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Atualizado às: 02 de julho, 2004 - 17h41 GMT (14h41 Brasília)
 
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Plano Real foi 'brilhante', diz Stanley Fischer
 

 
 
Stanley Fischer
Stanley Fischer prevê crescimento de mais de 6% para Brasil no futuro
Nos dez anos do Plano Real, o Brasil teve uma intensa relação com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse período, Stanley Fischer, vice-diretor gerente do FMI de setembro de 1994 a agosto de 2001, foi uma das pessoas que acompanhou mais de perto os momentos importantes do Plano.

Fischer – hoje vice-presidente do Citigroup, em Nova York – é um acadêmico respeitado mundialmente e que acompanhou muitos planos econômicos em diferentes países do mundo nos mais de sete anos que esteve no FMI. Para ele, o Plano Real foi "extremamente brilhante" e, dos planos que conhece, foi um dos mais bem executados e "intelectualmente mais impressionantes".

O ex-vice-diretor do FMI também defende os executores do Plano das acusações de que o câmbio fixo durou tempo demais. Ele argumenta que esse é um julgamento muito difícil de se fazer, porque foi durante o período de câmbio indexado e de inflação baixa que os brasileiros entenderam que realmente não queriam mais inflação.

Stanley Fischer está otimista com as perspectivas para a economia brasileira e acha que, se o Brasil continuar o programa atual do governo, implementar as reformas e se abrir mais ao comércio internacional, poderá crescer até mais de 6% ao ano a longo prazo. Ele elogiou ainda o que chama de "liderança do Brasil" nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC).

BBC Brasil - O senhor considera que o Plano Real derrotou a inflação ou os índices de inflação recentes são ainda muito elevados em comparação a outros países?

Stanley Fischer - O fato de que a economia brasileira depois da desvalorização de 1999, basicamente, não teve uma inflação nem perto do que todos estávamos com receio de que teria e o fato de que a enorme desvalorização durante a campanha eleitoral em 2002 levou a uma inflação relativamente baixa é testemunha dos resultados do Plano Real e das mudanças na economia que aconteceram nos anos subsequentes.

Outra questão são quais os níveis de inflação que o Brasil deve ter nos anos futuros. A meta do Banco Central, entre 4% e 6%, 4,5%, é ainda um pouco elevada. Do ponto de vista do longo prazo, o Brasil deveria ter valor da moeda ainda mais estável, mas não há qualquer dúvida para mim de que o que acontecendo agora é testemunha do sucesso do plano real.

BBC Brasil - Quais os problemas que permanecem? Seria a falta de crescimento ou a questão da dívida?

Fischer - O plano em si consistiu principalmente de políticas macroeconômicas e especialmente da vontade de derrubar a inflação. E nisso foi bem-sucedido. Não era um plano amplo para restaurar o crescimento com todas as medidas estruturais que o Brasil sabe que precisa.

Os problemas existentes não são coisas que não foram feitas dentro do Plano Real, porque não tenho certeza se havia a intenção de fazê-las dentro do Plano.

O Brasil tem alguns problemas bem conhecidos do próprio governo. Por exemplo, quando o presidente Lula esteve em Nova York na semana passada, ele falou sobre eles e disse que precisam ser resolvidos. Esses problemas são um impedimento para o crescimento. Por exemplo, a infra-estrutura, é preciso aumentar o nível de educação no país, a questão das desigualdades sociais no país e a lei de falências que estava sendo votada no Congresso.

Todas são questões básicas sérias para melhorar os aspectos estruturais da economia brasileira que vão promover crescimento. O Brasil sabe que precisam ser feitas, o governo atual sabe que devem ser feitas.

Não diria simplesmente que o Plano Real não foi completado, apenas diria que todos os países precisam continuar fazendo reformas.

BBC Brasil - O FMI se opôs ao Plano Real?

Fischer - Eu estava fora do FMI, mas acho que eles estavam realmente um pouco céticos sobre o Plano Real, mas essa é a versão de alguém que estava fora.

BBC Brasil - Uma questão que até hoje é polêmica no Brasil é a questão do câmbio. O senhor acha que a manutenção do câmbio fixo foi um erro?

Fischer- O Plano Real, da maneira como foi concebido, de tentar sair do sistema antigo, essencialmente por meio de vincular mais e mais preços ao dólar e então estabilizar a taxa de câmbio, foi tecnicamente extremamente bem feito e extremamente brilhante. Foi um dos planos intelectualmente mais impressionantes e também um dos que foi executado de forma mais impressionante que eu conheço.

E era um plano que essencialmente requer que se fixe o câmbio. Então, o câmbio fixo era central. Há uma discussão posterior, em retrospectiva: deveria o Brasil ter permitido mais flexibilidade no câmbio mais cedo? Provavelmente, mas é um julgamento muito difícil de fazer, porque acho que foi durante o período de câmbio indexado e de inflação baixa que os brasileiros entenderam que realmente não queriam inflação.

Foi durante aquele período de estabilidade, que era maior por causa do câmbio indexado, que foi desenvolvida a atual hostilidade à inflação, que é tão importante para o sucesso do Brasil a longo prazo.

Acho que teria que se ter mantido a taxa de câmbio indexada, com as bandas, por alguns anos. Como uma questão acadêmica, pode se perguntar se deveria ter terminado mais cedo, mas eu não defenderia que devesse ter terminado muito mais cedo. Precisava-se de um período no qual se tinha uma estabilidade que veio da indexação da taxa de câmbio.

BBC Brasil - O FMI se opôs ao regime câmbio flutuante em janeiro de 1999 e queria o currency board como tinha a Argentina?

Fischer - Naquele momento, quando se estava mudando o sistema, deve se discutir tudo. Então, é possível que alguém tenha discutido essa possibilidade. Mas, que seja do meu conhecimento, nunca houve um momento em que o FMI disse: vocês deveriam fazer um currency board. Podem ter dito isso é algo que vocês deveriam considerar.

Entre o momento que o regime anterior acabou e o regime flutuante começou, houve um outro regime cambial, por alguns dias (a chamada banda diagonal endógena idealizada pelo então presidente do BC, Chico Lopes). O FMI não gostou daquele esquema. Nem eu.

BBC Brasil - Uma das questões em debate na época era se o Brasil deveria impor controle de capitais, como fez a Malásia. O senhor acha que o Brasil poderia ter se beneficiado mais se tivesse adotado a opção da Malásia e não ter feito o que o FMI queria?

Fischer – Eu me lembro muito bem que não havia desejo de parte do Brasil de impor controle de capitais. Lembro que um dos integrantes de sua equipe econômica disse 'fizemos isso antes, não gostamos e não queremos fazer'. Acho que o Brasil, na verdade, se saiu muito bem por não ter imposto controle de capitais.

BBC Brasil - Quais os principais desafios da economia brasileira atualmente? O aumento de juros pelo Fed (o banco central americano), as reformas domésticas, por exemplo?

Fischer- Há coisas sobre as quais o Brasil não tem muito o que fazer, como sobre as decisões do Fed. Esses são problemas que o país encontra e, se os juros nos Estados Unidos aumentam, essa é uma força que tende a aumentar os custos dos empréstimos para o Brasil. Felizmente sua dívida externa tem maturidade (vencimentos) bastante longa. Então, vocês têm algum tempo para se ajustar. As mudanças nas taxas de juros externas não vão afetar os custos de sua dívida imediatamente.

Os principais desafios sobre os quais o Brasil pode fazer alguma coisa são, quase que por definição, questões domésticas. São as questões de infra-estrutura, que são muito sérias, e uma área em que o governo está propondo as parcerias público privadas. São as questões sociais, educacionais, regulatórias.

Acho que há um desafio a longo prazo de liberalizar ainda mais seu regime comercial. O Brasil assumiu uma importante liderança para tentar fazer com que as negociações na OMC sejam bem-sucedidas. Isso é muito importante. A ênfase que o Brasil apresentou para os países industrializados, dizendo que, 'se vocês estão falando seriamente sobre liberalização comercial, vocês têm que liberalizar o comércio agrícola', é muito importante. A liderança do Brasil nessa questão tem sido muito significativa.

Ajudar o mundo a liberalizar o comércio e, a segunda parte, liberalizar o seu próprio comércio, ser mais aberto a importações, acho que são outro conjunto de desafios para o Brasil que realmente terão um enorme impacto sobre a forma como a sua economia se desenvolve.

Agora é um momento muito bom. O crescimento aumentou de forma significativa nos últimos dois trimestres. Acho que, se o Brasil continuar o programa do governo, implementar essas reformas e se abrir mais ao comércio internacional, as perspectivas para vocês não são de crescimento de 3,5% ou 4% ao ano, mas 6% e possivelmente mais a longo prazo, na medida em que a qualidade da sua força de trabalho melhorar, junto com a qualidade da infra-estrutura e do ambiente econômico.

BBC Brasil - Há uma discussão se o Brasil deve ou não renovar o acordo com o FMI. O senhor acha que passados todos esses anos, é o momento para o Brasil se graduar do FMI?

Fischer - Tendo em vista o meu histórico, não gostaria de entrar nesse tema. Deixe-me apenas dizer que estou confiante de que qualquer decisão que o Brasil tomar, vai ser a decisão correta.

 
 
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