Formado engenheiro da UFRJ, jovem volta ao Haiti com sonho de reconstruir sua comunidade

Jac-Ssone Alerte posa em ambiente interno ao lado de tijolos e outros materiais usados na produção Direito de imagem Divulgação
Image caption Jac-Ssone Alerte embarca de volta para o Haiti no fim de setembro para assentar os primeiros tijolos do projeto Village Marie

Dez anos atrás, o haitiano Jac-Ssone Alerte desembarcou no Brasil para aprender português e estudar para ser dentista. Mas o terremoto que devastou seu país em 2010 deslocou seu rumo e mudou seus planos de vida.

Hoje com 35 anos, Alerte embarca de volta para o Haiti no fim de setembro para assentar os primeiros tijolos do sonho que começou a acalentar naquela época, e que ganhou forma no projeto Village Marie - batizado em homenagem a sua mãe, Marie Celiane Alexis, já falecida.

Sua proposta é construir uma vila de casas populares robustas, mais resistentes a futuros desastres, na comunidade pobre onde cresceu no Haiti, Don de l'Amitié - engajando os futuros moradores na construção, em regime de mutirão.

No fim desde mês, Alerte despacha para o Haiti um contêiner com parte do material para construir as cinco primeiras casas, adquirido com recursos de uma vaquinha virtual e do livro que escreveu sobre o projeto e sobre sua história, (Re)construindo um sonho.

Alerte começava o segundo semestre de Odontologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) quando um terremoto de 7,2 graus na escala Richter atingiu seu país, com epicentro próximo à capital, Porto Príncipe. Os tremores mataram mais de 300 mil pessoas, de acordo com o governo, e arrasaram com a infraestrutura já precária de seu país.

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Image caption Jac-Ssone Alerte ficou conhecido na UFRJ como o 'cara do tijolo', porque sempre andava com um tijolo ecológico falando sobre suas ideias para moradias populares no Haiti, até mesmo em sua formatura em engenharia civil em 2017

Enquanto acompanhava as notícias sobre a destruição à distância, o jovem estudante, ainda no início da faculdade no Rio, decidiu mudar de carreira, obstinado a construir e poder "transformar a vida de milhares de pessoas".

"Precisava fazer alguma coisa. E fui estudar engenharia civil com uma única ideia na cabeça: montar um projeto social e voltar para o Haiti", diz o jovem engenheiro à BBC News Brasil, vestindo uma camiseta com a frase: "De tijolo em tijolo, construímos sonhos".

Depois do tremor, o furacão

O haitiano estava no penúltimo ano do curso de engenharia quando o seu país foi varrido por mais uma tragédia natural, o furacão Matthew, em outubro de 2016.

O ciclone deixou mais de mil mortos, e os ventos de 250 km/h destruíram Don de l'Amitié, a comunidade onde Alerte cresceu, na pequena cidade de Duchity, a 230 quilômetros de Porto Príncipe.

A nova tragédia e as notícias de destruição reforçaram seu senso de responsabilidade.

"Foi um desastre. Eu pensei: 'Sou um jovem cheio de energia. Vou ser engenheiro e vou planejar minha pequena cidade'. E comecei a desenvolver o projeto."

A mãe de Alerte havia falecido meses antes do furacão, em julho de 2016, e o projeto que estava ganhando forma ganhou seu nome: Village Marie.

Alerte se emociona ao lembrar a última conversa que teve com a mãe, em 2016. Ela aconselhou o filho a não buscar a riqueza material. "Procure ser alguém de valor. Volte e faça algo diferente", disse, segundo o filho.

"Quando ela faleceu, deixou um vazio. Mas ela me deu inspiração. Quis pensar grande. Foi um chamado", afirma.

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Image caption Igreja no Haiti completamente destruída; o furacão de 2016 destruiu as casas de Don de l'Amitié, comunidade pobre onde Jac-Ssone Alerte cresceu, o sétimo de onze filhos

'O cara do tijolo'

Alerte cresceu na roça em uma família humilde, o sétimo de 11 filhos, a maioria homens, com apenas duas irmãs. O pai, agricultor, cultivava arroz, fubá, inhame, café e feijão para sustentar a família.

Cabia à mãe, e aos filhos ainda crianças, levar os produtos para vender em feiras. Alerte se lembra de sair de casa no meio da madrugada ao lado dos irmãos, percorrendo quilômetros levando os frutos das colheitas em lombo de burro, para vender em feiras a partir das 6h. Mas todos foram para a escola, ao contrário das outras crianças da comunidade.

"Meu pai nunca teve ensino, mas acreditava na educação. Ele conseguiu ver além daquele espaço e nos mandou para estudar. Ele foi um visionário."

O jovem concluiu o ensino médio, mas após várias tentativas no vestibular, não conseguiu vaga nas universidades da capital. Então teve ideia de mandar cartas para embaixadas de outros países para tentar a sorte.

E recebeu uma ligação da Embaixada do Brasil com a notícia de que conseguira uma vaga no Programa de Estudante de Convênio para Graduação (PEC-G), um convênio dos ministérios da Educação e das Relações Exteriores para jovens de países em desenvolvimento.

"Fiquei tão maravilhado que quase morri atropelado ao atravessar a rua!", descreve em seu livro. Já tinha vontade de estudar engenharia civil, mas se satisfez com Odontologia, a possibilidade que apareceu.

Após o terremoto, quando decidiu mudar de curso, precisou convencer desde o reitor da UFRJ ao embaixador do Haiti no Brasil - que o chamou de "problemático" por insistir tanto em sair do roteiro. Deu certo.

Na graduação em Engenharia Civil, Alerte ficou conhecido como "o cara do tijolo".

Andava para cima e para baixo carregando um tijolo ecológico, falando a quem lhe desse ouvidos sobre a ideia, ainda incipiente, de construir casas populares - resistentes e duráveis - no Haiti. Integrou o centro de pesquisas Projeto Solução Habitacional Simples (SHS), na UFRJ, voltado para a reconstrução de residências populares após situações de desastre.

Quando se formou, em 2017, posou para a tradicional foto de beca com o canudo do diploma em uma mão - e o tijolo na outra.

"Eu sou tão inconformista que mudei o protocolo do PEC-G. As portas estão fechadas, mas podem ser abertas. Não acredito nessa teoria de que não dá para fazer. Acho que dá para fazer o impossível", afirma.

Cinco casas para começar

O Village Marie foi idealizado como uma vila para 15 famílias que tiveram suas casas destruídas pelo furacão Matthew em Don de l'Amitié. O nome da vila significa "dom da amizade", na tradução do francês, língua oficial da ex-colônia francesa ao lado do crioulo haitiano.

A vila será erguida em um terreno de 20 mil metros quadrados, doado pelo pai de Alerte para o projeto, adquirido com a ajuda de lideranças locais. Além das casas, terá equipamentos públicos como escola - para que todas as crianças tenham acesso a educação - e centro comerciais.

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Image caption O projeto arquitetônico prevê 15 casas construídas com tijolo ecológico, com cartilhas explicando cada parte do processo construtivo, para que os futuros moradores possam erguer as casas mesmo sem ter conhecimento técnico

No fim de setembro, o engenheiro chega ao Haiti para receber o contêiner que despacha para lá neste mês, carregado com 300 sacos de cimento, um gerador elétrico, telhas ecológicas e uma minifábrica para fazer tijolos ecológicos, com uma prensa manual, um triturador do solo e equipamentos laboratoriais.

O material será usado para construir as cinco primeiras casas do Village Marie e foi adquirido com os mais de R$ 50 mil obtidos por meio de uma vaquinha virtual no início do ano.

E também através de parcerias e apoios que o engenheiro vem costurando com quem se dispuser a ouvir sobre seu projeto. Uma fábrica em São Paulo concordou em doar a prensa manual de tijolos ecológicos. A dona de uma empresa de importação e exportação no Rio cedeu uma sala para o projeto e topou cuidar, de graça, de toda a logística de exportação. Um escritório de arquitetura embarcou no projeto para, segundo Alerte, "pra tornar a concepção do Village ainda mais encantadora". E ele se mantém em diálogo com universidades, buscando firmar parcerias com pesquisadores da UFF e da Coppe, na UFRJ.

Os futuros moradores do Village Marie foram selecionados com base em um sistema de pontuação, somando critérios que priorizam famílias de baixa renda, que façam parte da comunidade há pelo menos cinco anos e mães solteiras com filhos pequenos.

"A engenharia social é muito mais importante do que a engenharia civil", aponta Alerte. O haitiano explica que os moradores da região são nômades e costumam viver em pontos isolados, e o trabalho envolve convencê-los a viver em comunidade.

"É a única forma de conseguir oferecer saneamento básico", diz.

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Image caption A prensa manual será usada para fabricar os tijolos ecológicos usando terra, argila e água, além de um pequeno percentual de cimento

'Para quem não tem recursos, mas tem energia'

Mas antes de serem futuros moradores, as famílias selecionadas serão construtoras. Este é um dos grandes diferenciais do projeto. As casas serão erguidas em regime de mutirão, seguindo técnicas construtivas simples e aproveitando materiais disponíveis na região.

Alerte compara a ideia com o sistema de linhas de montagem criado por Henry Ford na indústria automobilística americana nos anos 1910. "Cada um será responsável por uma fase do projeto. Fundação, alvenaria e por aí vai", diz ele, que desenvolveu uma cartilha com o passo a passo para cada etapa da operação.

"O projeto foi pensado para quem não tem recursos, mas tem energia para fazer", diz Alerte.

Ele acredita que a estratégia poderá gerar engajamento e comprometimento na comunidade, fortalecendo laços para um futuro longevo.

"O Haiti é o país das ONGs. É preciso ensinar as pessoas a fazer. É preciso gerar autoestima. As pessoas precisam sentir que a solução está dentro delas e que não precisam esperar o governo", considera, esperando gerar um ciclo virtuoso que acabe envolvendo o governo futuramente e replicando o modelo para outras comunidades.

'Receita' para construir casas

Cada casa foi projetada para cinco pessoas, mas já prevendo a construção de um quarto adicional, com uma "fundação de espera" já incluída para uma eventual expansão.

Terra, argila e água são a principal matéria-prima para fazer os tijolos ecológicos com a prensa manual, acrescidos de um pequeno percentual de cimento. "Vamos explicar com extrair o solo e como usar a água para dar a resistência aos tijolos. O processo difere do convencional porque não é preciso queimá-los. Assim, não emite CO2", diz.

Cada tijolo tem dois furos que podem ser perpassados por vergalhões de aço e preenchidos por concreto. Assim, pilares não são necessários, o que simplifica a estrutura das casas. "O formato do tijolo facilita o processo construtivo. As pessoas não precisam de qualificação muito boa para fazer."

"Sistematizamos o processo para uma família humilde que não entende de engenharia, mas a partir dessa metodologia pode pegar o passo a passo. É uma receita", resume Alerte.

Direito de imagem Júlia Dias Carneiro/BBC News Brasil
Image caption 'Somos nós, como cabeças pensantes, que temos que mudar as nossas próprias comunidades', defende engenheiro

Alerte começou a desenvolver o projeto em seu trabalho de conclusão de curso (TCC) na UFRJ e, depois, em uma pós-graduação em Planejamento, Gestão e Controle de Obras Civis na universidade.

Em 2018, recebeu um prêmio e ganhou como recompensa a elaboração gratuita de um plano de negócios para seguir adiante, incluindo análise de mercado, branding, estratégia de marketing e plano de gestão.

Nos últimos meses, Alerte conseguiu ajeitar a papelada para transformar o Village Marie em uma organização social sem fins lucrativos no Brasil (ONG) para facilitar os próximos passos. A organização é integrada por sete pessoas, entre brasileiros e haitianos.

E tem viajado o Brasil dando palestras sobre seu projeto. Em setembro, antes de partir, foi convidado para participar do TEDx de Uberaba e dar uma aula magna na Universidade de São Paulo (USP).

"Somos nós, como cabeças pensantes, que temos que mudar as nossas próprias comunidades. Temos muitas pessoas brilhantes que só querem criticar. Precisamos de planos para colocar a mão na massa e fazer acontecer", considera. "Acho que é desse tipo de espírito que a humanidade precisa."

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