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Atualizado às: 09 de julho, 2007 - 10h41 GMT (07h41 Brasília)
 
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Projeto Xingu: No Coração do Brasil
 
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura.

Anteriores:

São Félix do Xingu (por Patrick Cunningham)

São Félix é uma cidade com uma rica história. A vila fica no local onde o rio Fresco encontra o Xingu, e em ambos os rios a população local conta com serviços de balsas para a travessia. A cidade evoluiu rapidamente com a instalação na região de grandes madeireiras. Deixou de ser o simples vilarejo de apenas poucas casas da década de 50 para se tornar uma cidade moderna e vibrante.

Atualmente, a pecuária de corte é a principal atividade econômica da região. Existem diversas fazendas de gado em torno da cidade, todas implantadas com a destruição da floresta. As lojas de equipamento de montaria ocupam as calçadas ao lado de internet cafés e lojas de venda de computadores. Há uma igreja evangélica em cada rua de São Félix e no centro da cidade há ainda uma enorme igreja católica.

Mas existe também um outro lado da cidade, um pouco menos visível. Uma reportagem recentemente publicada pelo jornal O Globo retrata a violência que impera na cidade. A matéria fala sobre o assassinato do fazendeiro Pedro Lira, de 23 anos, ocorrido depois de um desentendimento que teve com um grande proprietário de terra local. Pedro teve uma das orelhas decepadas, prática que segundo o jornal caracteriza um crime encomendado. A orelha seria entregue ao mandante como prova do cumprimento do serviço.

Os madeireiros se aproveitam da ausência em São Félix de uma representação do Ibama, a agência do governo federal para o meio ambiente. É desolador ver o intenso tráfego de caminhões pela cidade transportando madeira que pode ter sido extraída ilegalmente. Alguns caminhões usados para o transporte de madeira são velhos, caindo aos pedaços e nem têm placas de identificação. Se forem interceptados pela polícia, os veículos velhos poderão ser apreendidos, mas os proprietários não serão facilmente localizados.

Projeto Xingu
Com o tempo, os índios mudaram os seus costumes

Em São Félix pegamos um ônibus para Tucumã que fica a quatro horas de viagem. De lá fomos até o rio numa van para irmos até as aldeias Kayapó que ficam ao longo do rio Riozinho. A viagem deveria ter levado umas três ou quatro horas, mas no meio do caminho quebrou a direção do nosso veículo e tivemos que esperar umas três horas sob sol a pino, enquanto nosso motorista voltava de carona a Tucumã para buscar um mecânico. Apesar de ser sábado, ele acabou voltando com um mecânico que consertou nosso carro ali mesmo na beira da estrada.

Em conseqüência do atraso, só conseguimos chegar ao rio depois de escurecer, o que nos forçou a navegar por três horas durante a noite. Estava uma noite linda, de lua cheia, e como o barqueiro Kayapó conhecia o rio como a palma da mão, pudemos relaxar e aproveitar a experiência. Chegamos a Kikretum depois das dez da noite e a não ser pelo barulho de alguns televisores ligados a aldeia estava em silêncio.

O dia seguinte reservava uma surpresa para nós. Até então, estivemos em aldeias com cerca de 200 ou 300 índios, mas Kikretum tem 800! A aldeia mistura casas de tijolo com ocas tradicionais. No passado, os Kikretum negociaram grande quantidade de mogno, trocando a madeira por tijolos, ladrilhos, azulejos e outras quinquilharias do mundo dos brancos.

As casas de alvenaria foram construídas em círculo, do modo tradicional. Atualmente, várias dessas casas estão abandonadas e semi-destruídas. A aldeia voltou a construir apenas as ocas tradicionais de madeira com telhado de palha, muito mais apropriadas e confortáveis. Muitas destas ocas estão dispostas em círculo no interior do círculo maior formado pelas casas de tijolos. De longe, a aldeia tem todas as características de uma aldeia Kayapó, mas quando se chega mais perto, as casas de tijolos podem então ser vistas.

A aldeia mostra bem o caráter efêmero que têm as supostas vantagens obtidas pelos índios ao negociar suas riquezas com madeireiros e garimpeiros ilegais. Por alguns anos, a aldeia pareceu estar trocando seus costumes tradicionais por um meio de vida semelhante ao das grandes cidades brasileiras. Mas tudo não passou de uma grande ilusão. Sem uma fonte de receita duradoura e sem gerar emprego, o "progresso" trazido pela atividade de troca, foi interrompido de maneira súbita, tão logo os madeireiros desapareceram da região.

 Quando os madeireiros abandonaram a região, os índios estavam completamente dependentes das mercadorias compradas com o dinheiro fácil
 

À época do sumiço dos madeireiros, não havia mais nenhuma árvore de mogno de valor comercial deixada na área. Na verdade, as trocas foram encerradas depois de uma mudança na legislação que proibiu a exportação de madeira de lei, e também depois que o Ibama e a Polícia Federal passaram a exercer maior controle. Mas mesmo se isso tudo não tivesse acontecido, a receita obtida com as trocas iria durar apenas mais alguns anos, até que o estoque de madeira de lei se esgotasse.

Armadilha

A relação da aldeia com a cidade era extremamente favorável aos madeireiros. Mas Kikretum não foi a única tribo a ser iludida pela promessa de dinheiro fácil, nem a única a cair na armadilha que isso representava.

De acordo com relatos de fontes locais, os madeireiros se aproximavam do cacique e aos poucos conquistavam sua confiança, através de presentes generosos. Em muitos casos, o resultado era o cacique acabar completamente bêbado.

Em seguida, os madeireiros se ofereciam para fornecer a infra-estrutura, acenando com a possibilidade de os índios morarem em "casas bonitas" como as do povo da cidade. Os índios contam que os madeireiros se ofereciam para contruir as novas casas de alvenaria, que seriam mais duradouras do que as ocas de palha e madeira, em troca de madeira de lei. Os índios dizem que a oferta parecia ampla e generosa e os madeireiros pediam apenas "que assinassem uns papéis..."

O tal papel era um contrato, que segundo eles estipulava um valor para as casas que partia de um custo de construção inflacionado e estabelecia uma equivalência para a troca por madeira que era orçada a preço baixo. Assim era criada a relação comercial. Daí para a frente, qualquer coisa de que os índios precisassem era fornecida pelos madeireiros desde que os caciques assinassem papéis em branco, que segundo relatos seriam preenchidos posteriormente com valores fictícios, normalmente em quantias muito superiores aos valores das transações comerciais.

O cacique voltava à aldeia feliz, carregado com mantimentos, cigarros, TVs, e às vezes cerveja ou cachaça – e sem ter recebido nenhum dinheiro pelo negócio. Logo logo, as mercadorias seriam consumidas e o tolo cacique teria que voltar à cidade para reabastecer, sempre deixando assinados mais papéis em branco em troca de mais madeira. Para poderem assistir à TV os índios precisavam de eletricidade. Os madeireiros instalaram então um gerador na aldeia, que precisava ser constantemente abastecido com óleo diesel.

Com dinheiro fácil, os índios não dependiam mais da agricultura. Eles mudaram seus hábitos alimentares radicalmente, trocando os alimentos frescos da floresta pela comida industrializada e embalada da cidade. Mandioca e batata-doce foram substituídas por biscoitos e refrigerantes. Rapidamente os índios ficaram com os dentes cheios de cárie, as crianças passaram a sofrer de subnutrição e a saúde geral da aldeia se deteriorou à medida em que os exercícios físicos diminuíram e a dieta empobreceu.

Quando os madeireiros abandonaram a região, os índios estavam completamente dependentes das mercadorias compradas com o dinheiro fácil. Foram deixados sem nenhuma renda para a manutenção das casas e para a compra do óleo diesel usado nos geradores. Deprimidos, eles passaram a acusar a Funai, o Ibama e o presidente Lula. Cada aldeia queria uma fatia maior dos recursos disponíveis.

Organizações como a Floresta Protegida estão tentando ajudar estas aldeias a desenvolver fontes de renda alternativas, mas a tarefa não é fácil. A maioria dos produtos sustentáveis não é cotada a preços altos, e seu plantio e colheita exigem grande esforço dos índios. Mesmo as colheitas mais bem sucedidas exigem manutenção constante, permanentes recursos e organização. Não é fácil garantir mercado para a colocação desses produtos, o que acaba aumentando o desânimo dos índios. Em algumas áreas os madeireiros estão de volta.

Mutos índios da aldeia reconhecem o fracasso das negociações feitas no passado com os madeireiros. Aos poucos as mulheres voltam a se dedicar às plantações, e agora muitos homens se dedicam com grande empenho a novos projetos. Com ajuda externa, o futuro para eles poderá ser realmente sustentável, permitindo aos Kayapó manter suas tradições e voltar a levar uma vida saudável como antigamente, ao mesmo tempo em que possam comprar os bens de que necessitam.

A expedição Coração do Brasil é patrocinada por: Royal Geographical Society, Rainforest Concern e Artists Project Earth.

 
 
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Os índios e as madeireiras.
 
 
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Expedição busca origens dos índios do Brasil. Acompanhe
 
 
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