A surpreendente fuga do empresário brasileiro Carlos Ghosn de prisão domiciliar no Japão para o Líbano

Carlos Ghosn fotografado em outubro de 2018 Direito de imagem Reuters
Image caption Ainda não está claro como Carlos Ghosn conseguiu deixar o Japão

O ex-presidente da Nissan, o brasileiro Carlos Ghosn, viajou ao Líbano após fugir do Japão, onde é acusado de crimes financeiros.

Num comunicado, Ghosn disse que não fugiu da Justiça, mas sim "da injustiça e da perseguição política". O advogado Junichiro Hironaka, que representa o brasileiro, afirmou que está "estupefato" com a notícia e que não falou recentemente com seu cliente.

Não está claro como Ghosn conseguiu deixar o país, já que ele estava impedido de viajar para o exterior e sob supervisão da Justiça. Um canal de TV libanês, MTV, diz que Ghosn teria fugido dentro de uma caixa de instrumentos.

O brasileiro, que tem um patrimônio estimado em US$ 120 milhões, era uma das figuras mais poderosas da indústria automotiva até ser preso em novembro de 2018. Ele nega ter cometido qualquer irregularidade.

O caso dele atraiu atenção internacional e os vários meses em que ficou na prisão levou a um questionamento sobre o sistema judicial japonês. O executivo de 65 anos nasceu no Brasil, é descendente de libaneses e passou parte da infância e juventude em Beirute, capital do Líbano, antes de completar os estudos em Paris.

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Image caption Esta casa em Beirute pertence a Ghosn. A esposa dele, Carole, nasceu na capital libanesa

Ele possui passaportes francês, brasileiro e libanês. Mas seu advogado disse a repórteres em Tóquio, nesta terça (31), que a equipe de defesa de Ghosn ainda está com os documentos dele.

"Eu nem sei se conseguiremos contato com ele. Não sei como vamos prosseguir a partir de agora", disse Hironaka.

O Líbano não tem acordo de extradição com o Japão. Ghosn foi liberado da prisão em abril após pagar US$ 9 milhões em fiança e sob várias restrições que tinham como objetivo impedir que ele saísse do país.

O que diz o comunicado de Carlos Ghosn

O executivo brasileiro divulgou um breve comunicado depois que várias agências de notícias publicaram a informação de que ele teria viajado ao Líbano.

Ele confirmou que embarcou para o país do Oriente Médio e disse que "não vai mais ser mantido refém pelo viciado sistema de justiça japonês, em que a culpa é presumida, a discriminação é desenfreada e direitos humanos básicos são negados".

"Agora eu posso finalmente me comunicar livremente com a imprensa e espero começar a fazer isso na próxima semana."

Ghosn tem repetidamente negado qualquer irregularidade desde que foi preso pela primeira vez. Os advogados dele acusaram o governo japonês de conspirar contra seu cliente, dizendo que o processo teve "motivações políticas".

A esposa de Ghosn, Carole Ghosn, disse à BBC News em junho que autoridades tentaram "intimidar e humilhar" o casal.

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Image caption Carole Ghosn (à direita, ao lado de Carlos Ghosn) chegou a dizer que pediria ajuda aos presidentes dos EUA e do Brasil e acusou o sistema judicial japonês de não respeitar os direitos do marido

Como o executivo conseguiu fugir do Japão é uma incógnita. Ghosn tinha que observar diversas restrições por determinação da Justiça desde que foi solto sob fiança.

Ele era monitorado por um sistema de vídeo em sua casa e tinha limitações para uso de celular e computador. Teve também que entregar os passaportes a seu advogado e necessitava pedir permissão a um juiz para passar mais de duas noites fora de casa.

De acordo com a agência de notícias japonesa Kyodo News, os termos da fiança não haviam sido modificados.

Vergonha e questionamentos no Japão

O correspondente da BBC News em Tóquio, Rupert Wingfield, diz que a fuga de Ghosn deixou na capital japonesa um sentimento de embaraço e muitas perguntas sem resposta.

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Image caption As condições da soltura de Ghosn sob fiança incluíam monitoramento de sua casa com câmeras de segurança e a entrega dos do executivo passaportes aos advogados de defesa

Como uma figura tão conhecida, que teve de entregar seus passaportes, conseguiu deixar um país que não tem fronteira terrestre com nenhum outro?

A imprensa japonesa especula que Ghosn pode ter usado um outro passaporte, com nome diferente.

Promotores haviam alertado que, se o executivo fosse solto, havia um risco de fuga, devido ao seu amplo patrimônio e múltiplas cidadanias.

Uma fuga musical?

Um canal de TV libanês, MTV, informou que Ghosn havia fugido de sua casa em Tóquio com a ajuda de um grupo paramilitar que estava disfarçado entre um bando de músicos.

Segundo a emissora, a banda havia se apresentado em sua casa e, pouco depois de terem terminado, o homem de 65 anos se escondeu em uma grande caixa de instrumentos musicais que foi levada às pressas para um aeroporto local.

Segundo a história da MTV, ele voou para a Turquia, antes de chegar ao Líbano em um jato particular. A emissora não forneceu provas dessa teoria que se espalhou rapidamente pelas mídias sociais.

Mas tomar uma atitude de filme espião não é tão improvável para Ghosn. Em março, em uma tentativa de despistar jornalistas, ele deixou a prisão disfarçado de trabalhador da construção civil. Ele foi rapidamente identificado, ridicularizado pela mídia, e seu advogado logo se desculpou pelo "plano amador".

O papel de Carole Ghosn

A fuga do ex-CEO de Tóquio a Beirute foi meticulosamente planejada por várias semanas, segundo o jornal americano Wall Street Journal.

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Image caption O ex-chefe da Nissan foi fotografado saindo da prisão disfarçado de trabalhador em março de 2019

O jornal, que citou várias fontes não identificadas, disse que uma equipe foi cuidadosamente montada para realizar a trama. Segundo informações, o grupo incluía cúmplices no Japão que transportaram Ghosn de sua casa para um jato particular com destino a Istambul. De lá, ele continuou sua jornada para Beirute, onde chegou nas primeiras horas de 30 de dezembro.

O site de rastreamento de avião FlightRadar24 mostrou um jato particular Bombardier Challenger chegando no aeroporto internacional de Beirute logo após as 04:00, horário local. Ghosn então encontrou sua esposa Carole, que nasceu na cidade e estava muito envolvida na operação, diz o Wall Street Journal.

Vários relatos dão conta de que Carole Ghosn era uma figura importante por trás do plano de seu marido de sair do Japão. Ela falou com ele por mais de uma hora em 24 de dezembro, disse o advogado japonês de Ghosn. O casal já havia sido proibido de se reunir ou se comunicar.

Depois que o marido chegou ao Líbano, Carole disse ao Wall Street Journal que o encontro deles foi "o melhor presente". Ela não comentou seu suposto envolvimento na operação.

No início deste ano, ela disse à BBC: "Quero meu marido de volta. Quero-o comigo. Sei que ele é inocente".

Carlos Ghosn cresceu no Líbano, possui propriedades lá e é uma figura popular. Ele até apareceu em um dos selos postais do país.

Ele negou repetidamente qualquer irregularidade.

Que acusações Ghosn enfrenta?

Ghosn já foi considerado o "herói" do sucesso da Nissan e se tornou até personagem de revista em quadrinhos no Japão. Mas sua queda foi tão notável quanto sua ascensão.

Ele passou 108 dias sob custódia, após ser preso em Tóquio em novembro de 2018. A Nissan demitiu Ghosn três dias depois disso.

Promotores alegam que o executivo fez um pagamento multimilionário a um distribuidor da Nissan em Omã. A empresa japonesa, por sua vez, acusa Ghosn de desviar dinheiro da companhia para enriquecimento próprio.

Ele também é acusado pelos investigadores de ter reportado ao fisco remuneração menor do que a que recebia. Ghosn nega todas as acusações.

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