As polêmicas acusações de ex-participante de 'O Aprendiz' que trabalhou ao lado de Trump na Casa Branca

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Image caption Omarosa Manigault Newman era a funcionária negra com cargo mais alto e um dos maiores salários da Casa Branca

Em um livro lançado nesta semana nos Estados Unidos, uma ex-participante do reality show americano The Apprentice (O Aprendiz) e ex-assessora da Casa Branca descreve o presidente americano, Donald Trump, como racista, sexista, intolerante e em declínio mental.

Omarosa Manigault Newman conheceu Trump em 2003, nas gravações de O Aprendiz, programa que ele comandou até 2015 e no qual ela ganhou reputação de "vilã".

Depois de se destacar como uma das principais apoiadoras da campanha presidencial de Trump, ela se tornou a funcionária negra com cargo mais alto e um dos maiores salários da Casa Branca, onde era diretora de Comunicações do Escritório de Relações Públicas.

Demitida em dezembro do ano passado, ela agora diz que finalmente percebeu "que a pessoa que eu achava que conhecia tão bem por tanto tempo era na verdade um racista".

Em seu livro de memórias Unhinged: An Insider's Account of the Trump White House ("Desequilibrado: Um Relato dos Bastidores da Casa Branca de Trump", em tradução livre), Newman acusa o ex-chefe e ex-mentor de ter usado diversas vezes nas gravações do reality show o termo pejorativo "nigger" (considerado tabu nos Estados Unidos) para se referir a negros e menciona a existência de uma gravação que comprova a alegação.

"O uso da palavra que começa com N não era apenas o jeito que ele fala, mas, o que é mais perturbador, era como ele pensava sobre mim e outros negros", escreve ela.

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Image caption Newman, no lançamento do livro em um programa de TV: Nos últimos dias, trechos ganharam manchetes nos EUA, mas foram vistos com desconfiança

Rumores

Rumores sobre a existência de uma fita em que Trump usa o termo pejorativo durante gravações de O Aprendiz são antigos e já foram noticiados diversas vezes, mas tal gravação nunca apareceu.

Alguns ataques do presidente contra personalidades e políticos negros nas redes sociais, como a deputada Maxine Waters, descrita por ele como "QI baixo", costumam gerar alegações de racismo por parte de seus críticos. Trump também é lembrado por seu papel de destaque entre os que espalharam a teoria da conspiração de que o então presidente Barack Obama havia nascido no Quênia (o que o tornaria inelegível).

Mas Newman não oferece provas para sua acusação e cita apenas fontes não identificadas. Nos últimos dias, quando trechos do livro ganharam manchetes nos Estado Unidos, muitos apontaram para contradições no relato, entre elas o fato de que, em entrevista à NPR (Rádio Pública Nacional), ela afirma ter ouvido a gravação, mas no livro ela apenas cita fontes que teriam descrito o conteúdo da fita.

Em uma série de tuítes na segunda-feira, Trump chamou Newman de "maluca" e disse que as pessoas na Casa Branca "a detestavam". Disse ainda que quando seu chefe de gabinete, John Kelly, relatou que Newman "só causava problemas", Trump o orientou a tentar resolver a situação, se possível, "porque ela só dizia coisas excelentes sobre mim - até ser demitida!".

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Image caption Em uma série de tuítes na segunda-feira, Trump chamou Newman de "maluca" e disse que as pessoas na Casa Branca "a detestavam"

Gravações secretas

Em entrevistas à rede NBC para divulgar o livro, Newman revelou gravações secretas que afirma ter feito do momento em que Kelly a demitiu e de um telefonema com Trump no dia seguinte.

Em um dos áudios, uma voz supostamente do presidente diz não saber que ela havia sido demitida. Na gravação da demissão, o homem que se supõe ser Kelly afirma que ela está sendo dispensada devido a "questões de integridade", entre elas o uso não autorizado de um carro do governo, e diz que ela está suscetível a ações legais.

"Se fizermos disso uma saída amigável… você poderá olhar para o período em que esteve na Casa Branca como um ano de serviço à nação e então poderá ir adiante sem qualquer tipo de dificuldade no futuro em relação a sua reputação", diz o homem na gravação.

O fato de Newman ter gravado as conversas privadas atraiu críticas de especialistas em segurança e gerou dúvidas sobre se ela violou a lei. O diálogo com Kelly ocorreu na Situation Room, sala de conferências da Casa Branca onde equipamentos de gravação são estritamente proibidos.

Newman afirma que fez as gravações para se "proteger" e insinua que foi demitida porque sabia demais sobre a suposta fita em que Trump usa o termo ofensivo.

No livro, ela diz que após sua demissão recebeu de Lara Trump, nora do presidente, a oferta de US$ 15 mil (cerca de R$ 58 mil) mensais para atuar na campanha de reeleição, contanto que assinasse um contrato que a proibia de falar sobre a família Trump ou a família Pence (do vice-presidente Mike Pence). Ela afirma que negou a oferta.

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Image caption Ex-assessora também dedica parte do livro para analisar a relação de Trump com a família e diz que a primeira-dama conta os dias para se separar

Ivanka e Melania

O livro descreve a Casa Branca de Trump como um "culto". Em determinada passagem, Newman analisa a relação entre o presidente e sua filha mais velha, Ivanka. "Desde que conheço Trump, observo a maneira como ele abraça, toca, beija Ivanka; a maneira como ela o chama de papai. Na minha opinião, baseada nas minhas observações, a relação deles ultrapassa a linha de comportamento apropriado entre pai e filha", diz um trecho.

Newman diz que Ivanka usa sua posição de "menininha do papai" para conseguir o que quer. Sobre a primeira-dama, diz que Melania e o presidente muitas vezes não se falam e que ela "está contando cada minuto até que Trump deixe a Presidência para poder se divorciar".

Segundo o livro, na época de O Aprendiz, Trump costumava perguntar aos participantes homens o que achavam das candidatas mulheres, se eram sexy ou como eram na cama.

Em outro trecho, Newman afirma que Trump chegou a pensar em fazer o juramento de posse sobre seu próprio livro, The Art of the Deal (A Arte da Negociação), em vez de sobre a Bíblia, como é costume entre os presidentes americanos.

Newman também questiona a saúde mental e física do presidente, de 72 anos, descrevendo "divagações incoerentes", e diz que Trump tem um entendimento apenas superficial do conteúdo das leis que sanciona.

O livro foi recebido com cautela pela imprensa americana. Entre as principais críticas estão a falta de comprovação ou de fontes identificáveis para as alegações, além de passagens com informações claramente incorretas.

Muitos questionam se a ex-estrela de reality shows é uma fonte confiável para falar sobre os bastidores da Casa Branca. Citam também o fato de que, até ser demitida, Newman era uma defensora ardorosa de Trump.

A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, disse que o livro está cheio de "mentiras e falsas acusações".

"É triste que uma ex-funcionária descontente da Casa Branca esteja tentando lucrar com esses falsos ataques, e ainda pior que a imprensa agora dê a ela uma plataforma, depois de não levá-la a sério quando ela só tinha coisas positivas a dizer sobre o presidente enquanto estava no governo", afirmou Sanders.

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