Nem Usain Bolt lota arquibancada do atletismo na Rio 2016

Astro Usain Bolt (2º da esq. para a dir.) disputou eliminatórias neste sábado Direito de imagem Getty Images
Image caption Astro Usain Bolt (2º da esq. para a dir.) disputou eliminatórias neste sábado

Nem a presença do homem mais rápido do mundo, o velocista jamaicano Usain Bolt, foi suficiente para lotar as arquibancadas do Estádio Olímpico nas eliminatórias do atletismo durante a manhã e a tarde deste sábado.

Apesar de filas e tumulto na chegada ao Engenhão, na Zona Norte do Rio, ainda havia muitas cadeiras vazias, cena que tem sido recorrente em determinadas provas, apesar de o Comitê Rio-2016 reiterar que 82% dos ingressos foram vendidos.

Ainda no início da manhã, o diretor de comunicações do Comitê Rio-2016, Mario Andrada, disse em seu briefing diário esperar um "estádio lotado" neste sábado. "O atletismo é o rei da Olimpíada. Temos certeza absoluta de que as pessoas verão a beleza da competição e vão querer estar lá. Teremos um estádio cheio."

Segundo Andrada, 93% das entradas para as provas de atletismo da manhã e 79% das disponibilizadas para a noite haviam sido vendidas.

No entanto, a BBC Brasil esteve no Engenhão e identificou lotação em número quase igual ao de cadeiras vazias durante as eliminatórias da manhã. Na sexta-feira, primeiro dia de competições de atletismo, somente 58% das cadeiras estavam ocupadas.

Nas provas da noite, a reportagem identificou público maior do que o de sexta-feira e o da manhã, mas ainda havia muitas cadeiras vazias, sobretudo nos cantos superiores.

Cadeiras vazias

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Image caption Competições de ginástica também tiveram momentos com cadeiras vazias

De um total de 6 milhões de ingressos colocados à venda, os últimos números divulgados pelo Comitê Rio-2016 dão conta de que 82% já foram comprados - 1,1 milhão continuam disponíveis.

Nos Jogos de Londres, em 2012, foram postos à venda 11,3 milhões de ingressos, quase o dobro do Brasil. A Olimpíada terminou com o balanço de 10,99 milhões de entradas vendidas - embora também tenha havido o problema das cadeiras vazias em algumas competições.

Entre as provas com menor lotação estão as localizadas no Complexo de Deodoro (incluindo rúgbi, hóquei sobre grama, hipismo e canoagem slalom, entre outras). As disputas de saltos ornamentais, durante a semana, mostravam mais da metade das arquibancadas vazias.

Mas o problema se estende a outros lugares: nem mesmo o atletismo foi suficiente para lotar o Estádio Olímpico, e alguns jogos de vôlei de praia, em Copacabana, também tinham muitas cadeiras vazias mesmo durante partidas de duplas brasileiras.

Algumas disputas de natação, basquete, tênis, vôlei de praia e de vôlei, por outro lado, têm mostrado arenas praticamente lotadas.

Questionado pela BBC Brasil, o Comitê Rio-2016 afirmou que o comportamento dos torcedores pode variar - e isso influi na lotação das arenas.

"Temos muitas sessões com longa duração e com múltiplos eventos. O torcedor tem o livre arbítrio para chegar na hora em que deseja assistir o evento preferido, ou sair para comer alguma coisa. As arenas enchem em determinado evento como podem esvaziar de acordo com o que o torcedor deseja ver", disse o comitê em nota.

A distância e dificuldades de transporte para alguns dos locais de competição, a falta de interesse de brasileiros por alguns esportes menos populares e tradicionais no país, o custo dos ingressos, a cota de entradas dadas a patrocinadores (muitas acabam não sendo usadas), a distribuição de bilhetes a alunos de escolas públicas, além das notícias negativas que podem ter afugentado estrangeiros são outros motivos já levantados por analistas na imprensa brasileira e internacional.

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Image caption Algumas disputas de boxe, no Riocentro, também estavam quase vazias

Patrocinadores, Londres e voluntários

Em um artigo escrito em julho para o site HealthZette, o analista Ken Hanscom lembrou que os organizadores dos Jogos de Londres também enfrentaram críticas pelas muitas cadeiras vazias em algumas arenas.

"É o desafio enfrentado pelos patrocinadores olímpicos, que recebem toneladas de entradas, muitas das quais - até 43% - não são usadas", afirmou.

Segundo ele, as empresas recebem até 10% do percentual dos ingressos olímpicos. "Em Londres 2012, não houve crise de saúde e ainda assim assistimos a atletas competindo em locais meio vazios, com a cidade procurando uma solução rápida."

Durante os Jogos realizados na capital britânica, o site oficial de ingressos dizia que diversas competições tinham entradas esgotadas enquanto muitas provas eram realizadas em arenas quase vazias ou repletas de assentos desocupados.

Diante das críticas, os organizadores buscaram soluções emergenciais: funcionários e estudantes foram convocados para preencher as cadeiras vazias; mais ingressos foram colocados à venda; foi criado um sistema no qual torcedores que deixavam as arenas antes do término das competições entregavam seus bilhetes para quem estava do lado de fora; e grandes patrocinadores disseram que cederiam as entradas que tinham por meio de concursos e promoções.

No Rio, até o momento não foi apresentada nenhuma dessas alternativas - a distribuição de ingressos para escolas já estava acordada antes do início dos Jogos e a entrega de entradas aos voluntários, segundo o Comitê Rio-2016, já estava dentro do pacote de benefícios.

"Os voluntários fazem parte dos Jogos e são fundamentais para que tudo aconteça. O benefício de ingressos faz parte do 'pacote' dos outros benefícios que eles ganharam", disse o comitê.

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Image caption Algumas partidas de esportes como tênis, porém, andam lotadas

Distribuição a escolas

Segundo o Comitê Rio-2016, 285 mil ingressos foram distribuídos em cem projetos por meio de programas parceiros como o Jovem Aprendiz, projetos sociais do Governo do Estado do Rio e da Vila Olímpica e iniciativas de escolas de samba e dos patrocinadores.

Na nota, os organizadores afirmam que esses bilhetes são em sua grande maioria para modalidades como handebol, futebol, basquete, rúgbi, hipismo e canoagem slalom, entre outros.

De acordo com o governo estadual, o projeto Viva os Jogos entregou 55 mil ingressos a alunos de sua rede de ensino para as modalidades de badminton, hóquei de grama, hipismo, tiro, canoagem slalom, boxe, tênis de mesa e levantamento de peso, além de 5 mil bilhetes para a partida Brasil x China do futebol feminino.

Já a Faetec (fundação dedicada às escolas técnicas) recebeu 15 mil ingressos, todos referentes às competições realizadas entre os dias 9 e 14 de agosto.

Durante os preparativos para os Jogos, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), chegou a anunciar que compraria 1,2 milhão de ingressos da Olimpíada e da Paralimpíada para distribuir para alunos da rede municipal.

Meses depois, o número foi reduzido para 547 mil bilhetes (47 mil para os Jogos Olímpicos e 500 mil para os Jogos Paralímpicos) - a prefeitura anunciou que a distribuição custaria R$ 5 milhões aos cofres públicos.

A Justiça Eleitoral, no entanto, proibiu a iniciativa devido à iminência das eleições municipais, que serão realizadas em outubro - na justificativa, apontou a possibilidade de "exploração política" da medida.

O programa da prefeitura tinha sido anunciado em maio pelo então secretário de Governo, Pedro Paulo, hoje fora da administração para concorrer pelo PMDB à sucessão de Paes - na época, já se sabia que ele seria o candidato apoiado pelo prefeito.

Nos Jogos de Pequim, na China, em 2008, o governo chinês colocou à venda 1 milhão de ingressos por meio de um programa voltado a estudantes, custando 5 yuans ou 10 yuans (cerca de R$ 2,50 e R$ 5, respectivamente, em valores atuais). Segundo a gestão, 556 escolas de todo o país receberam as entradas.

Questionado, o Comitê Rio-2016 disse à BBC Brasil que está "realizando os primeiros Jogos Olímpicos da América do Sul e queremos aproveitar esta oportunidade para aproximar os nossos jovens dos esportes e os atletas do calor humano do brasileiro".

Na nota, os organizadores disseram que "se existirem lugares disponíveis nas instalações durante algumas sessões, o Comitê Rio-2016 dará a oportunidade a esses estudantes e jovens aprendizes do programa Transforma, existente desde 2014, e de outros projetos parceiros".

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