Autora de 'Monólogos da Vagina' fala sobre abusos pelo pai: 'Uma noite fingi que estava morta, e aí acabou'

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Image caption Eve Ensler hoje é ativista pelos direitos da mulher

A escritora americana Eve Ensler ficou famosa nos anos 1990 com a peça Os Monólogos da Vagina, uma celebração do corpo feminino que foi reencenada em mais de 140 países e explora histórias de mulheres através de suas experiências sexuais.

Em seu último livro, The Apology ("O Pedido de Desculpa", em tradução livre), publicado em maio nos EUA e sem edição prevista no Brasil, ela revela que sofreu abusos sexuais, praticados por seu pai, Arthur Ensler.

Arthur morreu há anos e nunca pediu desculpas à filha pela série de abusos – físicos, financeiros, sexuais, emocionais – que praticou contra ela desde que Eve tinha 5 anos. Por isso, ela mesma decidiu fazê-lo: o livro é escrito na forma de uma carta fictícia em que o pai pede desculpas por tudo o que fez.

A escritora e dramaturga conversou com o programa Outlook, da BBC, sobre o impacto que o abuso teve em sua vida.

Leia trechos da entrevista abaixo.

BBC - Como você era antes do abuso acontecer?

Eve Ensler - Tenho algumas memórias, me lembro de ser feliz e adorar o meu pai.

BBC - E como foi depois?

Eve Ensler - O amor que eu sentia por meu pai se corrompeu. Ainda que no começo eu não soubesse o que estava passando, sabia que havia algo errado. Meu corpo estava sendo submetido a coisas que eu não havia escolhido, quem decidia era meu pai, a pessoa que eu amava mais que tudo no mundo. Então eu me sentia ao mesmo tempo bem, terrível, mal, sentia todas essas coisas horrivelmente complicadas.

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Image caption Eve Ensler revelou que sofria abuso sexual de seu pai

Com o tempo comecei a me dar conta de que era algo que eu não queria. Era invasivo, asqueroso. Então comecei a ver como a estranha adoração, a obsessão de meu pai por mim começou a eclipsar todo o resto na família.

A situação começou a mudar quando chegou uma noite em que me afastei dele. Fingi que estava morta. Essa noite acabou o abuso sexual. Eu tinha dez anos.

BBC - E sua família sabia o que estava acontecendo?

Eve Ensler - Minha irmã e meu irmão claramente não. Mas não sei o que minha mãe sabia consciente ou inconscientemente.

Quando a confrontei anos depois, ela sabia das agressões, via os sinais físicos.

Mas tempos depois ela me disse que eu frequentemente tinha infecções, pesadelos, mudanças de personalidade, e então começou a se lembrar de coisas como o que um tio havia dito, que meu pai dava atenção demais à mim, e começou a juntar as peças.

BBC - Havia alguém que te apoiava quando era pequena?

Eve Ensler - Tive uma tia maravilhosa e uma babá que cuidavam de mim, que me tratavam com amor. Acredito que essas pessoas salvaram minha vida.

BBC - Seu pai parou de estuprá-la, mas começou a te bater horrivelmente. Como lidava com isso quando era pequena?

Eve Ensler - Eu me separava de mim mesma. Me lembro que meu pai me chamava e eu podia adivinhar pelo seu tom de voz o quão forte iam ser os golpes.

Então eu me olhava no espelho e dizia: "agora você vai (embora), não vai estar aqui, não vai sentir nada do que se passa."

BBC - Funcionava?

Eve Ensler - Sim. Frequentemente funcionava. Grande parte da minha vida foi voltar ao meu corpo. Regressar ao meu corpo e ver que era meu.

A separação era um salto imaginativo, que de alguma maneira me levou a escrever, que é essa ideia de criar personagens, de viver em minha imaginação, um lugar que podia me separar da dor que constantemente sentia.

BBC - Como isso afetou seus relacionamentos?

Eve Ensler - Eu escolhi mal. Eu escolhi muito mal (risos). É muito triste dizer, mas nunca senti que merecia ser o objeto único de devoção de alguém. Eu sempre estive na segunda posição. Era a segunda do meu pai, depois de minha mãe.

Eu nunca imaginei que algum homem ou mulher (porque eu estive com os dois) pudesse querer ficar sozinho comigo. Eu sempre era a segunda pessoa na vida da pessoa com quem estava - eu era sempre um caso, ou uma amante.

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Image caption A autora conta que seu pai a fazia sentir-se culpada

Acho que sempre nos inclinamos para pessoas que são como nossos agressores. Temos a fantasia absurda de que vamos mudá-los, que vamos mudar nossa história. Também porque é tremendamente familiar. Eu nunca escolhi as pessoas que me amavam, porque elas me aterrorizavam. A única vez em que tive amor quando criança, eu fui traída.

BBC - Se lembra de querer, quando criança, que seu pai pedisse desculpas?

Eve Ensler - Constantemente eu escrevia cartas a ele, pedindo desculpas, porque ele me fazia me sentir culpa. "Me desculpa" era meu segundo nome. Mas também havia uma parte de mim que acreditava que seu eu pedisse perdão o suficiente, ele faria o mesmo.

BBC - O que você acha que teria conseguido?

Eve Ensler - Muitas coisas. Teria me libertado de sentir que era a única pessoa má em nosso relacionamento.

BBC - Por que você acha que ele nunca esteve nem perto de se desculpar?

Eve Ensler - Porque meu pai cresceu em uma época em que os homens nunca estavam errados. Ele era o diretor executivo de uma empresa, da minha família, ele sempre teve razão. A ideia de discordar de meu pai era um crime.

BBC - Como você se sentiu quando ele morreu?

Eve Ensler - Foi muito estranho porque, aparentemente, meu pai esteve muito doente por muito tempo, ele teve câncer e minha mãe nunca me ligou para me contar. Fui ver minha mãe alguns dias depois da morte do meu pai e fui até o armário dela, encontrei um suéter, cheirei e disse "bem, esse vai ser o nosso fechamento, segurando seu suéter, assim será meu adeus a você ". O que eu senti sobre a sua morte? Não muito. Eu me senti entorpecida.

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Image caption Eve Ensler sofreu consequências do abuso a vida toda

BBC - Você não estava nem um pouco brava com ele?

Eve Ensler - Acho que levei anos para entender a magnitude do que meu pai fez comigo. Eu acho que isso é uma verdade para qualquer sobrevivente.

Lembro-me de um dia em que eu estava na faculdade, bebendo com alguns amigos, quando contei brincando da vez em que meu pai estava me batendo e pediu para minha mãe lhe trazer uma faca de cozinha para me esfaquear. Minha mãe saiu do quarto, mas felizmente não voltou. Lembro-me de rir dessa história, mas meus amigos ficaram calados e depois disseram "o quê!?"

Foi a primeira vez que recebi um feedback do mundo, uma alerta, de como isso era insano e extremo. E isso me aterrorizou.

BBC - Escrever The Apology foi como uma espécie de terapia?

Eve Ensler - Mudou o centro da história. Meu pai deixou de ser um monstro monolítico para ser alguém que pede perdão, um ser humano frágil e quebrado.

Nesse sentido foi incrivelmente libertador. Posso dizer que provavelmente conheço meu pai melhor do que ele conhecia a si mesmo.

BBC - Quais as razões do comportamento dele?

Eve Ensler - Meu pai foi adorado, mas adoração não é amor. Essa idealização reprime qualidades humanas, como a fraqueza, a vulnerabilidade. Quando estes sentimentos afloravam em meu pai, ele os enterrava, porque não queria decepcionar as pessoas que o haviam idealizado. E eventualmente essas coisas causaram uma metástase. Acredito que é isso que fazemos aos homens: não permitimos que eles seja seres humanos e isso faz com que eles percam a empatia.

BBC - O que te levou a escrever esse livro agora?

Eve Ensler - Nos últimos 21 anos eu fiz parte de um movimento contra a violência contra as mulheres e escutei as piores histórias do mundo. Agora com o movimento #MeToo, me pergunto: onde estão os homens? Nunca vi nenhum homem pedir desculpas autênticas, profundas e públicas. Se os homens não começarem um processo de desculpas, como vai terminar isso?

BBC - Sente que sei pai te pediu perdão através desse livro?

Eve Ensler - Definitivamente.

BBC - Aceita suas desculpas?

Eve Ensler - Sinto que cada pedaço do meu rancor foi embora, já não o sinto, e nesse sentido meu pai se foi também.

BBC - Você consertou o relacionamento com sua mãe?

Eve Ensler - Sim, depois que meu pai morreu. Tivemos alguns confrontos, nas quais ela admitiu sua parte da culpa, se desculpou. E agora estou muito em paz e creio que ela está em paz comigo.