Como foi a maior fuga em massa de mulheres presas de que se tem notícia

Lucia (na foto, à direita) e María Elia Topolansky aparecem sorrindo e comemorando de dentro de carro em registro de 1985, depois que foi declarada a anistia Direito de imagem Editorial Seix Barral
Image caption Lucía (na foto, à direita) e María Elia Topolansky aparecem em registro de 1985, depois que foi declarada a anistia

Meses de planejamento meticuloso tiveram na noite de 30 de julho de 1971 o seu auge: a fuga de 38 presas políticas de um centro de detenção em Montevidéu, capital do Uruguai.

Elas escaparam da prisão de Cabildo através de um buraco no chão, atravessaram 40 metros de túneis escavados por meses e chegaram a uma casa alugada, escolhida como ponto de chegada.

Ali, trocaram de roupa para se disfarçar e saíram, aos poucos, para viverem livres.

Conhecido como Operação Estrela, a maior fuga planejada de uma prisão feminina de que se tem notícia na história, é um episódio que, até há alguns anos, tinha caído no esquecimento no Uruguai.

No início da década de 70, no entanto, a fuga em massa das prisioneiras, em sua maioria, militantes do grupo guerrilheiro Movimiento de Liberación Nacional-Tupamaros (MLN-T), mais conhecido como Tupamaros, causou grande comoção e pegou de surpresa as autoridades - que levaram cerca de três meses para descobrir como o plano havia sido realizado.

Mais tarde, uma das protagonistas da fuga, Graciela Jorge, descreveu a fuga no livro Historia de 13 Palomas y 38 Estrellas (História de 13 Pombas e 38 Estrelas em tradução livre), publicado em 1994.

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Image caption José 'Pepe' Mujica foi presidente do Uruguai de 2010 a 2015, enquanto Lucía Topolansky é vice-presidente do país desde 2017

No entanto, o assunto voltou à tona de forma quase acidental.

Em 2011, a jornalista argentina Josefina Licitra, editora da revista cultural Orsai, entrevistou a então senadora e primeira-dama uruguaia Lucía Topolansky para um perfil que estava escrevendo sobre o marido dela, o então presidente José "Pepe" Mujica.

Durante a entrevista, Topolansky falou sobre sua vida e dos eventos políticos e pessoais que marcaram sua juventude.

"Ali, sem mais detalhes, ela citou a Operação Estrela", diz a jornalista, que a partir daquele momento ficou sabendo que Lucía e sua irmã gêmea, María Elia, tinham participado da fuga histórica.

Investigação

Intrigada com este episódio do qual nunca tinha ouvido falar, Licitra decidiu investigar e ficou surpresa com a pouca informação que encontrou.

Isso a levou a buscar informações mais profundamente, assim como a procurar as outras protagonistas da história.

O resultado do seu trabalho foi o livro 38 Estrellas (38 Estrelas), publicado no ano passado.

O livro tem como base as memórias das 15 "estrelas" com as quais a autora conseguiu falar para reconstruir o que aconteceu há quase meio século.

Em conversa com a BBC News Mundo, Licitra diz que as protagonistas tinham, em média, 25 anos quando os principais fatos ocorreram.

"Elas foram presas por motivos diferentes, algumas simplesmente por distribuir panfletos do Tupamaros, outras por crimes mais sérios, como andar armadas, roubar carros ou provocar incêndios", explica.

As presas tupamaras e de outros grupos de esquerda eram separadas des presas comuns e tinham seu próprio pavilhão dentro da prisão Cabildo - que tinha uma estrutura interna mais parecida com uma casa do que com uma prisão, já que não havia celas.

Até um ano antes, a prisão tinha sido controlada exclusivamente por freiras, mas isso mudou depois que 13 prisioneiras escaparam da capela durante uma missa. A partir daí, foram colocados guardas do lado de fora da prisão.

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Image caption Visão atual da prisão de Cabildo, no centro de Montevidéu

O plano

Mas isso não dissuadiu os líderes do movimento tupamaro, que começaram a planejar a ousada Operação Estrela.

"O plano começou a tomar forma a partir de fora (prisão), mas exigiu coordenação com as presas", diz Licitra, que destacou a importância particular das militantes que estudavam arquitetura.

O papel delas era fornecer informações precisas para que colegas que estavam em liberdade soubessem onde escavar o túnel a ser usado na fuga.

Para fazer medições, as prisioneiras usavam o que tinham em mãos, como fios e itens de costura.

A troca de informações era feita por meio de pequenas mensagens ou desenhos em papéis de cigarro, trocados durante as visitas.

Apenas as mulheres mais graduadas do Tupamaros sabiam do plano. A maioria das fugitivas ficou sabendo do plano apenas alguns dias ou até mesmo horas antes de sua execução.

As gêmeas Topolansky

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Image caption 'Fuga recorde': jornal El Popular traz notícia que surpreendeu os uruguaios em julho de 1971

Uma das pessoas que estavam a par a operação era Lucía Topolansky, que se juntou aos tupamaros em 1969, quatro anos após a criação do grupo guerrilheiro.

"La Tronca", como seus colegas a chamavam por seu caráter duro, chegou à prisão de Cabildo em 1971. Ela tinha 27 anos e era acusada de delinquência e conspiração para violar a Constituição.

Licitra conta que logo que Lucía chegou à prisão passou a fazer parte da comissão encarregada dos detalhes.

O livro da jornalista argentina também revela o mau relacionamento que Lucía tinha com sua irmã gêmea María Elia - apelidada de "La Parda", pertencente ao Tupamaros desde 1966, presa elevada a Cabildo em maio de 1971, três meses depois de Lucía.

"Quando 'La Parda' entrou no pavilhão, sua irmã nem se deu ao trabalho de levantar-se para recebê-la. 'La Parda' notou o desprezo, cumprimentou suas companheiras que se aproximaram e então foi até a mesa onde Lúcia estava", relata 38 Estrellas.

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Image caption Imagem no jornal mostra um dos túneis usados na fuga

A inimizade entre as irmãs tinha causas políticas: María Elia tinha divergências com a liderança do Tupamaros e fundara uma dissidência, razão pela qual muitos do grupo a consideravam uma traidora.

Mirtha Fernández Pucurull, outra militante fugitiva, disse a Licitra que na prisão elas chamavam Lucía de "a oficial", para distingui-la de sua irmã gêmea.

Ao contrário de sua irmã, que foi uma das pessoas que planejou a fuga, "La Parda" ficou sabendo da operação pouco antes da sua concretização.

Como aconteceu

Os tupamaros descobriram que a rede de saneamento na área de Cabildo era antiga, o que significava que os canais de esgoto eram longos e largos.

Decidiram então construir dois túneis: um da prisão para os esgotos e outro para uma casa próxima, alugada pelo grupo.

A escavação dos túneis (com 18 metros de comprimento, 1,20 de altura e 80 cm de largura) demorou cerca de cinco meses e exigiu uma coordenação precisa com as presas, por causa da localização e para combinar táticas de distração para impedir que seus cúmplices no exterior fossem detectados.

Por exemplo, o buraco dentro de um dos quartos do pavilhão foi feito usando um macaco hidráulico enquanto as prisioneiras celebravam um aniversário para cobrir o som.

Quando tudo estava pronto, no final de julho, elas esperaram até as 22h, quando todos já estavam dormindo, para começar a grande fuga - com os quadros mais graúdos do Tupamaros indo à frente.

Licitra tentou reconstruir a ordem das prisioneiras na fuga para seu livro, mas se deparou com memórias divergentes das protagonistas.

Tampouco ficou claro quem eram as quatro prisioneiras que decidiram não participar da operação - ou que estavam perto de concluir sua pena, ou estavam em estágio avançado de gravidez.

Segundo a jornalista Virginia Martínez, do jornal El País, Elena Quinteros, provavelmente a desaparecida política mais icônica do período de ditadura militar do Uruguai (1973-1985), foi uma das que ficou.

No entanto, Licitra e outros jornalistas afirmam não ter encontrado evidências de que Quinteros estava em Cabildo quando ocorreu a fuga.

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Image caption Fotos das fugitivas expostas no El Diario, com Lucía Topolansky no canto inferior esquerdo

Esquecimento

A passagem do tempo e o esquecimento do episódio deixaram essas lacunas na memória - e mostram o que acontece quando eventos importantes não são devidamente documentados.

A jornalista acredita que há pelo menos três razões para este esquecimento.

A primeira, baseada no que as próprias protagonistas contaram, é que, embora essa história seja excepcional para uma pessoa comum, "na vida desses ativistas, foi apenas mais um de uma série de episódios extraordinários".

Quase todas as 38 "estrelas" foram novamente capturadas, e muitas, como a vice-presidente uruguaia, passariam mais de uma década atrás das grades - mas desta vez de uma forma muito mais cruel e violenta, durante o regime militar.

A segunda razão tem a ver com a pouca relevância que foi dada ao importante papel das mulheres dentro do movimento tupamaro, especialmente a nível do registro.

Direito de imagem Alejandro Guyot
Image caption Livro de Josefina Licitra recupera episódio que ocorreu há quase meio século

Mas a razão mais forte para o esquecimento da Operação Estrela está no fato de ela ter sido ofuscada por uma fuga bem mais ressonante - a Operação Abuso, que ocorreu apenas semanas depois da primeira e chegou a ser alçada ao Livro de Recordes do Guinness.

Nesse episódio, 111 ativistas políticos, incluindo a cúpula tupamara, escaparam da prisão de Punta Carretas, também em Montevidéu. Isso foi em 6 de setembro de 1971.

Esta foi considerada uma das ações mais impressionantes dos tupamaros e, como certamente muitos uruguaios se lembram, teve como um dos protagonistas "Pepe" Mujica.

Isso sim foi registrado nos livros de história - os mesmos que agora, diante da nova onda feminista, começam a ter que olhar de novo para o passado.

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