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G-20 pode integrar América Latina e Ásia, diz professor

Representantes do G-20 se reúnem hoje em Buenos Aires pela primeira vez desde o fracasso da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Cancún, no mês passado.

O G-20 é o grupo de países em desenvolvimento liderados pelo Brasil, Índia e África do Sul. Foi formado para negociar a redução das barreiras agrícolas nos países ricos.

Para o professor Rafael Pampillón, do Instituto de Empresas de Madri, o G-20, que reúne países da América Latina, África e Ásia, pode aproximar as economias.

Seria, por exemplo, um primeiro vínculo entre os países da América Latina e do sudeste da Ásia, que nesta semana anunciaram a formação de uma área de livre comércio, segundo ele.

A proposta de criação dessa área é reunir os dez integrantes da associação dos países do Sudeste da Ásia (ASEAN, na sigla em inglês).

Oportunidades

O professor lembra que Indonésia e Tailândia, por exemplo, fazem parte tanto da ASEAN quanto do G-20.

Por isso, podem surgir oportunidades de diálogo e aproximação comercial dos países da América Latina com a ASEAN.

"Essa união do G-20 pode ser o nexo de união entre a economia asiática, que sem dúvida cresce mais rapidamente que economia latina americana, e os países latino-americanos", diz.

Dificuldades

No entanto, há dúvidas sobre as possibilidades de ampliar as discussões dentro do G-20.

O diretor executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Coelho Fernandes, avalia que o pilar do grupo é a agricultura e, por isso, há poucas chances de avançar para outros temas.

"No momento em que outros temas da agenda não agrícola forem incluídos, o G-20 perderá uma parte expressiva de seus membros. Já foi difícil se fazer esse exercício. A própria agenda do Brasil na agricultura, por exemplo, é muito diferente da agenda da Índia que participa do G-20", diz Fernandes.

Os produtos e grau de abertura na pauta dos dois países são diferente e a Índia tem uma posição mais protecionista, segundo especialistas.

"O G-20 foi um instrumento extremamente importante na reunião de Cancún, para se avançar na discussão agrícola em outro patamar, mas na minha opinião ele se restringe ao tema agrícola", avalia o diretor da CNI.

Mercosul

Mas Fernandes acha que o Brasil precisa avaliar melhor as oportunidades e desafios que surgem com a criação da ASEAN.

Por um lado, uma nova área de livre comércio significa que produtos brasileiros também produzidos nos países que compõem a área perderão a preferência, segundo ele.

Por outro lado, na sua avaliação, o Brasil tem pouco comércio com a maior parte dos países da ASEAN, e, por isso, devem surgir oportunidades.

Mas ele considera possível que o país obtenha novos espaços comerciais dentro da ASEAN.

Para Fernandes, o processo de criação da ASEAN, formada pelas economias menores da Ásia, tem paralelos com a própria formação do Mercosul.

"De certa forma elas estão dentro de um sanduíche, uma parte é a China, outra o Japão e se estendermos a costa do ocenos Pacífico, vamos até os EUA", diz

"A ASEAN então é uma forma de organização econômica e política entre eles, e tem paralelo com o esforço do Mercosul de se organizar dentro do espaço americano", acrescenta.

'Tentação'

No caso do G-20, além das dificuldades para chegar a uma pauta comum de interesses, o professor Pampillón observa que há problemas em resistir a propostas dos países ricos que podem dividir o grupo.

Afinal, o G-20 já chegou a ter 22 países, mas Guatemala e Costa Rica saíram nas últimas semanas

"Às vezes há tentações para esses países de firmar acordos convenientes com Estados Unidos e União Européia", avalia.

Mas ele espera que o grupo continue a falar com voz única.

"A unidade mostrada em Cancún é necessária para que os países do sul possam sair de uma situação de deterioração de seu comércio agrícolas como a que se encontram", diz.

Segundo ele, foi graças a essa união que pela primeira vez os países em desenvolvimento tiveram um papel de protagonistas em uma negociação na OMC.

Mas o professor reconhece que a reunião de Cancún foi um fracasso, porque os países em desenvolvimento não obtiveram concessões dos ricos na agricultura.

Mesmo assim, ele acha que nas próximas reuniões da chamada rodada de Doha da OMC, o tema da agricultura terá que estar na mesa das negociações justamente por causa da pressão do G-20.