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Atualizado às: 10 de agosto, 2007 - 23h08 GMT (20h08 Brasília)
 
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Projeto Xingu: No Coração do Brasil
 
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham realizaram uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculavam que a viagem duraria quatro meses e esperavam observar como os povos indígenas da região vivem. O casal também planajava avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick entraram em contato com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a parte final da aventura.

Anteriores:

O Coração do Brasil (por Patrick Cunningham)

Chegamos ao final de nossa viagem pelo rio Xingu, é hora de fazermos um resumo de nossa aventura.

Quando iniciamos a expedição Coração do Brasil, no dia 2 de abril, tínhamos apenas uma ligeira idéia do que encontraríamos pela frente. Conhecíamos a dimensão do desmatamento e já tínhamos trabalhado com comunidades indígenas no passado. Pensávamos que conhecíamos as culturas indígenas razoavelmente bem e a relação que elas mantinham com a cultura brasileira de massa.

Depois de percorrermos 2.500 quilômetros, em quatro meses, perdemos peso, ficamos melhor informados e muito mais determinados. Nos deparamos com tradições que ainda se mantêm vivas e fortes, mas por outro lado vimos também forças poderosas que ameaçam destruir e alterar em apenas poucos anos a cultura indígena e o conhecimento acumulado durante séculos pelas tribos.

Pudemos ver de perto as formas tradicionais de obtenção de alimentos, como a caça, pesca e agricultura, serem ameaçadas pela mudança no uso da terra, pelas alterações climáticas e pela própria mudança dos hábitos cotidianos dos índios.


Encontramos curandeiros tradicionais, cujos métodos e ervas medicinais utilizados são tão eficazes no tratamento de doenças e na cura de ferimentos produzidos por acidentes na floresta.

Lamentavelmente, vimos que eles vão aos poucos perdendo seu valor e sua razão de ser, pela presença dos postos de saúde que originalmente foram instalados com a melhor das intenções, para tratar as doenças levadas pelo homem branco àquelas comunidades

Vimos também o grande estrago causado pela presença perniciosa de uma cultura alienante representada pela televisão.

Estas mudanças atingem o centro nervoso dessas comunidades à medida que afetam as relações fundamentais entre seus indivíduos.

No começo da expedição, nossa principal preocupação era com o desmatamento que invade as reservas indígenas, principalmente levado pela expansão das fazendas de cultivo de soja. Mas logo percebemos que, apesar de também estarem preocupados com isso, nossos anfitriões estavam muito mais preocupados com os projetos de construção de várias represas de usinas hidrelétricas.

Na região em torno de São Félix do Xingu, encontramos um bolsão de atividades ilegais, incluindo o desmatamento para retirada de madeira de lei e a apropriação ilegal de terras. Por lá, o desmatamento ilegal continua ocorrendo em larga escala apesar dos esforços do governo brasileiro para o combate e redução desta atividade. Aparentemente, as agências governamentais abandonaram a luta contra estas atividades na área conhecida como 'Terra do Meio'.

Achamos que depois de quarenta anos de proteção iniciada pelos irmãos Villas Boas, os índios do Parque Indígena do Xingu (PIX), estão melhor preparados para o futuro do que os de outras reservas. Em cada uma das aldeias, existem alguns indivíduos que falam bem português e que são capazes de compreender a cultura de massa do Brasil, e que podem portanto servir de conselheiros aos caciques. Estas pessoas são normalmente professores treinados, agentes de saúde e funcionários da FUNAI.

Entretanto, os índios que vivem no estado do Pará são muito menos preparados. O que prevalece por lá é uma forte tradição paternalista na qual os postos-chave, que no PIX são ocupados pelos índios, são preenchidos por homens brancos. As tribos parecem estar aguardando por alguém que lhes traga a solução para seus problemas, enquanto que os índios do PIX buscam apoio que viabilize seus próprios projetos.

No Pará, muitas aldeias foram prejudicadas no passado pelo contato com os madeireiros, e agora se sentem abandonadas, desorientadas e incapazes de tocar seu futuro, depois que a atividade madeireira foi proibida pelas agências governamentais. Ainda se percebe muito ressentimento nos índios em relação ao IBAMA e à FUNAI. Numa de nossas visitas fomos intimados por um índio, relativamente importante dentro da hierarquia da aldeia, que ameaçava voltar a negociar com madeireiros e garimpeiros ilegais caso não arrumássemos dinheiro para financiar seus projetos.

Ficamos nos perguntando o que o futuro reserva para essas tribos? Identificamos diversos projetos que necessitam apoio. Quase todos eles precisam de apenas poucos recursos financeiros para serem tocados. Antes de deixarmos a Inglaterra para começar nossa expedição, já tínhamos percebido que várias organizações especializadas em levantar recursos para este tipo de projetos tinham abandonado o Xingu porque, para elas, a região tinha recebido tantos recursos em programas passados que agora, consideravam que estava num bom nível e não precisava de ajuda imediata.

Se por um lado é verdade que no passado o Xingu esteve no centro das atenções, principalmente na década de 90, quando o roqueiro Sting ajudou o cacique Raoni a conseguir a demarcação da reserva Mekragnoti, hoje em dia a situação é muito mais precária.

Quando foi criada, a reserva era cercada por floresta fechada. Atualmente, a área é cercada por plantações de soja, pastos para gado e diversos vilarejos que não param de crescer.

Naquela época, a reserva se resumia a um rincão de terra à beira do rio com apenas algumas pequenas picadas que ligavam as diversas clareiras ribeirinhas. Hoje em dia, a região em torno da reserva indígena é cortada por uma malha de estradas que chegam até ao limite das reservas. Muitas delas estão para ser asfaltadas em breve.

A imprensa brasileira e a mídia internacional estão presentes na área e a região vive no centro das atenções.

Atualmente, as atividades ilegais de grilagem de terra e retirada ilegal de madeira de lei continuam firme e forte na Terra do Meio, longe do olhar atento das agências governamentais e da atenção gerada pela mídia.

É como se depois de alcançarem seu objetivo, as influências benignas tenham simplesmente abandonado a região, ignorando as ameaças que vieram a seguir. O meio ambiente e os povos que vivem na região são vulneráveis e frágeis. Eles ainda precisam de ajuda, e dentro de nosso próprio interesse, devemos prestar a ajuda de que precisam.

Atualmente, muita gente reconhece que a floresta Amazônica presta um serviço vital para o equilíbrio climático. A floresta atua como uma imensa bomba d'água, lançando vinte bilhões de toneladas de água na atmosfera diariamente. Uma grande parte dessa água segue rumo sul, fornecendo níveis de chuva essenciais à irrigação da agricultura das regiões produtivas do sul do Brasil e dos países vizinhos. Sem esse "rio aéreo", a agricultura do Brasil se tornaria menos produtiva e partes da região se transformariam em grandes desertos.

A enorme quantidade de água lançada na atmosfera pela floresta Amazônica afeta regiões muito além da fronteira brasileira, tendo um grande impacto no clima e nos sistemas atmosféricos e meteorológicos mundiais.

Não faz nenhum sentido que um recurso tão importante como este seja simplesmente destruído. Mas, interesses econômicos presentes no Brasil, fazem com que uma área desmatada tenha um valor comercial pelo menos cinco vezes maior do que a mesma área coberta de floresta virgem, o que tem estimulado o avanço permanente dos tratores e motosserras.

A destruição só será interrompida definitivamente quando ficar comprovado e reconhecido o valor ambiental existente na floresta Amazônica de modo que ele seja recompensado por um sistema financeiro que atribui à floresta um valor comercial mais elevado do que o da terra desmatada. É chegada a vez para que a comunidade internacional transforme as palavras bonitas em ações e compareça com o dinheiro necessário para que isso se transforme em realidade.

A expedição Coração do Brasil é patrocinada por: Royal Geographical Society, Rainforest Concern e Artists Project Earth.

 
 
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Índios do Xingu (foto: Sue Cunningham) Expedição no Xingu
Britânicos fazem balanço.
 
 
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