Coronavírus: obesidade pode ser fator de risco para a covid-19, afirma especialista

Homem obeso medindo circunferência da barriga Direito de imagem Getty Images
Image caption Especialista ressalta que esta pode ser uma oportunidade para muitas pessoas mudarem o estilo de vida e, assim, protegerem a saúde

As primeiras observações relacionadas ao perfil dos infectados pelo novo coronavírus sinalizam que a obesidade pode ser um fator de risco para o agravamento da doença causada por ele, a covid-19, observa o cardiologista e especialista em hipertensão Oscar H. Cingolani.

Em entrevista à BBC News Brasil, o professor da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, lembrou que estudo recente do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos apontou para a relação entre quadros mais graves de covid-19 e a obesidade mórbida.

Nesse sentido, ele destaca o número elevado de casos da doença registrados em Estados americanos como o de Nova Orleans, onde o nível de obesidade é alto.

O médico argentino, que é também diretor do Centro de Hipertensão Arterial e diretor associado da Unidade de Cuidados Críticos Cardíacos do Hospital Johns Hopkins, é autor, com outros especialistas, de artigo publicado nesta sexta-feira (03/04) no períodico científico Journal of the American Medical Association (JAMA) que discute a presença de doenças cardiovasculares e diabetes em um percentual elevado daqueles que desenvolvem quadros mais severos da doença.

A seguir, os principais pontos da entrevista:

BBC News Brasil - O senhor observou relação entre os jovens americanos vítimas do novo coronavírus e a obesidade?

Oscar Cingolani - É uma coisa que está começando a ser estudada. Sabemos, pelos primeiros casos na China e na Itália, que os jovens não eram afetados (pela covid-19) e que os pacientes que tinham diabetes, doenças cardíacas ou idosos eram mais afetados.

Mas, quando começamos a ver os primeiros casos nos Estados Unidos, observamos uma população, em média, um pouco mais jovem que a que foi descrita inicialmente. Estamos observando agora que nossos pacientes são mais obesos.

Existem estudos em animais e em humanos que apontam, em quadros de obesidade, uma maior secreção de citocinas, que são substâncias inflamatórias produzidas por diferentes células do organismo e que modulam as células que defendem o corpo de infecções.

Mas ao mesmo tempo em que estas células defendem o organismo, outras produzem inflamação que acabam prejudicando o corpo humano.

Estamos começando a ver se isto contribui (para agravamento de quadros de covid-19). O que já sabemos é que, em alguns Estados americanos, como Nova Orleans, onde existem muitos obesos, estes estão entre os mais afetados pelo novo coronavírus.

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Image caption Oscar H. Cingolani é diretor do Centro de Hipertensão Arterial e diretor associado da Unidade de Cuidados Críticos Cardíacos do Hospital Johns Hopkins, nos EUA

BBC News Brasil - Por que, como cardiologista e especialista em hipertensão, o senhor passou a se interessar pelo novo coronavírus?

Cingolani - Uma das proteínas que está nas células pelas quais o coronavírus penetraria se chama enzima conversora de angiotensina, ou ACE2.

É uma enzima que muda sua expressão com alguns medicamentos muito comuns para tratar a pressão arterial.

No fim de fevereiro saiu um comentário em uma revista inglesa de Medicina dizendo que, como esses medicamentos usados para tratar o coração e a hipertensão arterial, eles aumentavam os níveis dessa enzima e, por isso, esses pacientes poderiam estar mais expostos à covid-19.

BBC News Brasil - Esses medicamentos para quem tem determinados problemas do coração ou outras doenças atrairiam ao vírus?

Cingolani - Não se trata de atrair o vírus, mas permitir que o vírus se una à célula e entre na célula.

BBC News Brasil - Uma porta de entrada para o vírus no corpo humano?

Cingolani - Exatamente. É aberta uma porta para que o vírus entre no pulmão. Essa teoria esteve baseada, inicialmente, somente em modelos realizados com animais — e gerou uma onda de pânico entre os pacientes e entre os médicos.

Como sou o diretor do Centro de Pesquisa Arterial, comecei a receber e-mails de toda parte nos Estados Unidos e de vários lugares do mundo perguntando se os pacientes deveriam parar de tomar estes remédios.

Agora, na verdade, depois de muitos exames e de muita análise, não sabemos se o uso desses medicamentos é prejudicial, neutro ou, inclusive, benéfico. Porque nos humanos não foram encontrados os mesmos resultados observados nos animais.

Então, todas as sociedades europeias e americanas de cardiologia e de hipertensão arterial recomendam que os que tomam estes fármacos continuem tomando porque eles poderiam, inclusive, chegar a ser protetores.

Essa questão tem sido muito controversa porque, ainda que esta enzima (ACE2) possa ser uma porta de entrada para o vírus, ela também é anti-inflamatória e, por isso, poderia proteger a inflamação que o vírus induz nos pulmões.

BBC News Brasil - Este ACE2 é a porta de entrada do vírus?

Cingolani - Já se sabe que é a porta de entrada, mas, assim que o vírus entra, essa enzima desaparece.

E, com isso, se perde o fator de proteção que normalmente existe. Ou seja, é como uma arma que o vírus usa para entrar (no humano), e o pulmão perde sua capacidade de defesa diante da inflamação.

Mas não é a única enzima, a única porta que o vírus usa para fazer essa entrada. Esperamos que tudo isso fique mais claro em breve.

BBC News Brasil - Na sua visão, por que o hipertenso é alvo do novo coronavírus? Seria por que as pessoas de mais idade tendem a ter pressão mais alta? Ou ainda não está claro?

Cingolani - Ainda não está totalmente claro. Por exemplo, se buscarmos os casos de influenza no ano passado, também existiam muitos hipertensos.

Quando vamos buscando a relação entre idade e pressão arterial, vemos que os mais idosos tendem a ter a pressão arterial mais alta. E os pacientes que têm doenças cardiovasculares e diabetes também têm hipertensão arterial.

Então, é possível que a relação entre a pressão arterial e o vírus seja apenas uma relação casual. Não recomendamos a ninguém que hoje toma remédios para combater a hipertensão suspender seus medicamentos.

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Image caption Especialista afirma que em Estados americanos onde há grande número de obesos, eles costumam estar entre os mais afetados pelo novo coronavírus

BBC News Brasil - Neste caso entra também a obesidade? Uma pessoa com obesidade pode ter outros problemas como diabetes ou hipertensão, não é?

Cingolani - Exatamente. E a obesidade é um dos primeiros fatores que abordamos no tratamento dos hipertensos.

O paciente que é hipertenso e obeso, quando perde peso reduz a pressão arterial. É a principal medida não farmacológica para tratar a hipertensão arterial.

Um estudo recente do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos apontou que a obesidade mórbida é um fator de risco para o covid-19. Achamos que não só a obesidade mórbida pode chegar a ser um fator de risco, mas a obesidade menos mórbida também. Isso está sendo pesquisado.

BBC News Brasil - Que recado o senhor daria para as pessoas que hoje têm problemas com o peso?

Cingolani - Que fiquem tranquilos, porque outras pessoas não obesas também vêm sendo afetadas.

Mas que saibam que têm talvez um pouquinho mais de risco e que tomem medidas de precaução: lavar as mãos, buscar uma distância, como os demais, de pelo menos dois metros das outras pessoas, no que é chamado distanciamento social.

E que, como isso vai durar muitas semanas, que comecem já a controlar a dieta, a fazer exercícios e a perder peso. Acho que o tempo é hoje para mudar o estilo de vida e de hábitos e, assim, reduzir riscos.

BBC News Brasil - De acordo com o mapa que o senhor acompanha e que foi criado pela Johns Hopkins, já existem mais de um milhão de casos positivos do novo coronavírus. Esse mapa reflete uma realidade ou podem existir mais casos?

Cingolani - O mapa é feito com muita prudência, a partir dos casos que a Organização Mundial da Saúde (OMS), o governo da China e os governos dos outros países informam.

Está baseado nos testes que vão sendo feitos. Ou seja, se os países fazem poucos testes, não sabemos. É muito possível que os casos sejam muito maiores do que se informe neste mapa ou em qualquer outro mapa sobre a evolução do novo coronavírus.

É a partir dessas informações que são feitas as estimativas. Mas a realidade nos surpreende diariamente, mostrando que existem mais casos — e isso ocorre porque os testes são, cada vez mais, realizados. Aqui nos Estados Unidos achamos que o auge (dos casos) ainda não chegou. Que faltam duas ou três semanas para isso.

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Image caption Estudo recente do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos apontou que a obesidade mórbida é um fator de risco para o covid-19

BBC News Brasil - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a dizer que poderiam ser entre 100 mil e 200 mil mortos. Poderia ser tão dramático?

Cingolani - Nós esperamos que não. Existem projeções que apontam para estes números, mas tudo depende dos efeitos das medidas de segurança.

Até pouco tempo aqui ninguém estava em quarentena. E agora, dos 50 Estados, mais da metade está em quarentena obrigatória. E isso vai mudando dinamicamente.

Agora, está sendo revista a recomendação da OMS de que o público em geral não use máscaras. É muito provável que isso mude e passe a ser recomendado que todo mundo use máscaras nos lugares públicos.

BBC News Brasil - No caso das máscaras, poderiam passar a ser exigidas, inclusive, para as pessoas saudáveis?

Cingolani - Exatamente.

BBC News Brasil - Máscaras comuns ou as usadas pelos médicos?

Cingolani - Uma máscara que proteja o espirro, para o público comum, é melhor do que nada. O ideal seria que todos pudéssemos ter uma máscara adequada. O problema é que, se dermos máscaras cirúrgicas para todos, os profissionais da área de saúde não vão ter máscaras.

BBC News Brasil - Em alguns países, como Alemanha e Israel, já começaram a dizer que a máscara pode ajudar e ser usada até por todos....

Cingolani - Os gráficos de evolução dos casos em Cingapura, na China e na Coreia do Sul, onde as populações usaram máscaras, mostram que esses lugares conseguiram achatar a curva (de infecção).

BBC News Brasil - E a implementação da quarentena.

Cingolani - Claro.

BBC News Brasil - Será que esse será o caminho? Porque hoje os países que estão em quarentena já se perguntam como vão sair dessa situação, como as pessoas vão voltar a trabalhar.

Cingolani - Essa pandemia vai durar mais que semanas, pode durar meses.

Temos que pensar que o mundo vai mudar e que realmente em algum momento vamos ter que sair para trabalhar.

Por isso, vai ser necessário um trabalho de inteligência. Primeiro, testes massivos (para diagnóstico) nos que tenham sintomas e separar os que têm sintomas dos que não têm. Depois, registrar aqueles que tiveram a infecção e desenvolveram anticorpos. Estes serão os primeiros a poder serem reintegrados ao trabalho (fora de casa).

E aqueles que não têm sintomas, mas precisam estar protegidos, é possível que tenham que usar máscaras.

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Image caption Médico afirma que pandemia do novo coronavírus deve durar meses

BBC News Brasil - Quando voltaríamos a uma vida normal, com ou sem máscaras? É possível fazer uma previsão?

Cingolani - Vou dizer o que disse o doutor Fauci (Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA): esse tempo não será colocado pelos políticos e nem pelos cientistas, mas pelo próprio vírus.

Agora temos que ficar de olho nos países que começaram a desacelerar a alta de casos. A Itália, apesar de ter um número alto, começou a ter menos casos diários. E a China, que reduziu o ritmo de casos.

Mas é preciso ver se a infecção não voltará (naqueles que já ficaram doentes). Isso vai nos indicar o futuro do novo coronavírus. Eles, chineses e italianos, estão um mês na nossa frente (em relação aos Estados Unidos e outros países que passaram a ter mais casos da doença). Se eles continuarem a ter menos casos, então em dois ou três meses poderemos voltar à vida normal.

BBC News Brasil - Além de diabetes, da hipertensão, obesidade e idade, o que mais se está estudando que possa ser fator de risco para a covid-19?

Cingolani - Neste século, é a primeira vez que tantas especialidades (da Medicina) se reúnem com o mesmo propósito (pesquisar o novo coronavírus e tentar achar como combatê-lo).

Eu faço parte de um grupo de 12 ou 13 pessoas no qual somos cardiologistas, infectologistas, imunologistas, reumatologistas, epidemiologistas, pneumologistas.

Todos juntos, tentando descobrir os mecanismos de ação deste vírus e por que ele tem ligação com cada uma destas especialidades.

BBC News Brasil - Não seria somente uma gripe, um resfriado, mas algo mais complexo.

Cingolani - Ele ataca o pulmão, principalmente. E esse é o principal problema.

Mas os mecanismos pelos quais produz toda essa inflamação e, por fim, a morte, envolvem caminhos moleculares e fisiológicos que têm relação com a imunidade, com a infecção, com o coração, com a reumatologia e outras.

BBC News Brasil - E nos últimos tempos surgiram casos não só entre idosos.

Cingolani - Sim. Já sabemos que é baixo o índice de covid-19 entre os menores de 19 anos. Entre os falecidos há pessoas de 30, de 40 anos, e a mortalidade sobe muito depois dos 60 anos.

Estamos analisando a defesa imunológica que as crianças têm. Outra coisa muito nova que também está sendo investigada é o índice de melatonina, que nos faz dormir.

As crianças e os jovens têm concentração muito alta de melatonina. Quando a gente envelhece, os níveis de melatonina vão diminuindo. No passado, a melatonina já mostrou ser antioxidante e anti-inflamatório, — mas tudo isto deve ser pesquisado.

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