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Parasita de gato altera personalidade de humanos, diz pesquisa

Cientistas estão responsabilizando os gatos por infectar metade da população da Grã-Bretanha com um parasita que pode alterar a personalidade das pessoas.

Os dados emergem de pesquisas de universidades britânicas, tchecas e americanas feitas em torno do Toxoplasma gondii, um protozoário que existe em quase toda a população de felinos.

Os homens infectados, segundo o estudo, tendem a ser mais agressivos, anti-sociais e menos atraentes. As mulheres, por outro lado, se tornam mais desejáveis e divertidas, mas menos confiáveis e possivelmente mais promíscuas.

O achado está levando os cientistas também a associar a contaminação endêmica da população de gatos com a cultura de um país. A França, por exemplo, têm mais gatos infectados do que a Grã-Bretanha, o que explicaria por que as mulheres francesas são consideradas mais sensuais do que as britânicas, segundo a pesquisa.

Mudanças

O estudo, patrocinado pelo Stanley Research Medical Institute of Maryland, um importante centro de estudos de doenças mentais, mostra que quase metade das pessoas na Grã-Bretanha carrega o parasita em seus cérebros, o que pode fazer com que elas passem por lentas, mas cruciais mudanças de comportamento.

O instituto já publicou uma pesquisa mostrando que as pessoas infectadas com o protozoário têm mais risco de desenvolver esquizofrenia e maníaco-depressão.

Esse estudo, que se concentra nas mudanças mais sutis na personalidade humana, está sendo comandado pelo professor Jaroslav Flegr, da Universidade Charles, em Praga, que analisou o comportamento de mais de 300 voluntários.

"Nós concluímos que as mulheres infectadas eram mais simpáticas, tinham mais amigos e eram mais atentas sobre suas aparências. Mas elas eram também menos confiáveis e tinham mais relacionamentos com homens", explicou Flegr ao jornal dominical britânico The Sunday Times.

Por outro lado, os homens infectados "tendem a não gostar de seguir regras", completou o professor.

Lentidão

Ele também descobriu que as pessoas infectadas com o toxoplasma apresentam reações mais lentas e estão, portanto, mais expostas a se envolver em acidentes de trânsito.

"A infecção por toxoplasma pode representar um problema de saúde pública e econômica altamente subestimado", alertou o professor da Universidade Charles, da República Tcheca.

O toxoplasma circula num ciclo natural entre ratos e gatos.

Os ratos se contaminam ao entrar em contato com as fezes dos gatos e os gatos a readquirem ao caçar ratos infectados.

Há muito tempo se sabe que o ser humano pode ser infectado com o protozoário através do contato próximo com gatos.

As mulheres grávidas são sempre aconselhadas a ficar longe de gatos porque o parasita pode prejudicar o feto.

As pessoas que têm problemas imunológicos, como os doentes de Aids, também são mais vulneráveis.

Fim de inibição

Até agora, porém, acreditava-se que o parasita não provocava nenhum problema para pessoas saudáveis, pois os seus sistemas imunológicos podiam prevenir a infecção.

Mas essa opinião parece ter os dias contados, especialmente depois da pesquisa, da qual participou também a Universidade de Oxford.

Os cientistas concluíram que, quando o parasita invade os ratos, de alguma forma ele reprograma os cérebros do roedores, revertendo seu medo natural de gatos.

Essa mesma capacidade de destruir inibições estaria acontecendo entre os seres humanos.

Bloqueio

"O fato de que um parasita monocelular pode ter um efeito tão grande no cérebro de um roedor ou de um ser humano é incrível", disse um dos cientistas envolvidos na pesquisa da Universidade de Oxford, Manuel Berdoy.

Dominique Soldati, pesquisadora do Imperial College, em Londres, está estudando maneiras de bloquear a entrada do toxoplasma nas células.

"No momento em que você é infectado, não há como se livrar do protozoário e os números da parasita crescem lentamente com o passar dos anos. E essa não é uma boa coisa", diz Soldati.