Genocídio em Ruanda: ‘Por que perdoei o assassino de meus dois filhos’

Anne-Marie, que teve quatro filhos assassinados no genocídio de Ruanda
Image caption "Ele era um menino tão inteligente. Era bom demais para esse mundo", diz Anne-Marie sobre um dos filhos assassiandos

O coração de Anne-Marie Uwimana acelerava toda vez que ela dava de cara com o vizinho, Celestin Habinshuti.

A mulher se lembra de que, quando ele voltou ao povoado e eles se reencontraram, ele escondeu o rosto: "Quando eu o vi, gelei e comecei a tremer. Pensava que ele ia me matar".

Anne-Marie é uma sobrevivente do genocídio que seu país, Ruanda, viveu em 1994. Mais de 800 mil pessoas, a maioria da etnia tutsis, foram assassinadas por membros da etnia dominante, os hutus.

Ela sobreviveu, mas grande parte de sua família não teve a mesma sorte. Seu marido e quatro de seus filhos foram assassinados. Dois desses filhos foram mortos por Celestin.

"Celestin sacou seu facão e cortou o pescoço de dois dos meus filhos. Eu consegui escapar", afirma.

Seu filho mais velho, Innocent, tinha apenas 11 anos de idade.

"Ele era um menino tão inteligente. Me prometeu que sempre ia cuidar de mim e melhorar minha vida. Era bom demais para esse mundo."

"No dia em que ele morreu, à medida que as coisas pioravam, ele disse a um amigo que tinha o pressentimento de que alguém ia cortar o pescoço dele", diz Anne-Marie.

"Quando me lembro disso, sinto como se o meu coração fosse partir."

O papel do governo

Image caption Anne-Marie e Celestin eram vizinhos quando o genocídio eclodiu em Ruanda; ele matou dois dos filhos dela

O conflito étnico que levou ao genocídio de Ruanda havia começado a tomar forma décadas antes de o país se tornar independente em 1962.

Enquanto o território esteve sob domínio belga, os colonos favoreceram os tutsis em detrimento dos hutus. No entanto, uma vez que os belgas saíram de cena, os hutus assumiram o governo, que tentou inverter os papéis e transformar os tutsis em uma etnia inferior.

O jornalista Tom Ndahiro conta como a propaganda promovida pelo Estado incitou o ódio. Em especial, a que era feita pela emissora de rádio Radio Télévision Libre des Mille Collines.

"Os chamavam de baratas, de cobras, de tudo. E os tutsis ficaram marcados como inimigos e como pessoas que tinham ódio de Ruanda", diz Ndahiro.

Image caption Celestin ainda pede perdão por seus crimes

Celestin passou 10 anos na prisão pelos crimes que cometeu durante o genocídio. Uma vez livre, ele buscou perdão.

"Pedimos a todos os sobreviventes que nos perdoem. Eles sobreviveram apesar das minhas ações, porque de fato eu era um assassino selvagem. Ela vive apesar do que eu fiz. É Deus quem a mantém viva", diz Celestin.

25 anos depois, as feridas deixadas pelo genocídio sararam, mas a dor continua presente.

Anne-Marie, que ainda chora ao lembrar dos filhos, queria matar Celestin.

Mas um padre a convenceu a fazer o contrário: perdoá-lo.

"Ele me disse que eu tinha a chave para libertá-lo de sua culpa e que Celestin também tinha a chave para me libertar."

O padre prometeu a ela: "Se você acredita nisso, com a ajuda de Deus, você vai se curar".

*Esta reportagem foi feita com informações de Jean-Paul Habyarimana, Ciru Muriuki e Didier Bikorimana, do BBC Factfinnder, serviço da BBC que analisa fake news e mostra como os jornalistas preparam suas reportagens.

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