Coqueluche: confessionário informático

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Eu vi Mamma Mia, com a Meryl Streep, e gostei. Eu falo com a minha gata. Eu odeio jiló. Uma vez, na semana em que a Sears abriu, em Botafogo, eu roubei dois ou três soldadinhos de plástico. Eu roubei muitos bolachões de 78 rotações naquele sebo de discos que havia na rua São José. Eu namorei a namoradinha do melhor amigo meu. Ou ela me namorou e eu deixei. Eu já aumentei minha idade em dois anos durante cinco anos seguidos.

Aí estão 7 confissões íntimas. Não tenho condição física ou espiritual de relatar mais 18. Algumas são pesadas demais. Doem. Tenho vergonha. Como? Por que 25 confissões íntimas? Porque é a mais recente moda na internet. Revelar 25 coisas pessoais embaraçosas. Sem a menor vergonha. Dizem. Como uma velha senhora - que eu às vezes sou, confesso também - exclamo com as mãos na cintura, "Qual! Esse pessoal não tem mais o que inventar?".

A net vive de fenômenos. Afinal de contas, no fim-de-semana passado, o Sunday Times publicou uma matéria com uma seleção supostamente das mais criteriosas sobre os blogs mais interessantes do mundo cibernético. E o mundo cibernético, sabemos, passa-se em inglês.

Chinês? Línguas e dialetos indianos? Contam, mas bom mesmo é no idioma de Barack e Michelle Obama. Fiquei sabendo que existem 200 milhões de blogs (a reforma não prefere blogues?) espalhados pelo mundo. Calculo que uns bons 10 milhões deles, se não mais, têm origem no Brasil.

Somos bons de bola, de samba e, agora, de blogs, ou blogues, para cercar dos sete lados, conforme se dizia no velho jogo do bicho. Que, sendo ilegal e eu menor, joguei uma vez. Lá se foi mais uma confissão. Agora, nós blogueamos dando palpite, passando adiante informações, muitas das quais valiosa, mas, na maior parte das vezes, forçoso é admitir, dando um tremendo de um vexame. Bobagem pensar nisso. O que não sai na urina, sai no blog.

Pausa e parágrafo para mais uma confissão: sou habitué, ou freguês contumaz (e sem Tomás também) de vários blogs brasileiros, além daqueles aqui da BBC Brasil. Não vou dizer quais porque eu não quero ver gente brigando por minha causa. É, sou convencido. Outra confissão.

Blogs estrangeiros, a bem da verdade, em inglês dos Estados Unidos, não são estranhos à minha navegação. Alguns de política (estou mentindo um pouco, muito pouquinho) outros sobre leviandades (lá se foi mais uma confissão; quando eu chegar às tais 25 me avisem), mas a maior parte sobre música popular.

De vez em quando eu dou para os outros, vocês, o endereço informático e depois me arrependo. Um blog ainda contém certos resquícios gutenberguianos. Feito a revista que a gente assina, recebe em casa e não empresta para ninguém, nem deixa exposta em cima de coffee table na sala de visitas. Nós, ou ao menos este criado que vos fala, quer exclusividades. Não estou aqui também, sou franco, para dar hit e page impression para malandro nenhum. Podem me fazer de dado estatístico, mas minha alma informatizada, nem que seja apenas para as aparências, continua sendo minha, só minha.

Gente de boa estirpe, por aqui no Reino Unido, andou se chegando ao confessionário computadorizado. Um membro do Parlamento, Tom Harris, que já foi ministro dos Transportes, admitiu ter roubado de certa feita um rolo de fita colante da papelaria do bairro. De suas outras 24 confissões, interessante mesmo é aquela em que admite, talvez até se orgulhe, de ter jogado uma dessas bombinhas de São João, num policial de seu bairro. Tom Harris admite ainda ter ido assistir a uma exibição do quadradíssimo conjunto Bucks Fizz. Tudo isso já homem feito. O ex-ministro nada tem a revelar no tocante à sua atuação política. Suas contas e suas votações no Parlamento estavam todos dentro da mais perfeita ordem e legalidade. Desconfiados, perguntamos: "Não será aquela história mais que manjada de contar um pecadilho para ocultar um pecadão?"

Encerro voltando a mim mesmo, visto que bloguear, ou à net comparecer, é puro sinal de egocentrismo e vaidade. Tomem lá, pois, mais uma confissão, que, sozinha, vale por 25: não tenho a menor idéia do que seja sentir saudades do Brasil.