Como é chegar ao topo acadêmico no Reino Unido, onde negros são menos de 1% dos professores universitários de história

Olivette Otele Direito de imagem Bath Spa University

No último mês, Olivette Otele assumiu uma cadeira de história na Universidade Bath Spa, na Inglaterra. Segundo a instituição, ela se tornou a primeira professora negra de história titular em uma universidade do Reino Unido.

E espera não ser a única a segurar sozinha este posto por muito tempo.

"Acho que barreiras estruturais dificultam com que pessoas que se aparentam comigo e que têm outras origens étnicas subam certos degraus", diz Otele, uma das nomeadas em 2018 no projeto da BBC #100Mulheres. "Você tem que trabalhar mais duro, muito mais duro".

Menos de um em cada 100 funcionários de departamentos de história (entre titulares, professores assistentes e pesquisadores em vias de obter um PhD) trabalhando hoje em universidades no Reino Unido são negros, segundo um estudo deste ano da Royal Historical Society (Sociedade Real de História, em tradução livre). Cerca de 94% têm origem caucasiana (branca).

Uma outra pesquisa deste ano mostrou que um em cada três historiadores negros e de origens étnicas minoritárias trabalhando no ensino superior dizem ter sido diretamente discriminados ou abusados por motivação racial.

"A academia no Reino Unido é muito dura em geral para qualquer pessoa. Mas ainda mais severa para pessoas com outras origens", diz Otele.

"Historiadores são um grupo muito fechado. Não é de se surpreender que existam apenas dois de nós: primeiro, um homem negro nomeado há dois anos e agora eu."

Otele, nascida em Camarões em 1970, é especialista em memória coletiva e geopolítica, particularmente em pesquisas que abordam a história colonial da Grã-Bretanha e da França.

Ela tem um PhD em história na Universidade Sorbonne, em Paris, e já escreveu também sobre escravidão, feminismo e política.

Direito de imagem Bath Spa University

O estudo publicado pela Royal Historical Society afirma que a falta de diversidade tem um impacto real na "qualidade de ensino, aprendizagem e pesquisa da história no Reino Unido".

"Pesquisas recentes sobre a história dos negros, da migração e de etnias, além do imperialismo e da descolonização, transformaram nosso conhecimento e compreensão do passado britânico, europeu e global", diz o documento.

Mas esta mudança ainda não se materializou nos currículos e o "perfil racial e étnico de estudantes e da equipe dos departamentos de história de universidades britânicas permaneceu esmagadoramente branco".

Enquanto "a desigualdade racial e étnica é uma questão premente", o que segundo a Royal Historical Society deveria torná-la uma pauta prioritária, Otele diz que há alguns sinais promissores para o futuro.

"As coisas já estão mudando no Reino Unido", diz ela. "Há dez estudantes de PhD negros. Eles são ávidos. Não queremos apenas esperar que as pessoas nos promovam. Trabalhamos duro para isso."

O Young Historians Project, uma organização sem fins lucrativos formada por jovens, é um dos sinais que ela aponta como representativo do que está por vir. Parte do trabalho da organização é dar suporte a jovens historiadores com origem africana e caribenha na Grã-Bretanha.

"Somos tão capazes. É apenas uma questão de dar-nos uma chance", diz Otele sobre acadêmicos com origem minoritária. Ela espera que suas realizações inspirem outros. "Quero mostrar às mulheres que se parecem comigo que as coisas podem ser feitas. Não sou um super humano".

O que é o #100Mulheres?

A série #100Mulheres da BBC (100 Women) indica anualmente 100 mulheres influentes e inspiradoras de todo o mundo - contando suas histórias.

Refletindo o ano de 2018 para os direitos das mulheres, o #100Mulheres apresentará pioneiras que estão usando a paixão, indignação e raiva para provocar mudanças reais no mundo ao seu redor.

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