Os médicos e enfermeiras que passaram o Natal lutando contra epidemia de sarampo

Bebê com sarampo Direito de imagem DFID/UKEMT
Image caption A epidemia de sarampo em Samoa já matou 79 pessoas, quase todas crianças menores de 5 anos.

"A ala pediátrica no momento é apenas uma ala de sarampo", diz Smiti Bihari, uma das médicas britânicas que passou o último Natal longe de casa, lutando contra a epidemia que atingiu Samoa.

O arquipélago-Estado no meio do Pacífico, de cerca 200 mil habitantes, já teve mais de 5,5 mil casos de sarampo e 79 pessoas morreram, quase todas crianças menores de 5 anos.

"É triste que as crianças sofram com doenças evitáveis. Na minha carreira, eu não deveria estar vendo sarampo", diz Smiti.

Os profissionais britânicos fazem parte da Equipe Médica de Emergência do Reino Unido, que envia funcionários do sistema de saúde pública britânico, o NHS, de todo o país para emergências ao redor do mundo.

Eles já combateram difteria nos campos de refugiados de etnia rohingya, em Bangladesh, no ano passado e o grande surto de ebola na África Ocidental em 2014 e 2015. Em Samoa, os britânicos estão trabalhando ao lado das equipes locais e voluntários de vários países.

"É impressionante quando você vê uma enfermaria cheia de pessoas com sarampo. Elas parecem tão doentes, não é algo com que estamos acostumados", diz a médica Rachel Anderson, da Escócia. "Eu nunca tinha visto sarampo."

Direito de imagem UKEMT
Image caption Atualmente, a Equipe Médica de Emergência do Reino Unido tem 13 membros em Samoa

Sarampo levou Samoa a declarar estado de emergência

A população de Samoa é de cerca de 200 mil pessoas, e houve 5.520 casos confirmados de sarampo — mais de uma em cada 50 pessoas. O surto atingiu principalmente crianças pequenas, porque eram as menos propensas a serem vacinadas.

Rachel diz que decidiu ir a Samoa por causa do "efeito devastador do sarampo".

"Meu marido e minha família foram muito compreensivos. Eles ficariam surpresos se eu não tivesse vindo. Fiquei arrasada ao ver todas essas crianças doentes, mas estou feliz por estar aqui", diz ela.

A doença levou o governo de Samoa a declarar uma emergência nacional em novembro. A vacinação tornou-se obrigatória. As escolas foram fechadas, e foram colocadas restrições às reuniões públicas na tentativa de controlar o vírus.

As pessoas têm pendurado bandeiras vermelhas fora de suas casas para destacar que não foram vacinadas.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Bandeiras vermelhas são penduradas fora das casas de pessoas que não foram vacinadas

A equipe britânica tem hoje 13 integrantes em Samoa. "Essa equipe está salvando vidas no Pacífico Sul. Sua generosidade e habilidades garantirão que as crianças infectadas recebam o tratamento necessário durante o Natal e evitarão que mais famílias percam entes queridos por essa doença mortal", disse o secretário de Desenvolvimento Internacional Alok Sharma.

O enfermeiro James Daley também foi convocado de última hora. "Era o primeiro ano em muitos em que eu estava de folga no Natal. Minha namorada ficou brava por uns dois dias, mas depois ficou tudo bem", diz ele.

James diz que trata de muitos bebês em Samoa, alguns com menos de um ano de idade. Uma das conseqüências do sarampo são as úlceras na boca e a inflamação na garganta — que dificultam a alimentação e a hidratação.

"Estamos tentando aliviar um pouco isso, garantindo que os bebês estejam relativamente sem dor para que possam continuar amamentando ou, se isso não for possível, tomando fórmula", diz o médico.

O tipo de caso varia. Há pessoas que chegam com os sintomas iniciais do sarampo, mas também agora há aquelas com as complicações mais graves e mortais da doença.

"Estamos vendo crianças e adultos muito doentes. Eles têm pneumonia e encefalite (inflamação cerebral que pode ser fatal) realmente graves. Há dias em que temos algumas mortes, e isso é muito triste para todos", diz Rachel.

"Mas existem algumas pequenas histórias de milagres".

O que é sarampo?

– O sarampo é um vírus altamente contagioso que se espalha com tosse, espirro ou contato direto.

– Pode ficar no ar ou permanecer na superfície por horas.

– O sarampo geralmente começa com febre, mal-estar, dor nos olhos e tosse, seguido por febre e erupção cutânea.

– Mesmo quando não é grave, o sarampo faz crianças sentirem-se muito mal, e a recuperação leva de sete a dez dias - mas são comuns complicações, incluindo infecções de ouvido, convulsões, diarreia, pneumonia e inflamação no cérebro.

– A doença é mais grave em pacientes muito jovens, em adultos e em pessoas com problemas de imunidade

Ela se lembra de uma menina com "terrível doença pulmonar" que foi mandada para casa para morrer, com um dreno no peito. "Ela voltou nesta semana. As crianças podem ser incrivelmente resistentes."

Direito de imagem DFIF/UKEMT
Image caption O sarampo se espalhou em Samoa após a queda das taxas de vacinação

Por que há uma epidemia?

O sarampo se espalhou em Samoa após a queda das taxas de vacinação. Pelo menos 95% tem de estar vacinadas para impedir surtos maciços da doença.

Mas a taxa no país caiu para 31%. Um fator foi a morte de dois bebês que receberam a vacina tríplice viral, para sarampo, caxumba e rubéola, o que causou temores sobre a própria vacina.

Mas depois foi determinado que as mortes foram causadas por enfermeiras que haviam misturado por engano a vacina com um relaxante muscular com a validade vencida, em vez de água.

As campanhas de vacinação em massa significam que 94% do país já foi imunizado, mas geralmente leva entre dez dias e duas semanas para uma vacina começar a funcionar.

Quando a médica Smiti Bihari chegou a Samoa, ela teve de trabalhar em uma barraca erguida em um estacionamento, porque o hospital estava simplesmente sobrecarregado de casos.

"O grande volume de crianças sofrendo, é triste que isso não tenha sido evitado. Mas é o mesmo na Europa", diz ela.

O Reino Unido e outros países, como Albânia, República Tcheca e Grécia, perderam o status de erradicação do sarampo em 2018 e a Ucrânia está enfrentando um grande surto. O mesmo ocorreu no Brasil.

Os casos de sarampo têm aumentado em todo o mundo nos últimos dois anos, e a Organização Mundial da Saúde descreveu cada morte causada pela doença como um "ultraje".

Mas Smiti diz que "não é tudo terrível" em Samoa. "É uma pena que isso tenha acontecido, mas há muitas crianças indo para casa, muitos bebês sorridentes, mães felizes, elas acabaram de passar por uma provação."

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

Tópicos relacionados

Notícias relacionadas