Tóquio 2020: o movimento que pede a proibição da bandeira imperial do Japão na Olimpíada

Bandeira do sol nascente Direito de imagem Getty Images
Image caption Apenas uma bandeira — ou um símbolo do terror imperial?

Torcedores agitando bandeiras na arquibancada são uma cena corriqueira em qualquer evento esportivo internacional.

Mas será que uma bandeira pode ser considerada tão ofensiva para alguns países a ponto de desencadear um movimento para que seja proibida?

É o que está acontecendo com a bandeira do sol nascente do Japão às vésperas dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020. E a crítica mais ferrenha vem da Coreia do Sul — onde alguns políticos chegaram a compará-la à suástica nazista.

Eles alegam que a bandeira é levada aos estádios por torcedores que querem romantizar ou apagar da história as violações de direitos humanos cometidos por tropas japonesas no passado.

Por isso, a Coreia do Sul quer que ela seja proibida nas Olimpíadas — mas os organizadores do evento argumentam que a bandeira é "amplamente usada no Japão" e "não é uma manifestação política".

O que é a bandeira do sol nascente?

A bandeira nacional do Japão é um círculo vermelho sobre um fundo branco — e ninguém tem problema com ela.

Já a bandeira do sol nascente também tem um círculo vermelho, mas com 16 raios saindo dele.

Ambas são usadas há muito tempo e remontam a séculos.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Soldados japoneses durante a Segunda Guerra Mundial e navios da atual Marinha japonesa

Durante o século 19, o símbolo do sol nascente se tornou a bandeira militar do país. E, por esse motivo, foi hasteada durante a expansão imperialista do Japão, quando o país ocupou a Coreia e parte da China.

Durante a Segunda Guerra Mundial, virou a bandeira da Marinha — e sua reputação controversa vem principalmente desta época. As tropas japonesas ocuparam grande parte da Ásia durante a guerra, realizando atrocidades contra as populações locais.

Hoje, continua sendo a bandeira da Marinha do país, e uma versão ligeiramente diferente é usada pelo Exército.

Por que a Coreia do Sul não está contente?

Em 1905, o Japão ocupou a Coreia como protetorado e, cinco anos depois, como colônia.

O modelo de domínio japonês era de exploração econômica, e centenas de milhares de coreanos foram submetidos a trabalhos forçados para ajudar na expansão japonesa em outras partes da Ásia.

O regime violento também forçou milhares de meninas e mulheres a trabalhar em bordéis militares, criados para soldados japoneses antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

Conhecidas eufemisticamente como "mulheres de conforto", elas eram escravas sexuais.

E, além das coreanas, o exército japonês também forçou jovens de Taiwan, China e Filipinas a trabalhar nesses bordéis.

Muitos sul-coreanos associam, portanto, a bandeira do sol nascente a uma longa lista de crimes de guerra e opressão — e veem o uso continuado deste símbolo pelo Japão como um emblema do fracasso de Tóquio em lidar com seu passado.

Direito de imagem Mary Evans Picture Library
Image caption Estas mulheres coreanas foram encontradas pelos fuzileiros navais dos EUA em uma espécie de bordel na China em abril de 1945

A bandeira é "uma das várias queixas sul-coreanas sobre a suposta inabilidade do Japão — ou falta de vontade — de assumir a responsabilidade por transgressões coloniais", explica a pesquisadora Ellen Swicord, especialista em Coreia.

O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul descreveu a bandeira como símbolo do "imperialismo e militarismo" japoneses.

Enquanto isso, um comitê parlamentar de esportes declarou que era "semelhante a um símbolo do demônio para asiáticos e coreanos, assim como a suástica é um símbolo dos nazistas que lembra os europeus da invasão do terror".

Por que não há protesto na China?

Levando em conta o histórico de invasões japonesas, a reação da China à bandeira do sol nascente nas Olimpíadas poderia ser semelhante à da Coreia do Sul.

Depois que os militares japoneses tomaram a cidade chinesa de Nanquim em 1937, suas tropas deram início a uma campanha de assassinatos, estupros e saques no que se tornou um dos piores massacres da guerra.

Segundo estimativas chinesas, aproximadamente 300 mil pessoas foram mortas, sendo muitas mulheres e crianças, e cerca de 20 mil mulheres foram violentadas.

No entanto, há poucos protestos da China em relação à bandeira.

A razão é simplesmente política, explica o professor David Arase, da Universidade Johns Hopkins em Nanquim, na China.

A imprensa chinesa é controlada pelo Estado, e Pequim está trabalhando atualmente para melhorar sua relação com Tóquio. De fato, o presidente chinês, Xi Jinping, está planejando visitar o Japão na primavera para conhecer o novo imperador japonês.

"Isso significa que a China não faz disso um grande problema e, portanto, as pessoas não estão sendo estimuladas a demonstrar qualquer indignação em relação a essa bandeira", diz Arase.

É comparável à suástica?

Há argumentos contra e a favor.

A bandeira do sol nascente é usada como um símbolo nacional tradicional do Japão há séculos e aparece em propagandas e produtos comerciais.

Na Alemanha, a suástica só foi usada quando os nazistas estavam no poder — e atualmente é proibida no país, sendo usada apenas por grupos extremistas.

Direito de imagem EPA
Image caption Sul-coreanos protestam contra a bandeira japonesa do sol nascente

No entanto, mesmo que a bandeira do sol nascente tenha uma história mais antiga, "ninguém no Japão usa a bandeira do sol nascente para qualquer outro propósito que não seja romantizar e reescrever os horríveis abusos de direitos humanos cometidos sob o império japonês", argumenta Koichi Nakano, professor de ciência política na Sophia University, em Tóquio.

Ele indica que uma comparação melhor do que a suástica seria a bandeira dos Estados Confederados nos EUA, que foi usada na guerra civil americana pelos Estados do sul que queriam manter a escravidão.

A bandeira não é proibida no país e continua sendo hasteada pelos Estados do sul, embora os críticos afirmem que se trata de um símbolo da segregação racial — e de suposta defesa da supremacia branca.

Por que o Japão não vai banir a bandeira?

Apesar da pressão da Coreia do Sul, o Japão não fez nenhuma concessão até o momento.

Existe até uma explicação do Ministério das Relações Exteriores japonês, que cita a história da bandeira sem fazer nenhuma referência ao seu papel durante a Segunda Guerra Mundial.

"O design da bandeira do sol nascente é amplamente utilizado em todo o Japão, como nas bandeiras usadas pelos pescadores, em bandeiras comemorativas de nascimentos e em festividades sazonais, além das bandeiras dos navios da Força Marítima de Autodefesa do Japão."

"A alegação de que a bandeira é uma expressão de manifestação política ou um símbolo do militarismo são absolutamente falsas."

Na verdade, até o jornal liberal japonês Asahi Shimbun usa uma versão da bandeira como seu logotipo.

É um movimento político?

A relutância do Japão acontece em um momento em que as relações entre a Coreia do Sul e o Japão estão bastante estremecidas.

Recentemente, uma rixa diplomática sobre a indenização a vítimas de trabalho forçado durante a guerra se transformou em uma disputa comercial entre os dois países.

A recusa do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, em tomar uma atitude é vista por alguns como uma tentativa de agradar a uma parcela ultraconservadora da população.

"O atual governo japonês está deixando o nacionalismo extremo seguir em frente e apoia tacitamente sua expressão", avalia Harrison Kim, professor assistente de história da Universidade do Havaí, nos EUA.

No entanto, a suposta incapacidade para lidar adequadamente com seu passado imperial violento "não é culpa apenas do Japão", diz ele.

Na verdade, isso acontece em parte porque os EUA tentaram garantir Tóquio como aliado durante a Guerra Fria.

"O governo japonês não precisou recorrer a indenizações e reparações para enfrentar adequadamente seu próprio passado", diz Kim.

O resultado, ele argumenta, é que o Japão não implementou um modelo permanente para "preservar a memória e se desculpar por seus crimes imperiais — pelo menos não na legislação, na educação e na cultura".

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

Notícias relacionadas