Como a baixa temperatura no ambiente de trabalho afeta a produtividade das mulheres

Mulher de blusa em um escritório com um homem ao fundo Direito de imagem Getty Images
Image caption A briga sobre o ar-condicionado não é apenas uma questão de conforto

Existe uma "guerra fria" em curso em boa parte dos escritórios: a disputa pela temperatura do ar-condicionado.

É comum, em um espaço de trabalho compartilhado por homens e mulheres, que elas estejam mais agasalhadas que seus colegas do sexo masculino – e pedindo para subir um pouco a temperatura do ambiente.

A norma NR17 do Ministério do Trabalho brasileiro determina que a temperatura fique entre 20°C e 23°C em locais onde são exigidas "atividade intelectual e atenção constantes", como escritórios, salas de controle, de desenvolvimento ou análise de projetos, laboratórios etc.

Já a Secretaria de Saúde e Segurança Ocupacional dos Estados Unidos recomenda que os empregadores mantenham o termostato entre 20°C e 24,5°C.

No entanto, essas temperaturas escolhidas para o interior dos prédios de escritórios se baseiam em um modelo de conforto térmico desenvolvido nos anos 1960, que tem sua origem na taxa metabólica de um homem médio, segundo um estudo publicado na revista Nature em 2015. E a taxa pode ser maior que a taxa metabólica feminina em até 35%, o que faz com que as mulheres sintam mais frio.

Mas a discussão sobre o frio no escritório vai muito além do conforto térmico: a temperatura do ar-condicionado pode estar afetando a produtividade, especialmente a das mulheres, segundo um estudo recente da Universidade do Sul da Califórnia e do Centro de Ciências Sociais de Berlim WZB.

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Image caption Segundo regras criadas pelo hoje extinto Ministério do Trabalho, a temperatura deve ser de no mínimo 20°C nos escritórios

Quanto mais quente, melhor

Feito com mais de 500 estudantes em Berlim, o estudo estabeleceu uma correlação entre o aumento da temperatura dos escritórios e uma maior produtividade para as mulheres. E não verificou uma diminuição significativa na produtividade dos homens.

Segundo a pesquisa, as mulheres tiveram um desempenho melhor em tarefas matemáticas e verbais quando a temperatura estava mais alta, enquanto os homens não tiveram um desempenho melhor com o termostato mais baixo.

Ou seja, parece que a relação entre a temperatura e o rendimento dos homens é menos pronunciada que entre as mulheres.

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Image caption O desempenho das mulheres na pesquisa melhorou nas temperaturas mais altas

"Foram realizados muitos estudos mostrando que as mulheres, geralmente, preferem com temperaturas mais altas do que as preferidas pelos homens nos ambientes internos, mas ninguém havia medido a relação entre essas diferenças e o rendimento no trabalho", diz à BBC a economista Agne Kajackaite, especialista em economia comportamental, pesquisadora do Centro de Ciências Sociais de Berlim WZB e uma das autoras do estudo.

"Nossa pesquisa demonstrou que a briga pela temperatura não é só uma questão de conforto."

Ou seja, o estudo indica que o gênero é um fator importante não só para determinar o impacto da temperatura no conforto, mas também na produtividade e no rendimento cognitivo, diz o trabalho, publicado neste mês na revista científica PLOS One.

Efeito da temperatura na produtividade, por gênero

Nota nas provas (em média)

Fonte: Revista PLOS One / Universidade do Sul da Califórnia

A pesquisa

Durante a pesquisa, os estudantes tiveram de fazer diferentes testes em temperaturas que variavam de 16°C a 32ºC.

Em cada sessão, os participantes completavam três tarefas diferentes de escrita e matemática, com um limite de tempo.

Os resultados mostraram uma correlação significativa entre a temperatura do ambiente e a classificação dos participantes nas provas.

"Os homens foram mais produtivos em baixas temparaturas. E as mulheres tiveram um desempenho significativamente melhor em temperaturas mais altas, enquanto os homens só foram um pouco pior", afirma Kajackaite.

"O fato de o estudo ter recebido tanta atenção mostra claramente que há uma briga pela temperatura e há uma necessidade de discussão e ajustes", afirma ela, que assinou em conjunto com Tom Chang, professor da Universidade do Sul da Califórnia.

Qual é a temperatura ideal?

Os pesquisadores sugerem que, para aumentar a produtividade em locais de trabalho onde homens e mulheres convivem, as temperaturas sejam mais altas do que a recomendação atual.

"Os gestores deveriam começar a prestar mais atenção à temperatura do escritório. Devem escutar o que dizem seus funcionários e levá-los a sério, já que isso tem um efeito significativo na produtividade", opina Kajackaite.

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