'Fui parar na cadeia por causa da minha lesão cerebral'

  • Beth Rose
  • BBC News
Dominic Hurley no hospital, em 1994

Crédito, Headway

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Médicos disseram que Hurley jamais andaria ou falaria novamente

É normal na vida de Dominic Hurley quando as pessoas pensam que ele está embriagado, por causa da fala arrastada e da falta de equilíbrio em seus passos.

No entanto, esses são problemas resultantes de uma lesão cerebral que o britânico sofreu em um acidente de moto. Só que nem sempre ele tem tempo de explicar e por algumas vezes ele acabou preso pela polícia.

Em 1994, quando tinha 21 anos, Hurley era estudante de hotelaria e morava em Chipre, onde fazia um estágio em um hotel na localidade de Ayia Napa.

Junto com amigos, tinha saído para jantar. O grupo ficou cansado e decidiu voltar para casa em motos alugadas.

"Eu tinha a mais lenta e estava atrás de todo mundo. Devo ter dormido ou perdido a concentração, mas caí. E não estava usando capacete", conta Hurley.

Ele bateu a cabeça e passou meses no hospital. Seus pais ouviram dos médicos que ele não andaria ou falaria novamente.

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Britânico ficou três meses em coma

"Fiquei em coma três meses, mas fiquei um pouco ausente de tudo por pelo menos um ano. Minha vida mudou totalmente. Fui uma pessoa até os 21 anos e outra depois".

Hurley, que vive na cidade de Rotherham no norte da Inglaterra, desafiou os prognósticos médicos, mas segue com o lado direito do corpo paralisado e teve que aprender a escrever com a mão esquerda. Sua memória também sofreu danos. Ele consegue apenas lembrar-se de alguns momentos da vida em Chipre, mas nada do acidente ou dos 12 meses de recuperação.

Perdeu também a maior parte das memórias da infância.

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Britânico sofreu danos permanentes à memória e ficou com o lado direito do corpo paralisado

"Minha memória é como uma parede de tijolos em que você atira lama - alguma parte gruda, outra escorre e outra simplesmente cai fora", explica.

Outro sintoma é que ele pode ficar agitado. E isso causou problemas com as autoridades.

"Fui preso três vezes".

A primeira vez foi em um restaurante indiano, quando reclamou da qualidade da comida com os garçons e eles chamaram a polícia. Quando tentou explicar a situação, os policiais acharam que ele estava bêbado.

"Fui jogado em uma van e colocado em uma cela. Apenas no dia seguinte pude explicar o que aconteceu".

Na segunda vez, Hurley estava em um táxi com amigos quando o motorista exigiu pagamento adiantado - para o caso do britânico passar mal dentro do carro.

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Hurley com os pais, Anne e Bill já nos dias de hoje

Os amigos tentaram explicar sua situação, mas a polícia foi chamada e Hurley, detido.

"Todas as vezes em que fui preso, fui tratado como um criminoso comum ou como um bêbado. Sequer conversaram comigo direito".

A BBC entrou em contato com o Conselho Nacional de Chefes de Polícia do Reino Unido, que se recuso a comentar o caso.

Na terceira vez em que foi preso, porém, quando estava perto do local em que havia ocorrido uma briga, Hurley tinha o que se pode chamar de um ás na manga: uma carteira de identidade para pessoas com lesões cerebrais, uma iniciativa da ONG Headway, especializada em políticas de reabilitação.

O documento descreve os sintomas que o portador pode apresentar.

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Modelo do cartão que identifica pessoas com lesões cerebrais e detalha possíveis reações

"Quando a polícia checou meus documentos, encontrou a carteira. Foi muito útil, porque fui liberado logo depois em vez de passar a noite na cadeia outra vez".

O documento foi lançado nacionalmente esta semana no Reino Unido como forma de ajudar pessoas como Hurley, incluindo em situações com a polícia.

"Muitas pessoas acabam classificadas como bêbadas por causa da fala arrastada ou de um andar diferente. E têm suas explicações frequentemente ignoradas. O documento é uma solução simples para uma conversa complicada", explica Peter McCabe, diretor-executivo da Headway.

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Apesar do acidente, Hurley já participou de corridas de bicicleta de mais de 100km

Hurley, hoje com 44 anos e pai, concorda.

"Quero que as pessoas saibam o que está de errado em vez de fazerem suposições. O documento é uma maneira melhor de fazer isso", diz ele.

Apesar do acidente, Hurley cursou design gráfico em uma faculdade de Sheffield. Foi lá que conheceu a alemã Doreen, hoje sua esposa.

"As coisas são mais difíceis para quem tem uma lesão cerebral, mas tudo o que precisamos é de um pouco de compreensão".

Ele hoje também dá palestras em que fala sobre sua recuperação e reabilitação. Frequentemente leva a mãe, Anne que fala sobre os desafios dos cuidados.

Hurley é também um ciclista inveterado e participa de diversos projetos de caridade.