O judô que muda vida em favelas e deu ouro a Rafaela Silva

Rafaela Silva (de branco) luta com a romena Corina Caprioriu Direito de imagem Getty Images
Image caption Rafaela Silva, judoca de 24 anos, trouxe o primeiro ouro para o Brasil na Rio 2016

Quando voltou da Olimpíada de Sydney, em 2000, o judoca e ex-técnico Geraldo Bernardes já havia ajudado o Brasil a conquistar seis medalhas olímpicas no judô.

Se viu entre duas opções: colocar o pijama e ficar em casa ou recomeçar. Escolheu a segunda e, nesta Olimpíada do Rio, ajudou o país a ganhar mais uma medalha - a primeira de ouro em casa.

Bernardes fundou, naquele mesmo ano, um projeto para dar aulas de judô na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio.

Foi ali que descobriu Rafaela Silva, judoca de 24 anos que trouxe o ouro para o Brasil nesta segunda-feira. Com fama de briguenta, a menina, então com 8 anos, entrou nas aulas para canalizar a energia para o esporte.

Foi com a ajuda da ONG que Rafaela se tornou uma atleta de alto nível e - talvez até mais importante - foi por causa do projeto que ela permaneceu no esporte.

Direito de imagem Instituto Reação
Image caption O judoca e ex-técnico Geraldo Bernardes já havia ajudado o Brasil a conquistar seis medalhas olímpicas.

A judoca, que é negra e da Cidade de Deus, foi vítima de ataques racistas após a Olimpíada de Londres. Ela foi chamada de "macaca" e de "vergonha da família" nas redes sociais após ser eliminada por aplicar um golpe ilegal, que havia deixado de ser permitido no esporte.

Quis desistir, mas recebeu apoio psicológico da ONG e voltou a treinar. Ao ganhar a medalha, Rafaela fez um desabafo emocionado.

"O macaco que tinha que estar na jaula hoje é campeão", afirmou.

Um dia após a vitória, Bernardes disse à BBC Brasil que o Instituto Reação - fruto da união de seu projeto com o do também judoca Flavio Canto - usa o judô como "isca para a inclusão social". Retira, assim, crianças e adolescentes da influência do crime e do tráfico de drogas.

Direito de imagem Guilherme Costa/Instituto Reação
Image caption ONG quer afastar crianças e adolescentes da influência do crime e do tráfico de drogas.

Nas aulas de judô, são ensinados não apenas os golpes como também valores do esporte, como humildade e respeito.

Há ainda um eixo educacional - com oficinas, projetos multidisciplinares e distribuição de bolsas de estudos em universidades.

Mas o diferencial é o eixo voltado para formação de atletas de alto nível, do qual Rafaela fazia parte.

Bernardes costuma dizer que o esporte de alto nível exige sacrifícios, e que os atletas de favelas estão acostumados a isso.

"Nós não excluímos os atletas que não têm talento. Nós os incluíamos no programa de educação, desenvolvimento intelectual, para ser inserido no mercado de trabalho."

"Os que têm talento também estudam, mas têm um planejamento para que possam almejar estar numa seleção brasileira e numa Olimpíada," explica.

O Reação tem, hoje, mais de 1.200 alunos, distribuídos em cinco polos - entre eles Rocinha e Cidade de Deus.

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Image caption Fundador de ONG diz que esporte de alto nível exige sacrifícios - e que os atletas de favelas estão acostumados a isso.

Os atletas que entram no programa Reação Olímpica, coordenado por Bernardes, recebem treinamento no esporte e supervisão de preparadores físicos, técnicos, nutricionistas e psicólogos - aqueles que ajudaram Rafaela a permanecer no esporte.

Segundo Bernardes, o ataque racista foi um fato raro e os outros atletas do instituto nunca sofreram com esse tipo de preconceito.

Ele diz que já há vários atletas no centro seguindo o caminho de Rafaela - campeões brasileiros e sul-americanos que são promessas para os próximos Jogos.

E servir de exemplo foi exatamente o que Rafaela disse querer após ganhar sua medalha.

"Se eu puder servir de exemplo para as crianças que saem da comunidade assim como eu saí da Cidade de Deus, acho que é o que eu tenho para passar no judô", afirmou.

Entre os atletas que receberam apoio da ONG estão também os congoleses Popole Misenga e Yolande Bukase, que fazem parte da delegação de refugiados da Olimpíada. A história dos dois - e a participação de Geraldo Bernardes no treinamento dos judocas - foi tema de uma reportagem da BBC Brasil.

"Além de treinamento, nós temos uma equipe multidisciplinar, com nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta e preparador físico. Eles têm uma cesta básica e um kimono", disse Bernardes.

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Os judocas do Congo presos em jaulas após derrotas que sonham com ouro no Rio

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