Como o fogo, vilão da Amazônia, forjou o homem moderno e a economia

Foto do incêndio de 1910 Direito de imagem Forest History Society, Durham, NC
Image caption O grande incêndio de 1910 deixou 86 pessoas mortas

"Os cânions pareciam agir como chaminés, por meio das quais o vento e o fogo invadiam com a força de mil trens. A fumaça e o calor se intensificaram tanto que ficava difícil respirar. Para nós, ali nas montanhas, o mundo inteiro parecia estar pegando fogo. Muitos pensaram que era mesmo o fim do mundo."

O relato é do guarda florestal americano Ed Pulaski, que foi pego no meio do que depois ficaria conhecido como o "Big Blowup" (O grande estouro) ou "Great Fire of 1910" (O grande incêndio de 1910).

De forma semelhante, a região amazônica no Brasil sofre com incêndios durante seu período seco, entre julho e outubro. Neste ano, porém, dados de satélite divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que houve um aumento de mais de 80% nos focos de incêndio no Brasil em relação ao mesmo período de 2018. O fogo é um vilão da Amazônia.

Em 1910, Pulaski entendeu que seu papel não era mais salvar as florestas do norte do Estado de Idaho, nos EUA, mas proteger os bombeiros.

"As árvores estavam caindo em cima de nós", ele disse. "E era quase impossível ver pela escuridão cheia de fumaça. Se não fosse nossa familiaridade com as trilhas, nunca teríamos saído daqui vivos, porque estávamos completamente rodeados por um fogo intenso, violento."

Direito de imagem Forest History Society, Durham, NC, USA
Image caption A entrada para uma mina onde Ed Pulaski protegeu sua equipe

"Minha esperança era chegar até uma mina de ouro antiga que, eu sabia, não estava muito distante. Chegamos até a mina bem a tempo."

Pulaski desmaiou. Mais cedo, com o fogo se aproximando, ele disse à sua mulher, Emma, onde se abrigar com sua filha de 10 anos, Elsie. Também disse a ela que talvez ele não retornasse. Na manhã seguinte, ele não conseguia enxergar e suas mãos estavam queimadas. Mas ele estava vivo, assim como alguns de seus homens.

O incêndio havia matado 86 pessoas e consumido madeira que seria suficiente para construir 800 mil casas.

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Image caption Conhecido por ter salvado os homens que estavam com ele, Ed Pulaski permaneceu no serviço florestal americano até 1929

Também foi o que despertou uma consciência nacional e fez com que o serviço florestal americano prometesse controlar todos os incêndios de forma mais rápida possível.

Equilíbrio complexo

Essa promessa depois se provaria menos sábia do que poderia parecer, mas é possível entender a necessidade de fazê-la. O fogo é assustador, mas também é fundamental na economia moderna.

Durante 90% da história da Terra, não havia fogo algum. Havia erupções vulcânicas - mas a lava não é fogo, porque o fogo é uma reação química: o processo de combustão.

É a vida que cria tanto oxigênio quanto o combustível que precisa para queimar. Evidências fósseis indicam que plantas inflamáveis evoluíram cerca de 400 milhões de anos atrás, e periodicamente pegavam fogo, em parte por causa desses vulcões, mas em sua maior parte por causa de relâmpagos.

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Image caption Relâmpagos são surpreendentemente comuns - há cerca de 8 milhões por dia no planeta

Recentemente, observações via satélite nos mostraram o quão surpreendentemente comuns são os relâmpagos - há cerca de 8 milhões deles por dia. São mais responsáveis por incêndios do que churrascos feitos de qualquer jeito ou cigarros descartados sem cuidado.

Incêndios forjaram paisagens - e, com isso, a evolução. Isso permitiu que pradarias se espalhassem, cerca de 30 milhões de anos atrás. Sem o fogo, elas teriam se tornado bosques ou florestas. E os campos são tidos como essenciais para a ascensão dos hominídeos que evoluíram para homens.

Tente imaginar a economia antes de quando nossos ancestrais contralaram o fogo.

Você pode começar descartando produtos feitos de metal ou fabricados com ferramentas metálicas - a vida do metal começa no forno. A mesma coisa vale para o vidro.

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Image caption Sem o fogo, não teríamos vidro, nem plástico, nem metal

Agora, esqueça qualquer coisa que envolva a queima de combustíveis fósseis, para o transporte ou eletricidade, ou que use materiais feitos no calor de um fogo - pense em plástico - ou plantas que cresceram com fertilizantes artificiais, feitos a partir do processo "Haber-Bosch", que envolve uma reação química entre nitrogênio e hidrogênio.

Não haveria tijolos ou cerâmica: são feitos em fornos. Não sobra muita coisa. Comida orgânica e crua, cortadas com uma pedra afiada? Não podemos chamar isso de "economia".

Evolução do cérebro

Exatamente quando e como nossos ancestrais aprenderam a controlar o fogo é uma questão controversa.

Chimpanzés aparentam entender bem como o fogo se espalha. E outras espécies estão de olho na oportunidade de caça que o fogo oferece.

Algumas aves de rapina já foram vistas pegando gravetos que estavam em chamas e os movendo para dar início a um novo incêndio em outro lugar - atacando criaturas que fugiam do fogo.

Parece provável que nossos ancestrais, de forma semelhante, aproveitaram o fogo por centenas de milhares de anos antes de descobrir como fazer faíscas de pedras, mantendo vivo o fogo que conseguiam o alimentando com materiais como esterco.

O primatologista Richard Wrangham defende que, como comida cozida dá mais energia, isso permitiu que humanos evoluíssem para ter cérebros maiores.

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Image caption Noites ao redor do fogo deram ao nossos ancestrais mais tempo para socializar

Já o arqueólogo John Gowlett liga o fogo à hipótese do "cérebro social" - a ideia de que evoluímos e tivemos cérebros maiores para navegar dentro de pressões sociais maiores. Noites ao redor do fogo deram aos nossos ancestrais mais tempo para socializar.

No entanto, embora possa haver verdade nessas especulações, o desenvolvimento econômico nos fez confinar o fogo em câmaras especiais - de plantas industriais a motores de combustão ao gás no forno da sua cozinha. O historiador Stephen Pyne chama isso de "transição pírica".

E onde isso ainda não aconteceu, há um problema: em países em desenvolvimento, milhões de mortes são ligadas à poluição causadas pelo cozimento em fogos não confinados. Mas Pyne argumenta, por outro lado, que a transição aumentou nosso medo do fogo. E com a mudança climática nós podemos esperar ver mais desses incêndios.

Enquanto observações via satélite estão nos ajudando a entendê-los, a mudança de padrões de clima e vegetação estão fazendo com que seja mais difícil de prevê-los.

Demorou meio século até que o consenso heróico de Pulaski, de que é melhor extinguir incêndios de maneira rápida, não fosse visto como uma ideia tão boa.

O problema é que eventualmente haverá fogo que não podemos conter - e esse incêndio será ainda mais devastador queimando toda floresta morta que teria sido liberada pelos pequenos fogos se não tivéssemos corrido para apagar todos eles.

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Image caption Em novembro de 2018, o fogo se espalhou rapidamente pela Califórnia, destruindo a cidade de Paradise

Além disso, há outro aspecto que devemos notar: estamos construindo em áreas cada vez mais próximas de onde haverá fogo cedo ou tarde. Quando especialistas dizem que é melhor deixar alguns incêndios queimarem, haverá pessoas nas áreas próximas que certamente não ficarão contentes.

Como Andrew Scott defende em seu livro Burning Planet (Planeta em Chamas, em tradução livre): "Nosso entendimento científico do fogo em anos recentes ainda não se traduziu em conscientização maior do público".

Alguns economistas acreditam que haja um paralelo entre a forma como lidamos com o fogo e como lidamos com crises fabricadas pelo homem.

A teoria é que, quando melhoramos a forma como lidamos com pequenos problemas, criamos uma sensação de segurança, o que paradoxalmente cria um risco de problemas muito maiores.

É como a crise financeira de 2007-2008, o maior "incêndio" econômico dos nossos tempos.

Em seu livro Foolproof, o comentarista do Wall Street Journal Greg Ip defende que legisladores financeiros são tão bons em acabar com pequenas crises que as pessoas ficaram confiantes demais e assumiram riscos bobos - como conceder empréstimos a tomadores de alto risco.

Foi precisamente o sucesso em mitigar o risco anterior que levou ao infortúnio subsequente.

"Nossos esforços para tornar a vida mais segura entrou em conflito com um desejo igualmente relevante de tornar as coisas maiores e mais complicadas", ele escreve.

"As oportunidades de desastre acompanharam nossas cidades, sistemas de transporte e mercados financeiros quando estes se tornaram mais conectados e complexos."

"Prevenir com sucesso um tipo de risco pode simplesmente fazer com que ele se espalhe e escorra em outras partes, para ressurgir, como uma bactéria modificada, de forma mais virulenta."

E quando uma crise financeira que não podia ser "apagada" chegou, aquelas apostas ruins foram combustível para uma conflagração global que se espalhou como um grande incêndio.

O autor desse texto escreve para uma coluna do Financial Times, a Undercover Economist. A série "50 Things That Made the Modern Economy" é exibida no BBC World Service. Você pode encontrar mais informações sobre as fontes do programa e escutar a todos os episódios online ou seguir o podcast aqui.

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