'Senti tanto orgulho': a noite brasileira no maior festival de música clássica do mundo

A reprodução deste formato de vídeo não é compatível com seu dispositivo
Osesp toca 'Tropicália' em festival de música clássica em Londres

Tem algumas coisas que são difíceis de aceitar. Por exemplo, que a linda Bachianas Brasileiras Nº 4, de Heitor Villa-Lobos, nunca tivesse sido tocada no Proms, o festival de música clássica mais prestigioso da Grã-Bretanha e um dos mais importantes do mundo.

Também é duro de engolir que orquestras como a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp, fundada por Eleazr de Carvalho em 1954) e a Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo (idealizada por Arrigo Barnabé e fundada em 1989) não se apresentem em palcos como este com mais frequência. Estou falando do lendário Royal Albert Hall, em Londres, palco principal do Proms e também de grandes eventos da música popular mundial.

Essas e tantas outras injustiças foram esquecidas na semana passada, quando a Osesp e um grupo de músicos da Jazz Sinfônica tomaram conta do Proms e deram seu recado com uma eloquência sem tradução em palavras. Naquela noite, a música falou pelo Brasil de uma forma que, em duas décadas em Londres, jamais vi. Não em um palco como aquele, com tal visibilidade e em tal concentração de talentos e mentes.

Image caption Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo regida por Marin Alsop

Senti tanto orgulho que quase alcei voo.

Eram 92 dos melhores músicos brasileiros (mais 13 pessoas na equipe de apoio, incluindo o diretor, Arthur Nestrovski), com regência da estrela americana Marin Alsop. Na mala, trouxeram não apenas Villa-Lobos, Marlos Nobre e clássicos do repertório erudito internacional, como também uma seleção espetacular com um século de música popular brasileira em inspirados arranjos orquestrais assinados por mestres como Ruriá Duprat (sobrinho de outro mestre, Rogério), André Mehmari, Eumir Deodato e Dori Caymmi.

Suspiros

Foram duas récitas. Na primeira, mais formal, a Osesp (que já havia se apresentado no Proms em 2012) tocou peças comuns ao repertório de grandes orquestras internacionais (Danças Sinfônicas, Op. 45, de Sergei Rachmaninov e Concerto para Piano em A Menor, Op. 16, de Edvard Grieg) e composições brasileiras.

Deste concerto, eu destacaria o Prelúdio da Bachianas Brasileiras Nº 4. Teria sido maravilhoso ouvir a peça inteira, mas o Prelúdio, com sua beleza dolorida, bastou para me transportar a um Brasil profundo. A execução, com alma, das cordas da Osesp, fez muita gente suspirar. Quem sabe o concerto não abrirá portas não apenas para todas as nove Bachianas, como também para as sinfonias de Villa-Lobos, ainda pouco conhecidas pelo mundo? (As sinfonias, aliás, estão finalmente sendo revisadas e gravadas na íntegra pela Osesp.)

Músicos emocionados

Às 22h15, começou o segundo concerto. A série Late Night Proms tende a ser menos formal, com repertório mais eclético e muito espaço para música popular.

Image caption A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo diante da regente Marin Alsop

Eu tinha conversado com um dos músicos da Osesp no intervalo entre os dois concertos. Ele havia me avisado para que me preparasse, o concerto seria lindo. Comentei que tinha assistido ao ensaio e que já estava encantada, mas ele respondeu: "É como no futebol. No treino, você nunca dá tudo. Mas, na hora do jogo é diferente."

Eu perguntei se era especial para ele, tocar no Proms. "Sim, é muito especial. A emoção de tocar em um lugar como esse é muito grande."

Image caption Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo regida por Marin Alsop

E de fato. Músicos da Osesp e da Jazz Sinfônica (piano, guitarra, baixo, percussão, bateria e naipe de metais) subiram ao palco juntos, pela primeira vez, para celebrar a música popular do Brasil. Dançou o velho Alberto Hall, dançou a regente e dançou a plateia ao som do frevo, samba, baião e bossa nova.

Mas as estrelas dessa noite – ao lado dos músicos, da regente e dos compositores – foram os arranjadores. Luiz Arruda Paes, Proveta, Tiago Costa, Nélson Ayres… a lista é longa.

Os arranjos orquestrais levaram clássicos como Folhas Secas (Nelson Cavaquinho), Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque), Estrepolia Elétrica (Moraes Moreira) e Tropicália (Caetano Veloso) para outras dimensões. E, ao mesmo tempo, revelaram como é robusta e cheia de possibilidades, a canção brasileira.

No caso de Tropicália, não pude deixar de me perguntar o que Rogério Duprat teria dito, ao ouvir o hino tropicalista que ele arranjou há quase meio século, agora em versão tão espetacular, assinada por seu sobrinho.

Faço minhas as palavras da triunfante Alsop, ao final do concerto: "Os brasileiros, às vezes falam de seu país em termos de promessas não realizadas. Mas, para mim, toda promessa é realizada na música do Brasil."

A jornalista Mônica Vasconcelos também é cantora e compositora atuando na cena jazz londrina há duas décadas.