O homem que já examinou mais de 23 mil cadáveres  

Dr Richard Shepherd dentro de laboratório, com ferramenta em forma de tesoura nas mãos e jaleco
Image caption O patologista inglês trabalha com exames post-mortem há mais de três décadas, mas só aos 60 ele admitiu os impactos do trabalho em sua saúde mental

Atenção: Esta reportagem tem relatos e imagens que podem ser considerados perturbadores.

O patologista forense inglês Richard Shepherd já trabalhou com as evidências de algumas das mortes mais trágicas e famosas da história recente – como os ataques de 11 de Setembro, os atentados de Bali, em 2002, e a morte da princesa Diana.

Shepherd estima já ter realizado mais de 23 mil exames post-mortem em sua carreira, muitos dos quais decorrentes de massacres. Uma trajetória que, diz ele, hoje cobra seu preço.

"Duzentos corpos feridos e desmembrados em um só lugar deixam uma marca", disse ao programa de Victoria Derbyshire, da BBC.

"Sou acostumado à morte, estou acostumado a ela há 35 anos. Mas chega um momento que você não consegue mais abafar isso".

O patologista foi diagnosticado com Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT).

"Talvez eu devesse ter ido ver algum profissional uma vez por ano", reflete ele, acrescentando que não sentiu a necessidade de acompanhamento até que a condição se desenvolvesse por volta dos 60 anos de idade, auge de sua carreira.

O gatilho do transtorno veio com algo simples: os cubos de gelo em sua bebida, que o lembraram de seu trabalho após os atentados de Bali, na Indonésia, quando não havia refrigeração para as pilhas de cadáveres. Mais de 200 pessoas morreram nos ataques.

Mas ele acredita que as raízes do distúrbio vieram bem antes disso.

'Bizarro e perturbador'

"No voo sobre (a cidade de) Hungerford, tive o primeiro sinal", diz referindo-se a um massacre em que 16 pessoas foram assassinadas na Inglaterra, em 1987.

Foi o primeiro caso midiático em que Shepherd trabalhou.

"Houve uma ressonância bizarra e perturbadora (internamente), e (o transtorno) cresceu a partir daí."

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Image caption Patologista defende que profissionais como ele, atuando em emergências e após tragédias, deveriam receber assistência rotineira

Às vezes, como conta em um livro que escreveu sobre suas experiências, ele temia fechar os olhos, pois sua mente era "perseguida por (imagens dos) fragmentos de corpos".

"Havia intestinos. Fígados esponjosos. Corações que não batiam. Mãos. O fedor de decadência me tirava o fôlego."

Ele diz que, em alguns momentos, "achava ser melhor morrer do que viver assim".

Essa experiência o levou a acreditar que, após atuar em casos como esses, os patologistas deveriam receber acompanhamento psicológico, assim como outros profissionais dos serviços de emergência.

Por outro lado, o inglês também quer desfazer a ideia de que exames post-mortem são um ato brutal.

"Eu consigo entender essa percepção, mas na verdade trata-se de uma cirurgia complexa, não faz o corpo ficar horrível (como muitos pensam)."

"Após o 7/7 (ataques ao sistema de transporte londrino em 2005), as reconstruções (dos corpos) permitiram que muitos parentes tivessem um momento final e se despedissem (das vítimas)."

"Depois de um post-mortem, nenhum corpo parece pior do que estava quando entrou", diz, acrescentando que saber o que aconteceu com um ente querido em seus momentos finais pode ajudar as pessoas no processo de luto.

'A verdade é crucial'

No centro de todo o seu trabalho, ele diz, está o objetivo de encontrar a verdade sobre o que aconteceu.

Por isso, entre os trabalhos dos quais mais se orgulha, o patologista cita a investigação da morte de uma jovem de 15 anos por epilepsia súbita.

"Espero ter dado aos pais um entendimento verdadeiro do que aconteceu com sua filha", lembra. "A verdade é crucial."

Segundo Shepherd, a pergunta mais comum que os familiares lhe fazem é se a pessoa morta sentiu alguma dor.

"Eu só digo a verdade aos parentes", diz.

Embora tente ser gentil com suas palavras, o patologista diz que não é seu papel "tornar a situação melhor ou pior".

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Image caption Shepherd é especialista em avaliar corpos feridos por facas

"Mas trata-se do membro da família de alguém", diz. "É uma peça única de quebra-cabeça, cada morte é única."

Ele admite que viveu conflitos, como o de acreditar que alguém como Harold Shipman – um médico responsável pela morte de até 215 pacientes no Reino Unido – pôde ter cometido atos tão horríveis.

"Mas todas as evidências apontaram para isso. E era a verdade", lembra.

E houve casos longuíssimos, como o da morte de Stephen Lawrence, o jovem de 18 anos que foi esfaqueado até a morte em um ataque com motivação racial no sul de Londres em 1993.

Foi mais de uma década de trabalhos – uma investigação depois concluiu que havia "racismo institucional" dentro da polícia.

Shepherd diz que "patologicamente, tudo estava muito evidente", embora "todo o resto fosse tão complicado" no caso.

Aposentado do trabalho para o governo britânico, hoje ele ainda atua em casos de referência.

Sua especialidade são incidentes com facas. Em casos de múltiplas perfurações, ele consegue às vezes apontar com exatidão, apenas com base nos ferimentos, como era a faca usada no ataque.

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