O menino com dislexia e alvo de bullying que virou investidor multimilionário

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Image caption Guy era disléxico e se mudou do Zimbábue para o Reino Unido aos três anos de idade

A série semanal da BBC The Boss mostra o perfil de diferentes executivos ao redor do mundo. Nesta semana, o programa entrevistou o investidor britânico Guy Hands.

Ele relembra sua infância difícil, na qual sofreu muito bullying na escola.

Hands era disléxico e se mudou do Zimbábue para o Reino Unido aos três anos de idade. Ser diferente fez com que ele se tornasse um alvo no fim dos anos 1960 e início do anos 1970 na Inglaterra.

"Eu acabei perdendo o controle com cerca de nove anos", diz ele. "Tínhamos uma professora substituta que não era muito boa em manter o controle da classe, então o bullying ficou pior e pior."

"Um dia eu estourei, e não tenho orgulho disso, mas basicamente atirei a cadeira em outra criança."

Depois disso, ele foi tirado do sistema educacional regular e mandado para uma escola especial por dois anos, onde as coisas ficaram ainda piores.

"Um dia eu cheguei a passar quatro dias no hospital porque uma das crianças (acidentalmente ou deliberadamente) tentou me afogar", diz ele, hoje com 59 anos.

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Image caption Hands fez sua fortuna em Londres nas décadas de 1980 e 1990

Hoje, Hands é um dos maiores investidores do Reino Unido, com uma fortuna estimada em 265 milhões de libras. Ele é o dono do fundo de investimentos Terra Firma.

A companhia foi criada por ele em 2002 - antes, Hands havia conseguido destaque trabalhando para os bancos de investimentos Goldman Sachs e Nomura.

Infância difícil

Embora sua carreira tenha sido em maior parte um sucesso, Hands fala abertamente sobre o grande fracasso que a marcou – a decisão de comprar a EMI Records em 2007, pouco antes da crise financeira mundial de 2008.

O investidor diz que, por mais difícil que tenha sido sua infância, ela lhe deu determinação para fazer algo com sua vida.

"Eu não acho que é incomum para quem vem a um país como imigrante sentir que você não pertence àquele lugar e ao mesmo tempo que precisa provar algo."

"E juntando isso à dislexia extrema, você ou afunda ou nada. Eu nadei."

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Image caption Hands ajudou a aumentar a diversidade no mercado financeiro

Depois de dois anos na escola especial, Hands teve uma mudança para melhor aos 11 anos, quando foi aprovado em uma escola estadual que selecionava alunos por meio de um exame.

Embora sua dislexia signifique que ele tem até hoje dificuldade para ler, ele era excelente em economia, tirando um A nos exames finais de curso. Ele também foi muito bem em física.

Persistência que deu resultado

Mesmo tendo notas suficientes em apenas duas disciplinas (normalmente, é preciso notas boas em três), aos 18 ele tentou entrar na Universidade Oxford.

Na primeira tentativa, chegou a ser chamado para uma entrevista, mas rejeitado "praticamente na hora".

Sua segunda escolha, a faculdade de Mansfield, não o chamou para uma entrevista, mas ele resolveu se apresentar pessoalmente mesmo assim.

"Eles disseram, 'vá para casa, se quisermos você, faremos contato'," diz Hands. "Então, eu entendi que se fosse para casa, ninguém faria contato. Não fui a lugar nenhum, fiquei ali ao lado da faculdade."

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Image caption Hands fez faculdade na Mansfield College, na Universidade Oxford

Uma secretária em Mansfield acabou ficando com dó dele e arrumou um horário para entrevista alguns dias depois. Milagrosamente, ele foi aceito, conta Hands.

Em Oxford, o jovem equilibrou os estudos com a abertura de sua primeira empresa – uma galeria de arte chamada Artsake que empregava outros estudantes em cidades do Reino Unido para vender pinturas porta-a-porta.

A empresa chegou a ter 65 pessoas e se tornou lucrativa o suficiente para que ele comprasse sua primeira casa. Mas então ele fez um mau negócio ao comprar um loja em Oxford e teve de resolver um problema com a estrutura do prédio.

"Custou 40 mil libras, que era uma quantia enorme de dinheiro", diz ele. "Uma casa na época custava 12 mil."

"Eu fui a um conselheiro de carreira e o conselho dele foi declarar falência. Senão, disse ele, eu teria de passar o resto da minha vida pagando a dívida."

"Perguntei qual empresa pagava melhor e ele disse: 'Goldman Sachs'."

Então, aos 23 anos, em 1982, Hands se tornou operador de finanças no escritório do Goldman Sachs em Londres.

Sucesso no mercado financeiro

Ele rapidamente fez sucesso e subiu de cargo no ramo, ganhando uma fortuna. Ele tinha uma estranha habilidade em localizar bons investimentos, ajudado pelo fato de escolher bem seus funcionários.

Em vez de empregar os típicos trabalhadores do mercado financeiro da época – homens, brancos, agressivos, que bebem muito – ele levou "pessoas muito brilhantes intelectualmente, técnicas, nerds."

"Tínhamos um indiano, um paquistanês, um negro e uma mulher no grupo. Éramos um time culturalmente diverso. m vez de sair para beber, nós nos debruçávamos sobre documentos, procurando por pequenos fatos que nos dessem vantagem."

Depois de 12 anos no Goldman, ele se mudou para o banco Nomura em 1994, antes de formar seu próprio fundo de investimento, o Terra Firma, em 2002.

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Image caption A compra da EMI foi um investimento 'furado' da Terra Firma

Sua empresa colecionou sucessos até agosto de 2007, quando ele comprou a EMI por 2,4 bilhões de libras.

Acabou sendo o pior momento para um negócio tão grande, pouco antes da crise econômica mundial. Também coincidiu com uma enorme queda na venda de CDs, já que as pessoas começaram a baixar as faixas – legalmente e ilegalmente – e ouvir música por streaming.

A Terra Firma ficou, então, sem dinheiro para pagar os empréstimos que havia tomado para fazer a compra. A empresa acabou tendo de entregar a EMI para seu principal credor, o banco americano Citigroup.

Hands diz que, pessoalmente, perdeu 156 milhões de libras.

Ele tentou três vezes processar o Citigroup, acusando o banco de enganá-lo quando eles recomendaram a ele seguir em frente com a compra. Mas não teve sucesso nos processos.

Descuido por soberba

Hoje, Hands diz que antes de comprar a EMI o sucesso havia subido à cabeça. Ele diz que até então só havia assumido riscos bem pequenos, calculados, em sua carreira.

"Todo mundo estava me dizendo como nós éramos maravilhosos, bem sucedidos, como poderíamos fazer qualquer coisa. E a realidade é que eu não acreditava totalmente neles, mas acreditei mais do que deveria."

"Foi um manejamento de risco muito ruim. Essa era minha principal habilidade e eu estraguei tudo."

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Image caption Guy Hands é um dos maiores investidores do Reino Unido, com uma fortuna estimada de 265 milhões de libras

Ele admite que não superou a questão da compra da EMI até 2016.

Hoje a Terra Firma tem ativos estimados em 4,7 bilhões de libras, e Hands é o presidente da empresa. Seus ativos incluem ações das operações nórdicas do McDonalds, de empresas de energia limpa, de imobiliárias e de empresas de aviação.

Quando não está tocando suas empresas, Hands faz trabalho filantrópico, dando verbas para "entidades que têm dificuldade de conseguir dinheiro", como as que lidam com prisões e alcoolismo.

Ele também deu muitos milhões à faculdade de Mansfield, com o entendimento de que isso iria aumentar o número de vagas dadas a crianças de escolas estaduais. Hoje, a faculdade tem o maior número de alunos vindos da educação pública na Universidade de Oxford.

"Guy é excepcional, mas não é uma anomalia (entre disléxicos)", diz Helen Boden, presidente da Associação Britânica de Dislexia. "E o fato dele falar sobre sua própria dislexia tem sido vital para mostrar que a dislexia é muito mais que uma questão de ler e escrever. Ele tem ajudado a mudar a percepção para melhor e esperamos que mais líderes sigam seu exemplo."

Olhando para sua infância, ele diz que não guarda rancor das crianças que o tratavam mal.

"Elas estavam lidando com alguém que não entendiam, que provavelmente achavam ameaçador. Não fisicamente, mas mentalmente", diz ele. "Eu não os culpo de jeito nenhum."

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