Como a Copa, que uniu a França em 1998, hoje evidencia tensões sociais

Franceses comemoram vitória da França na semifinal da Copa da Rússia Direito de imagem EPA
Image caption Franceses celebram vitória da França na semifinal da Copa da Rússia; comemoração pelo eventual título será intensa, mas não unificará país, dizem especialistas

Quando a França ganhou seu primeiro título da Copa do Mundo de futebol, em 1998, ao vencer o Brasil no Stade de France, um forte sentimento de união nacional tomou conta do país, suscitando grandes esperanças em relação à melhor integração de seus imigrantes. Vinte anos depois, no entanto, as divisões na sociedade francesa se acentuaram e o clima é bem diferente.

Se a França vencer a Croácia na final da Copa da Rússia no domingo, as comemorações serão intensas em todo o país, mas sem o mesmo fenômeno de coesão social de 98 e os efeitos de uma eventual vitória devem se dissipar rapidamente, acreditam analistas.

A seleção francesa de futebol de 98 tinha um slogan nacional: "black, blanc, beur" (negro, branco, árabe em gíria) em alusão ao bleu, blanc, rouge (azul, branco e vermelho) da bandeira do país.

Os bleus, como é chamado o time nacional, simbolizaram uma sociedade multicultural, com talento e unida.

A imagem do craque francês Zinédine Zidane, de origem argelina, foi projetada no Arco do Triunfo nas comemorações da vitória de 98. Até então, ninguém havia recebido esse tipo de homenagem.

No entanto, nas duas décadas seguintes, a situação social, econômica e política da França mudou bastante em relação a 98. Naquela época, o crescimento econômico era mais forte, o desemprego estava em queda e o governo estava ampliando os gastos públicos, diferentemente dos cortes orçamentários e das reformas em curso atualmente - em meio a crises econômicas e conflitos sociais.

Extrema direita e radicalismo islâmico

A fratura da sociedade se tornou mais visível. Após a Copa de 98, a extrema direita francesa - que faz fortes críticas à imigração - conseguiu duas vezes, em 2002 e 2017, chegar ao segundo turno da eleição presidencial. No ano passado, a direitista Marine Le Pen liderou por um bom período as pesquisas do primeiro turno.

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Image caption Capitaneada por Zidane (segundo da dir à esq), seleção francesa vitoriosa de 1998 celebrou o multiculturalismo, hoje em xeque no país

Vários fatores contribuíram para afetar de forma negativa a percepção de uma parte da sociedade francesa em relação à imigração, como a crise atual de refugiados (acampamentos de imigrantes são desmantelados regularmente em Paris) e os diversos atentados cometidos por radicais islâmicos que mataram centenas de pessoas no país.

O aspecto multicultural da seleção francesa de futebol deixou de ser colocado em primeiro plano nesta Copa do Mundo, e não apenas porque deixou de ser novidade e se tornou comum em vários países da Europa.

Segundo o sociólogo especialista em torcidas de futebol Nicolas Hourcade, da Universidade de Lyon, houve um "exagero" em 98 nas interpretações e comentários, após a conquista do título, que difundiram a ideia do "negro, branco e árabe" e que as origens diversas dos jogadores significaria "uma união nacional absoluta".

"Há (hoje) menos ilusão em relação a isso. Não é porque a seleção ganha a Copa do Mundo que milagrosamente todas as divisões entre os franceses vão desparecer. Hoje, há uma posição mais reservada e as pessoas não dizem mais que se a França vencer no domingo o país estará reunido e todo mundo vai se amar", ressalta Hourcade.

Resistência ao multiculturalismo

"As pessoas não se enganam. Elas querem compartilhar um momento comum, mas sabem que há tensões relacionadas à identidade francesa e também sociais", diz o sociólogo. "A eventual vitória no domingo não será suficiente para vencer as resistências dos que não acreditam no multiculturalismo."

A imprensa francesa vem comentando que há um "perfume de 98" no ar depois do fervor pelas ruas do país na terça-feira, quando os bleus conquistaram vaga na final ao derrotar a Bélgica.

Para o economista Pascal Perri, da consultoria PNC, "não há nada comparável entre 98 e a situação atual em termos de coesão social".

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Image caption Campo de migrantes em Calais sendo queimado em 2016; tensões migratórias cresceram na França nas últimas décadas

"Há mais tensão hoje na França. O questionamento da laicidade, o impacto do terrorismo, a presença de grupos salafistas, o medo em relação ao islã, a expansão de um pensamento fortemente nacionalista, tudo isso faz com que a França seja menos receptiva do que em 98", afirma Perri.

"Em 98, foi celebrada a vitória de um time multicultural, reflexo da diversidade. Hoje, a questão é outra. A França não sonha mais com diversidade."

"Ninguém mais se projeta na seleção francesa como um exemplo de diversidade cultural e de culto. Se a França vencer, as pessoas vão festejar a vitória da camisa azul", destaca o economista.

Futebol não substitui integração

"Aprendemos a lição de 98", diz o sociólogo especialista em esporte William Gasparini, professor da Universidade de Estrasburgo, fazendo referência ao que ele chama de instrumentalização política de 98, quando a conquista do título na Copa foi associada ao resultado do modelo de integração francesa.

"Foi uma ilusão. O futebol não substitui verdadeiras políticas de integração, de desmantelamento de guetos nas periferias, de programas de empregos para jovens e de melhor desempenho escolar", ressalta Gasparini.

"Agora, fala-se mais no aspecto coletivo do time em vez de destacar o caráter étnico para evitar acentuar as fraturas que existem nas periferias. Uma parte da sociedade é incapaz de lidar com o problema do desemprego e dos imigrantes", acrescenta.

O economista Luc Arrondel, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica, ligado à École Normale Supérieur (ENS), ressalta que o aumento das desigualdades sociais na França é outra grande diferença da situação atual em relação a 98.

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Image caption Morte de um jovem por um policial desencadeou tensões em Nantes no início de julho

Após a vitória dos bleus em 98, houve duas grandes ondas de violência em subúrbios pobres da França, em 2005 e 2007. A situação permanece instável em várias localidades do país.

Em meio aos jogos desta Copa, houve revoltas na periferia de Nantes, no oeste da França, após a morte de um jovem por um policial, no início de julho.

Inicialmente, não haveria telão para assistir à final da Copa em Nantes, por conta de riscos de novos incidentes, mas a secretaria de Segurança Pública da cidade decidiu autorizar uma "fan zone" no local.

Durante os festejos da conquista da vaga na final, na terça-feira, houve alguns incidentes com a polícia em Paris e outras localidades.

Distância entre Chirac e Macron

A diferença entre as duas décadas se reflete nos presidentes franceses: em 98, o conservador Jacques Chirac, com popularidade em queda, ganhou cerca de 14 pontos nas pesquisas de opinião nos dois meses após a conquista do título, antes de voltar a cair novamente nas sondagens.

Na época, havia um governo de coabitação. O primeiro-ministro era o socialista Lionel Jospin, da esquerda.

Hoje, porém, o presidente Emmanuel Macron, centrista, tem enfrentado várias críticas e sua popularidade também vem caindo, segundo pesquisas divulgadas nos últimos dias.

Especialistas apontam que Macron tem se mostrado discreto em relação à Copa do Mundo para não sugerir que estaria tentando tirar proveito político da eventual vitória dos bleus.

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Image caption Macron não deve se beneficiar politicamente da Copa tanto quanto Chirac o fez em 1998

Macron também poderá se beneficiar temporariamente se a França vencer no domingo. "Mas ele está em uma situação complicada e isso não muda nada em relação ao fato de que ele parece distante dos franceses", disse Frédéric Dabi, diretor-geral do instituto de pesquisas Ifop ao jornal Le Figaro.

"Ele terá, talvez, um sopro de oxigênio e alguns pontos nas pesquisas, mas isso não mudará estruturalmente a situação."

Comemorações ainda maiores que em 98

Apesar das divisões na sociedade francesa, as comemorações, caso a França se torne bicampeã mundial no domingo, poderão ser maiores do que em 1998, quando mais de um milhão de pessoas comemoraram na avenida Champs-Elysées, apontam os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Há problemas de falta de estoque de bandeiras e de camisas da seleção.

"A Copa de 98 foi um momento de grande alegria coletiva. Fala-se muito de algo mágico. Os jovens que não viveram isso na época querem descobrir e quem festejou na época quer reviver a emoção", diz Hourcade.

Mas o impacto da eventual vitória francesa neste domingo também poderá se dissipar rapidamente, logo após as férias de verão, caso o desemprego não caia e outros problemas continuem, segundo especialistas.

"Um ou dois meses depois, as pessoas encontrarão os mesmos problemas econômicos e sociais", diz o economista Arrondel.