A visão inspiradora de Stephen Hawking na última entrevista à BBC

Stephen Hawking e Pallab Ghosh Direito de imagem Pallab Ghosh
Image caption Stephen Hawking e Pallab Ghosh conversaram em outubro de 2017

Em outubro do ano passado, eu convidei o professor Stephen Hawking a comentar sobre a detecção de ondas gravitacionais a partir da colisão de duas estrelas mortas (ou estrelas de nêutrons). Acabou sendo a sua última entrevista a ser transmitida - Hawking morreu aos 76 anos em casa, na Inglaterra, no dia 14 de março.

A colisão foi um evento de grande importância por várias razões: para começar, por ter sido o primeiro registro de um evento cósmico ocorrido há 130 milhões de anos, quando dinossauros ainda habitavam a Terra, e permitir que vários telescópios pudessem tirar proveito da descoberta.

Isso significou que, além de detectar as ondas gravitacionais emitidas pela fusão no tempo-espaço, astrônomos puderam ver pela primeira vez o que acontece quando dois objetos incrivelmente massivos colidem, um processo que pode ser a única forma de criar ouro e platina no universo.

Definitivamente, era algo para o professor Hawking explicar.

Nos últimos anos, ele fez comentários sobre mudanças climáticas, viagens espaciais e inteligência artificial. Suas entrevistas sempre cativavam a audiência. Fui sortudo o suficiente de ter entrevistado-o muitas vezes e, para mim, ele se tornava especialmente instigante quando se sentia "em casa" - falando da física que tanto amava e dando nós nas nossas cabeças com as implicações de novas descobertas.

Eu também ficava muito sensibilizado e honrado quando sua equipe me contou que ele sempre gostava de nossos encontros.

No artigo em questão, só pude usar uma de suas respostas. Portanto, o resto da entrevista não foi publicado. Aqui está a sua íntegra. Ele nos deixa sua marca registrada: uma visão inspiradora sobre o cosmos que, sob seu olhar, chega a nós belo e misterioso.

BBC - Quão importante é a detecção da colisão de duas estrelas mortas?

Stephen Hawking - É um marco genuíno. É a primeira detecção de uma fonte de onda gravitacional com contrapartida eletromagnética. Confirma que com a fusão das estrelas mortas, ocorrem pequenas explosões de raios gama. Isto nos dá uma nova maneira de determinar as distâncias na cosmologia. E também nos ensina sobre o comportamento de matéria com densidade incrivelmente alta.

Direito de imagem C.W.Evans/Georgia Tech
Image caption Simulação da fusão de estrelas mortas

BBC - Isto nos ajudará a entender como os buracos negros se formam?

Hawking - A teoria já nos indicava que um buraco negro pode se formar a partir da fusão de duas estrelas de nêutrons.

Mas este evento é o primeiro teste ou observação. A fusão provavelmente produz uma estrela morta supermassiva e giratória que então colapsa para criar um buraco negro.

Isto é muito diferente de outras formas de surgimento de buracos negros, como uma supernova ou quando uma estrela de nêutrons aumenta a sua massa a partir de uma estrela normal.

Com uma análise cuidadosa dos dados e de modelos teóricos em supercomputadores, há uma ampla margem para que se conheça mais sobre a dinâmica de formação dos buracos negros e das explosões de raios gama.

BBC - Medir as ondas gravitacionais nos ajudará a entender melhor como funciona a relação espaço-tempo, a gravidade e, assim, pode transformar o que sabemos sobre o universo?

Hawking - Sim, sem dúvida. Uma escada cósmica de distância (método que astrônomos usam para medir grandes distâncias de corpos celestiais) independente pode proporcionar uma confirmação independente das observações cosmológicas ou pode revelar grandes surpresas.

As observações das ondas gravitacionais nos permitem colocar à prova a relatividade geral em situações onde o campo gravitacional é forte e altamente dinâmico.

Algumas pessoas pensam que a relatividade geral precisa de modificações para evitar a introdução da energia escura ou da matéria escura.

As ondas gravitacionais são uma nova forma de buscar uma sinalização das possíveis modificações da relatividade geral.

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Image caption Descobertas recentes mostram que colisão das estrelas mortas leva ao surgimento do ouro

Uma nova janela de observação do universo geralmente conduz a surpresas que ainda não podem ser previstas.

Ainda estamos esfregando os olhos, ou melhor, os ouvidos, uma vez que acabamos de despertar para o som das ondas gravitacionais.

BBC - O choque das estrelas de nêutrons uma das poucas ou, possivelmente, a única maneira com que o ouro pode ser produzido no Universo? Isto poderia explicar por que ele é tão escasso na Terra?

Hawking - Sim, a colisão das estrelas de nêutrons é uma maneira de se produzir ouro. Ele também pode ser formar na rápida captura de nêutrons nas supernovas.

O ouro é escasso em todo lugar, não só na Terra. A razão para isso é que a energia para a fusão nuclear tem seu pico mais alto no ferro, o que geralmente torna mais difícil produzir elementos mais pesados.

Além disso, a força nuclear deve superar uma forte repulsão eletromagnética para formar núcleos pesados e estáveis como do ouro.

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