‘Parem, já me entreguei’: os detalhes e imagens da guerra após a prisão do filho de 'El Chapo' no México

Ovidio Guzmán López Direito de imagem Governo do México
Image caption Operação para prender filho de 'El Chapo' se tornou um fracasso militar e político

A imagem mostra alguns soldados na garagem de uma casa. Eles estão ansiosos, com as armas posicionadas. É possível ouvir tiros nos arredores.

Um soldado acena com a mão, e seus colegas se aproximam da porta da casa, de onde uma mulher sai ao lado de um jovem de boné e camisa azul.

Ouve-se uma ordem — "Saia, Ovidio!" —, mas o jovem volta ao interior da casa e tenta fechar a porta. A mulher pede calma enquanto os soldados exigem que ele mostre as mãos.

Em menos de um minuto, Ovidio Guzmán López, "El Ratón", entrega sua arma a um colega e sai de casa. Ele levanta as mãos e tira o boné enquanto soldados o agarram pelos braços.

Assim se deu a operação para prender um dos filhos de Joaquín Guzmán Loera, conhecido como "El Chapo", em 17 de outubro em Culiacán, no Estado mexicano de Sinaloa, segundo imagens da ação divulgadas pelas autoridades nesta quinta-feira (31/10).

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Momento de prisão do filho de El Chapo

As imagens permitem ver os momentos de tensão a partir do ponto de vista dos militares, que carregam câmeras em seus capacetes e capturam o episódio em tempo real.

A operação desencadeou uma reação violenta do cartel de Sinaloa. Centenas de criminosos bloquearam ruas da cidade, fizeram 20 soldados de reféns e atacaram edifícios onde vivem famílias de militares.

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Image caption Culiacán viveu momentos de violência após prisão

O tamanho da reação do grupo obrigou o governo do presidente Andrés Manuel López Obrador a soltar Guzmán López.

Nesta quinta-feira, durante sua habitual coletiva de imprensa, o mandatário deu detalhes da operação frustrada e defendeu sua decisão de suspendê-la.

"Tudo isso ocorreu em questão de horas, estamos falando de algo como o início de uma guerra", disse López Obrador.

Obrador foi eleito no ano passado prometendo combater os cartéis de drogas do México e delegou essa missão a uma nova força de segurança, a Guarda Nacional.

Sob a liderança de El Chapo, o cartel de Sinaloa era o maior fornecedor de drogas para os EUA, segundo autoridades.

Com El Chapo agora atrás das grades, o cartel é parcialmente controlado por Ovidio Guzmán, acusado de tráfico de drogas nos EUA.

'Ação precipitada'

Desde 2 de abril, há um mandado de prisão contra Ovidio Guzmán no tribunal federal de Columbia, nos Estados Unidos, segundo o secretário de Defesa mexicano, Luis Crescencio Sandoval González.

Em 13 de setembro, o governo americano pediu ao México para deter o filho de "El Chapo", e a partir dali a operação foi planejada até 4 de outubro.

Semanas depois, quando um juiz emitiu um mandado de prisão para extraditar "El Ratón", a Guarda Nacional enviou uma equipe a Culiacán, com reforço do Exército.

O plano era prender Ovidio Guzman em 17 de outubro em sua casa. Originalmente, a estratégia incluía o apoio de quatro grupos militares para monitorar as ruas ao redor da casa, mas naquela quinta-feira somente um conseguiu chegar ao local.

O restante foi atacado no caminho para a residência por integrantes do cartel de Sinaloa, segundo as autoridades. Os soldados que cercavam a casa de Guzmán López estavam praticamente sozinhos.

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Image caption Helicópteros militares foram atacados durante a ação

Parte do problema, admitiu o secretário de Defesa, foi que a entrega da ordem para entrar na casa se atrasou e, portanto, os militares tinham que esperar na garagem e na rua.

O atraso amplificou as agressões do Cartel. "Esses atos violentos foram causados ​​por uma ação precipitada, que deve ser admitida com toda a honestidade", afirmou o secretário de Segurança Alfonso Durazo.

Troca de reféns

Em poucas horas, de uma maneira que parecia ter sido ensaiada, centenas de jovens armados bloquearam ruas e avenidas de Culiacán. Um helicóptero militar foi baleado diversas vezes.

Outros jovens libertaram 50 prisioneiros que estavam na prisão de Aguaruto, alguns deles membros do cartel.

Eles também tomaram como reféns soldados em uma cabine de pedágio no caminho para o spa de Mazatlan, e outro grupo atirou na unidade habitacional onde vivem famílias de militares, segundo relato das autoridades.

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Image caption A operação foi planejada ao longo de várias semanas

Segundo o secretário de Defesa, eles atiraram granadas que não explodiram e foram a quatro edifícios do governo para tentar sequestrar seus ocupantes.

O Gabinete de Segurança do governo federal, que se reunia na Cidade do México, recebeu relatos de que o cartel planejava outros ataques nas cidades de Durango, Sonora e Chihuahua.

Outro relatório oficial indicou o plano dos narcotraficantes de trocar soldados sequestrados por Ovidio Guzmán, além da intenção de atirar em civis em algum momento daquele dia.

Assim, "às 19:49 foi ordenado o cancelamento da operação e a retirada das tropas do local onde estavam", afirmou o secretário Sandoval González.

Ovidio Guzmán foi solto, e a violência foi gradualmente reduzida.

Ordem para cessar a violência

Antes de tomar a decisão de soltura, os soldados pediram a "El Ratón" que ele falasse com sua família pedindo um cessar-fogo.

O momento foi gravado em um vídeo. As imagens mostram Ovidio Guzmán enquanto conversava em um telefone celular.

"Pare tudo. Ouça, parem, já me entreguei", diz ele.

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Image caption Centenas de integrantes do Cartel de Sinaloa bloquearam ruas de Culiacán

Mas o telefonema não surtiu efeito. "Na comunicação com seu irmão, ele afirma que não vai parar", diz o secretário de Defesa.

"Até faz ameaças contra militares e suas famílias nessa comunicação."

Ovidio Guzmán e seus companheiros, dois homens e uma mulher, permaneceram na garagem de sua casa por várias horas, até vir a ordem para suspender a operação.

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Image caption López Obrador foi duramente criticado por ter soltado o filho de 'El Chapo'

Foi a melhor decisão, insistiu o presidente López Obrador. Tentar levar "El Ratón" para a Cidade do México, como era o plano original, teria causado pelo menos 200 mortes, segundo seus cálculos.

A soltura do filho de "El Chapo" foi duramente criticada ao redor do país e abalou a popularidade do presidente.

"Não se apostou na guerra, no confronto, e se pensou na vida das pessoas, que é o mais valioso", defendeu López Obrador.

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