A mágica da arrumação de Marie Kondo: vida organizada realmente é igual a mente limpa?

A japonesa Marie Kondo, que dá dicas de organização Direito de imagem Getty Images
Image caption A japonesa Marie Kondo, de 34 anos, se transformou em um fenômeno mundial com suas dicas de organização

Se você ainda não ouviu falar de Marie Kondo, 34, não demorará muito para que você ouça esse nome.

Graças ao seu novo programa, A Magia da Arrumação, que estreou em 1º de janeiro na Netflix, a guru japonesa se tornou a mulher do momento deste mês.

No programa, ela ensina as pessoas a usarem seu método, batizado de KonMari, que promete não apenas uma casa com menos coisas, mas também uma mente limpa.

"Quando você coloca sua casa em ordem, você coloca seus negócios e seu passado em ordem também", explica Kondo em seu livro de 2014, A Mágica da Arrumação - A Arte Japonesa de Colocar Ordem na Sua Casa e na Sua Vida. "Como resultado, você pode ver claramente o que você precisa e o que você não precisa e o que você deve e não deve fazer."

Desde o lançamento do programa, as redes sociais foram inundadas com fotos de pessoas tentando seguir o método e colocando as hashtags #mariekondo ou KonMari.

Em cada um dos 8 episódios que formam a primeira temporada da série, Kondo visita uma casa onde seus habitantes são dominados pela bagunça e pelo acúmulo de lixo.

Ao final de cada episódio, a casa está muito mais arrumada e a família, muito mais feliz.

Direito de imagem Netflix
Image caption Marie Kondo dá conselhos a um casal na série de televisão A Magia da Arrumação que apresenta na Netflix

O método KonMari de Marie Kondo

O método que Marie Kondo recomenda para organizar a casa segue a seguinte premissa: você tem que pegar cada objeto que possui e perguntar a si mesmo como ele faz você se sentir. Se isso lhe der alegria, mantenha-o; se não, livre-se dele. E se você tem dúvidas do que sente, coloque-o em uma caixa.

Em vez de ir colocando ordem na bagunça em cada cômodo da casa, Kondo prefere dividir esse processo da faxina geral em categorias:

1. Vestuário;

2. Livros;

3. Documentos ou papelada;

4. Komono: inclui a cozinha, banheiro, garagem e uma seção para miscelâneas;

5. Objetos com valor sentimental.

Usuário posta foto da faxina que está fazendo em casa por causa da guru japonesa:

Relacionamentos, não relíquias

Será que essa mudança na vida, de que ao ter as coisas organizadas ajuda também na limpeza da mente, é tão simples quanto a pergunta que Kondo ensina as pessoas a se fazerem em seu método para identificar se elas necessitam de alguma das coisas que possuem, querendo saber se elas "despertam alegria" - e em caso negativo, jogá-las fora?

Jerrie Sharp e seu companheiro assistiram à série A Magia da Arrumação, de Kondo, e decidiram se livrar de cerca de um terço dos pertences em sua casa em Londres.

Ela diz que o impacto que isso causou em sua saúde mental é visível.

"Meu parceiro é bipolar, e ele viu uma enorme diferença em ter seu escritório limpo", diz a radiologista. "Ele tinha muita coisa lá antes."

Sharp também conta que se tornou mais produtiva por não ter distrações. "Todos os livros nas minhas prateleiras são aqueles que eu amo - eu não estou mais olhando e pensando, 'Não li isso'".

Direito de imagem Getty Images
Image caption No programa, Marie Kondo ensina as pessoas desorganizadas como, por exemplo, dobrarem suas roupas

Abigail Evans, que apenas recentemente começou a seguir o método KonMari, também diz que os efeitos positivos foram instantâneos.

"Não posso descansar até saber que o meu quarto está arrumado", diz. Isso significa que seguir o conselho de Kondo e fazer um pouco de arrumação de cada vez realmente funciona.

"Eu sempre fui o tipo de pessoa que adora colocar as coisas em ordem, e ela faz isso parecer fácil."

Para Joseph Ferrari, professor de psicologia na universidade Saint Vincent De Paul, em Chicago, esse tipo de resposta faz sentido. Na verdade, ele argumenta que talvez você devesse ir além do que Marie Kondo recomenda ao limpar a sua casa.

Um estudo em conjunto feito por Ferrari em 2016, chamado de O Lado Escuro do Lar, descobriu que quanto mais desordem em casa as pessoas têm, menor a satisfação com a vida e a produtividade.

"A desordem não é uma coisa boa", diz ele.

"Estamos vivendo nesta sociedade onde nossos desejos se tornam necessidades", fala. "O que precisamos fazer é se libertar das coisas. Eu digo às pessoa: não colecionem relíquias, colecionem relacionamentos."

Image caption Compartilhar a rotina de limpeza se tornou a tarefa favorita de alguns usuários do Instagram e 'influencers'

A mágica da arrumação

Não é apenas Marie Kondo e Ferrari que defendem as virtudes do desapego. Há muitos outros especialistas exaltando os benefícios dessa "limpeza geral", seja em casa, no escritório ou até mesmo em sua caixa de entrada de e-mail.

Pegue o "Inbox Zero", um sistema de gerenciamento de e-mail com o qual, teoricamente, você termina todas as noites sem e-mails na caixa de entrada principal, classificando, excluindo e encaminhando com rigor todas as mensagens recebidas durante o dia.

Pode parecer um sonho inatingível para alguns de nós com milhares de e-mails não lidos, mas as pessoas que alcançam essa caixa de entrada do nirvana juram que há um efeito positivo em sua saúde mental.

"A maior parte do meu estresse é porque eu poderia ter esquecido as coisas ou por não estar por dentro das coisas, então isso me ajuda a relaxar", explica um dos meus colegas.

Mas, esse apelo atual de uma vida sem desordem não termina quando você finalmente joga fora o último item que poderia ir para a fogueira.

As redes sociais estão cada vez mais cheias de pessoas que defendem a faxina.

Não há como subestimar o interesse em tais relatos: basta olhar para Sophie Hinchliffe - mais conhecida como Sra. Hinch - e seu impressionante 1,6 milhão de seguidores no Instagram, sem mencionar o livro que irá lançar - tudo graças a seus conselhos de limpeza.

Sua casa, na verdade, é totalmente impecável.

Mas enquanto muitas pessoas se inspiram em sua casa intocável e na em sua abordagem meticulosa da limpeza, isso deixa outras se sentirem mal.

"Sua casa impecável só fez eu me sentir deprimida sobre a minha própria, então eu deixei de segui-la", admitiu uma mãe no site Mumsnet.

As casas arrumadas de Marie Kondo também não foram imunes a críticas - ao menos por acrescentar outra camada de estresse a vidas já estressantes.

"A mídia que nos cerca - social e mainstream, do novo programa da Netflix de Marie Kondo à economia dos influenciadores de estilo de vida - nos diz que nossos espaços pessoais devem ser otimizados tanto quanto a própria pessoa e sua carreira", escreve Anne Helen Petersen em seu artigo para o Buzzfeed intitulado "Como os Millenials se tornaram a geração do esgotamento".

"O resultado final não é apenas fadiga, mas envolve esgotamento que nos acompanha até em casa."

Excessos

Mas poderia ser pior que isso? Afinal, muito de qualquer coisa pode ser uma coisa ruim.

"Nós apenas assumimos que se desfazer das coisas é algo bom porque é o oposto de acumular?", questionou a psicóloga Vivien Diller no site The Atlantic em 2015, apontando para pacientes que sentiam uma necessidade compulsiva de se livrar de coisas.

"Você pega alguém que não tolera bagunça ou não consegue ficar parado sem limpar ou jogar fora, e estamos falando de um sintoma", observou ela.

Então, onde, exatamente, tudo isso deixa aqueles de nós que realmente não se incomodam com um pouco de confusão, e é provável que nunca considerem se suas meias realmente lhes dão alegria?

Felizmente, você tem seu próprio guru (mais ou menos). Conheça Tim Harford, colunista, apresentador de rádio e autor de Messy: How To be Creative and Resilient (Bagunça: Como ser criativo e resiliente em um mundo organizado, em tradução livre).

Direito de imagem Library of Congress
Image caption Benjamin Franklin provou que pessoas bagunceiras podem ser bem-sucedidas

Mas antes de tudo, ele tem uma confissão a fazer.

"Eu realmente fiz o método Marie Kondo com minhas roupas e funciona", diz.

No entanto, argumenta Harford, uma mesa bagunçada não é o fim do mundo - e a ideia de Kondo de que as coisas são automaticamente classificadas e colocadas em seus devidos lugares de acordo com o momento em que chegaram em sua vida nem sempre é verdadeira.

"Quando você está sendo criativo - quando está fazendo coisas - as coisas ficam bagunçadas", diz ele à BBC. "Tentar arrumar as coisas cedo demais ou com muita frequência pode ter levar a se culpar desnecessariamente."

E para alguns de nós que se sentem mal com a nossa incapacidade de acabar com a bagunça, de viver em casas totalmente arrumadas ou de zerar nossas caixas de entrada de e-mail, há sempre o exemplo do autor, investidor e fundador dos EUA, Benjamin Franklin.

"Ele tinha esse diário de virtudes, onde ele colocava pontos com os quais ele seria uma pessoa melhor. Olhando para o fim da vida dele, aquele diário de virtudes realmente funciono", fala Harford. "Mas, segundo ele, havia apenas uma coisa que ele nunca poderia fazer - e era ser organizado."

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

Tópicos relacionados

Notícias relacionadas