Madalyn Murray O'Hair: a trágica história da mulher ateia 'mais odiada dos EUA'

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Image caption Madalyn Murray O'Hair foi sequestrada e assassinada aos 76 anos, junto ao filho mais velho e a neta

"A religião é uma questão privada e só deveria ser celebrada dentro de casa ou nas igrejas."

Este mantra colocou uma mulher no centro de uma tormenta nos Estados Unidos, país em que a sociedade é profundamente religiosa.

Madalyn Murray O'Hair é considerada por muitos como "a mulher mais odiada" de toda a nação. Provavelmente nenhum ateu é mais conhecido que ela no país.

Nos Estados Unidos, onde mais de 70% da população se identifica como cristã, segundo o instituto de pesquisa Gallup, ir contra o cristianismo é se envolver em um confronto sério.

Murray O'Hair entrou com dezenas de processos em tribunais federais para garantir que houvesse uma separação entre Estado e religião nas instituições públicas.

Ela questionou a realização de cerimônias religiosas semanais na Casa Branca, contestou a inclusão da frase In god we trust ("Em Deus nós confiamos") nas moedas e notas de dólar e conseguiu que a Constituição do Estado do Texas eliminasse a exigência de "acreditar em Deus" para ocupar cargos públicos de confiança.

Além disso, lutou na Justiça para que celebrações de Natal com dinheiro do contribuinte fossem banidas de todas as instituições públicas.

Uma mulher odiada

Madalyn Mays (nome de solteira) nasceu em 13 de abril de 1919 em Pittsburgh, na Pensilvânia. Seu pai era presbiteriano e sua mãe, luterana.

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Image caption Murray O'Hair defendia a separação entre o Estado e religião

Durante a Segunda Guerra Mundial, ela se alistou ao Corpo de Mulheres Auxiliar do Exército e até o fim da guerra trabalhou com criptografista na Itália.

Ainda casada com seu primeiro marido, ela começou um relacionamento extraconjugal com um homem também casado de sobrenome Murray. Com ele, teve seu primeiro filho - e adotou seu sobrenome.

Mas Murray não quis deixar a esposa. Ela se mudou, então, em 1954, para a casa da mãe em Baltimore, no Estado de Maryland. Lá, teve seu segundo filho com outro homem.

Ela estudou Direito, mas teve dificuldade de se manter em um emprego estável, devido às suas diferenças com os empregadores e a uma personalidade explosiva, descrita por alguns como "agressiva" e "desagradável".

Em 1960, quando seu filho mais novo estudava em uma escola pública em Baltimore, ela apresentou uma denúncia contra o sistema escolar da cidade por suas práticas obrigatórias de oração e leitura da Bíblia.

O caso ficou conhecido como Murray versus Curlett.

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Image caption Murray O'Hair conseguiu que a Suprema Corte dos EUA declarasse como inconstitucionais orações e leitura da Bíblia em escolas públicas de Maryland

Ela colocou o filho de 14 anos como requerente e, três anos depois de uma batalha judicial amplamente televisionada, a Suprema Corte dos EUA decidiu a seu favor, declarando a prática inconstitucional nas escolas de Maryland.

"O Estado não tem competência para promover crenças religiosas", decidiu a Corte.

O desfecho do processo representou uma vitória para ela, mas a essa altura já era odiada no país.

Além da repercussão que o caso teve, Murray aparecia com frequência em programas de televisão defendendo o ateísmo e chamando a religião de um ato de "ignorância" e "superstição".

Sua família foi tão perseguida, principalmente em Baltimore, que ela decidiu se mudar para o Havaí com os filhos.

Lá, ela se casou com um fuzileiro naval chamado O'Hair e também adotou seu sobrenome.

Proibir o Natal

Pegando carona na notoriedade do caso, ela fundou em 1963 a Associação de Ateus dos Estados Unidos, organização sem fins lucrativos que levou mais de 20 casos diferentes a tribunais federais na tentativa de destacar a separação entre a igreja e o Estado.

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Image caption O filho mais novo de Murray O'Hair tinha que ler diariamente dez versículos da Bíblia antes do início das aulas

De acordo com a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, é considerado inconstitucional proibir a prática de qualquer religião, assim como limitar a liberdade de expressão, de imprensa e o direito à reunião pacífica.

No entanto, esta emenda também especifica que nenhuma religião deve ser privilegiada em detrimento de outra.

Como em muitas outras escolas públicas, financiadas pelo governo com dinheiro do contribuinte, o filho mais novo de Murray O'Hair tinha que ler diariamente dez versículos da Bíblia antes do início das aulas e participar de uma sessão de oração.

Após a ação que levou a Suprema Corte a proibir essas atividades, por serem consideradas uma violação dos direitos da Primeira Emenda, Murray O'Hair continuou sua batalha.

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Image caption Murray O'Hair é frequentemente chamada de 'a mulher mais odiada dos EUA', uma sociedade profundamente religiosa que não compartilhava do seu pensamento ateísta

Desta vez, ela contestou a celebração do Natal em instituições públicas, como escolas, argumentando que, por ser um feriado cristão, promovia uma religião acima de outras e constituía uma forma de doutrinação.

"Imaginem os judeus dizendo que apenas o Hanukkah será celebrado em escolas públicas. Os cristãos certamente protestariam", afirmou Murray O'Hair em rede nacional de televisão.

"A religião é algo que não tem lugar em instituições financiadas com dinheiro público. Vamos ao colégio para aprender o que fazer em nossa cultura e como ganhar a vida."

Murray O'Hair não ganhou a ação desta vez, mas a derrota não impediu a Associação de Ateus de continuar lutando para acabar com a celebração.

Em 2010, um outdoor gigantesco de US$ 20 mil financiado pela fundação apareceu em uma rodovia movimentada entre Nova Jersey e Nova York.

"Você sabe que (Natal) é um mito. Este ano, celebre o bom senso", dizia a mensagem.

Sequestro e assassinato

Durante um debate com o público em um programa de televisão nos anos 1970, uma mulher cristã se levantou, pegou o microfone e disse a Murray O'Hair algo que duas décadas depois pareceu ser um presságio.

"Se você não retomar a razão, sua morte vai ser tão horrível que mostrará a seus seguidores como você está equivocada", alertou.

A morte de Murray O'Hair não poderia ter sido mais trágica.

Em agosto de 1995, ela desapareceu junto ao filho mais novo e a neta - ao mesmo tempo, US$ 600 mil também sumiram da conta bancária da associação.

Na época, especulou-se que a família havia fugido com o dinheiro.

Os primeiros alertas à polícia, feitos por colegas de trabalho e conhecidos, foram ignorados. Ninguém parecia interessado em procurar a "mulher mais odiada dos Estados Unidos".

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Image caption Os corpos de Murray O'Hair, seu filho mais novo e sua neta foram encontrados em um rancho no Texas

Investigações posteriores do FBI, a polícia federal americana, descobriram que os Murray O'Hair haviam sido sequestrados e assassinados, como parte de um plano de vingança pessoal de um ex-funcionário.

David Waters, que cometeu o crime junto a dois cúmplices, foi demitido por roubar dinheiro da associação e foi exposto por Murray O'Hair em um artigo que ela escreveu para a revista da fundação.

Waters se recusou a revelar onde havia enterrado os corpos - o que permaneceu durante anos como um mistério.

Em 2001, ele concordou em levar as autoridades até um rancho no Texas, onde foram encontrados os três corpos.

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