Como o preço do cobre disparou - e o que a China e os carros elétricos têm a ver com isso

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Image caption Alta do preço do metal desse se manter nos próximos anos

Com uma alta de 30% em 2017, o preço do cobre atingiu seu valor mais alto nos últimos quatro anos. E não se trata de um fenômeno pontual, segundo analistas, com projeções apontando que esse aumento deve se manter pelo menos até 2020.

"Há no mercado uma clara tendência de deficit de cobre, portanto os preços altos da segunda metade do ano passado são um reflexo da escassez do metal, que deve perdurar nos próximos cinco anos", diz Rolando Lay, analista da Crugrup, consultoria especializada em mineração.

"A China atualmente consome cerca de metade do cobre refinado do mundo e, naturalmente, qualquer notícia positiva sobre as tendências de consumo de metais na China terá um impacto imediato sobre seu preço."

A chamada "chinodepedência" tem sido há anos a principal causa do aumento ou queda do preços do cobre. O país lidera as importações desse metal, com 49%, seguido por Japão (18%) e Coreia do Sul (6,7%). O Brasil vem em oitavo, com 1,6%.

A escalada do último ano tem relação direta com esse gigante asiático, cuja economia cresceu 6,8% em 2017, segundo o Banco Mundial.

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Image caption A China é o principal consumidor de cobre do mundo

Pequim tem uma grande demanda de cobre para a construção e manutenção de sua rede de distribuição de eletricidade, de cabos usados em edificações, da tubulação de água e de gás e sistemas térmicos.

O cobre ainda é usado em carros, trens, aviões, barcos, computadores, na indústria e nas redes de banda larga. Ou seja, é imprescindível se o país quiser crescer.

A revolução dos carros elétricos

Além da China, há outros fatores que têm influenciado no aumento do preço deste metal, como a queda do dólar e movimentações especulativas de investidores.

É igualmente importante o mercado de veículos elétricos, que usam muito cobre em suas baterias, motores e engrenagens, e sua forte expansão prevista para os próximos anos.

Como a produção de carros e ônibus elétricos e híbridos deve passar de 3 milhões em 2017 para 27 milhões de unidades em 2027, segundo uma pesquisa da Associação Internacional de Cobre, isso pode gerar uma demanda extra de até 1,75 milhões de toneladas em dez anos.

Hoje, o mercado global gira em torno de 23,9 milhões de toneladas, de acordo com o mesmo estudo.

Consultorias como a Equity Credicorp Capital do Peru, um dos principais países produtores, destacam que vários fundos estão investindo em cobre, pois estão convencidos de que esses novos modelos de automóveis impulsionarão seu valor.

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Image caption Os carros elétricos aumentam a demanda por cobre

Também influencia isso o rápido crescimento das energias renováveis, um setor de uso intensivo de cobre. Uma usina solar ou eólica, por exemplo, pode ter mais do que o dobro da demanda do metal do que a geração de eletricidade a partir de carbono.

E não se pode esquecer, dizem os especialistas, que não estão previstos grandes projetos de mineração nessa área, fazendo com que o preço se mantenha em alta, embora a qualidade do metal venha piorando.

Um novo 'superciclo'?

O dia 28 de dezembro tornou-se um marco - o preço do metal chegou a US$ 7.312 (R$ 23.721,59) por tonelada na Bolsa de Metais de Londres, um patamar que não era visto há quase quatro anos.

É uma situação bem diferente de agosto de 2016, quando Nelson Pizarro, presidente da estatal de mineração Codelco, no Chile, disse "não ter nem um peso sequer" ao ilustrar a situação difícil, com grandes prejuízos e dívidas, pela qual passava a empresa com a queda do preço do metal.

O Chile é o principal produtor de cobre do mundo e respondeu por 28% das exportações de 2016, segundo dados compilados pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês), dos EUA. O Peru é o segundo, com 19%, seguido pela Indonésia, com 7,9%. O Brasil aparece em sétimo, com 4%.

A época de dificuldades parece ter ficado para trás, diante do que pode ser um potencial novo "superciclo" do cobre, ainda que não tão pujante quanto o anterior, que começou em 2003 e levou seu preço às alturas.

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Image caption Chile e Peru são os maiores produtores do mundo

"No curto prazo, o período gera mais benefícios para os produtores, com mais receitas para esses países, mais gasto público, maior confiança dos investidores e uma pressão por aumento de salários", diz Juan Carlos Guajardo, diretor da consultoria Plus Mining.

Por outro lado, adverte o analista, é necessário aprender com as lições deixadas pelo período de preços baixos e fazer investimentos pensando no longo prazo. "O desafio é a capitalização. Transformar essas receitas em algo virtuoso, poupar para o futuro e ir além da mera exploração do recurso", acrescenta.

A discussão entre os países produtores vem sendo centrada em inovação e novas tecnologias de mineração e em como fazer alianças entre os setores público e privado para promover avanços em pesquisa e desenvolvimento.

Enquanto isso, a maioria dos especialistas não enxerga no horizonte uma baixa relevante no preço do metal, embora alguns mais céticos acreditem que o mercado acabará se ajustando e fazendo com que o valor volte a um nível "mais normal", próximo do registrado nos últimos anos.

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