal.

Além disso, a pessa recupera parte do paladar e do olfato, passando a sentir melhor o gosto e o aroma das comidas.

Além disso, o ex-fumante tenta se acalmar com comendo balas e outros doces. "Engordei seis quilos, e ela engordou dez", reclama Luís Azeredo. "Já tentei até os Vigilantes do Peso, mas não deu jeito."

Fátima confessa que, de vez em quando, ainda tem uma vontade muito forte de fumar e chega a procurar o maço de cigarro na bolsa. Ela diz se sentir como uma alcoólatra que abandonou o vício.

Comparar o fumo ao alcoolismo é uma constante entre os ex-fumantes.

"O que você tem que ter em mente é que você não pode fumar o primeiro, não pode ter a primeira tragada", concorda Célia Rahme. "Se você der, volta tudo à estaca zero."

Há grupos de apoio a pessoas que desejam parar de fumar em vários hospitais brasileiros. O remédio Ziban, usado em alguns tratamentos, custa cerca de R$ 100 por caixa - que dura um mês.

O candidato a ex-fumante também pode gastar mensalmente entre R$ 100 e R$ 120 com adesivos de nicotina.

O tratamento do Hospital do Coração de São Paulo dura em média seis semanas, e depois o paciente tem um acompanhamento médico e psicológico pelo tempo que necessitar.

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Links externos:
Instituto Nacional de Câncer
Tabagismo no Ministério da Saúde
Banco Mundial – tabaco (em inglês)
Associação Internacional dos Produtores de Tabaco (em inglês)
Associação Brasileira da Indústria do Fumo
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