'Se puder, não vá ao médico': negócio da medicina faz todos se acharem doentes em potencial, diz médico-autor

  • Irene Hernández Velasco
  • Da BBC News Mundo
Sitges-Serra

Crédito, Antonio Sitges-Serra

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O médico Sitges-Serra é autor do livro 'Se puder, não vá ao médico'

Antonio Sitges-Serra escreveu um livro revelador, mas que também é extremamente polêmico. E com um título bastante provocante: Se puder, não vá ao médico.

Sitges-Serra é professor catedrático de Cirurgia na Universidade Autônoma de Barcelona e foi chefe do departamento de Cirurgia do Hospital del Mar. Ele já publicou mais de 400 artigos científicos.

Em seu polêmico livro, ele denuncia como, na sociedade atual — que venera a ciência e sente pânico com a morte e com o envelhecimento —, a medicina se transformou em um negócio gigantesco, mas quase sempre às custas do paciente.

Confira abaixo a entrevista do médico para a BBC News Mundo, serviço da BBC em língua espanhola.

BBC: Por que devemos evitar ir ao médico?

Sitges-Serra: Se a pessoa está bem e se pode evitar, não há por que ir ao médico.

O conceito de que o médico precisa vigiar nossa saúde é um tanto arcaico. As próprias pessoas deveriam se cuidar, procurando um médico apenas quando houver necessidade.

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A mensagem básica do livro busca tranquilizar contra a hipocondria social, contra o abuso da medicina e a favor de um processo de autocura, com responsabilização pessoal e contra o excesso no uso de medicamentos.

BBC: Falando em hipocondria social, em seu livro, o senhor revela que de 15% a 20% dos pacientes que procuram médicos fazem isso sem necessidade. De onde surge essa hipocondria que nos afeta?

Sitges-Serra: Muitos fatores explicam isso. Para começar, a saúde se transformou em obsessão para muitos cidadãos.

Em segundo lugar, os meios de comunicação insistem muito que as pessoas devem se cuidar e perceber logo sinais de problemas de saúde. No entanto, isso contribui para gerar essa hipocondria social.

Talvez a ciência também abuse de seu poder, fazendo todos acreditarem que, mesmo estando saudáveis, são pacientes em potencial.

A isso se soma a nossa própria angústia, já que nossa sociedade é bastante ansiosa.

Por fim, acredita-se que a saúde é a coisa mais importante, e que basta ir ao médico ou usar o sistema de saúde com frequência para se viver muito mais tempo, o que é bastante duvidoso.

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Existe uma crença de que a saúde é a coisa mais importante e que ver o médico ou usar o sistema de saúde com frequência leva a uma vida mais longa

BBC: Existe o risco de uma pessoa saudável ir ao médico e este acabar encontrando algum problema?

Sitges-Serra: Claro. É o que chamamos de excesso de diagnóstico.

A pessoa vai ao médico e este pede alguns exames. Se não está convencido sobre o que vê, o médico pede novos exames.

Isso pode levar a uma espiral que pode acabar em um procedimento ou uso de medicamentos desnecessários, que podem provocar efeitos adversos.

BBC: E por que existe esse excesso?

Sitges-Serra: O médico não quer cometer erros e vai fazer tudo que for possível para chegar a um diagnóstico.

O paciente, se estiver mal, vai querer um tratamento. Mas se a pessoa abusa das visitas médicas, ela corre o risco de excesso de medicamentos e excesso de diagnóstico.

BBC: E esse excesso de diagnóstico não acontece também por motivos econômicos? Por uma certa mercantilização da medicina? Lembro de um médico italiano que foi preso há uns anos por realizar operações desnecessárias só para cobrar por elas.

Sitges-Serra: Claro. Evidentemente na medicina privada o risco de que um paciente tenha excesso de medicamentos, tratamentos e cirurgias é maior, porque o que está em jogo são os honorários médicos, e pode haver a intenção de exagerar nas cirurgias.

Existe um estudo que diz que parentes de médicos se operam muito menos do que pessoas que não são parentes.

BBC: Um dado muito revelador. E o que acontece na saúde pública?

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'Na medicina privada, o risco de que um paciente tenha excesso de medicamentos, tratamentoa e cirurgias é maior, porque o que está em jogo são os honorários médicos'

Sitges-Serra: Um pouco a mesma coisa, mas os médicos do sistema público não se veem tão pressionados por motivos mercantis, mas há outros motivos: os acadêmicos, os de prestígio, que seu centro oferece o melhor que existe, a conivência com a indústria.

Tanto a mercantilização como certas formas de promoção colocam o paciente em risco de receber exames e cirurgias das quais não necessita.

BBC: Nos transformamos em cobaias dos laboratórios farmacêuticos?

Sitges-Serra: Eu não diria isso em termos tão agressivos. A indústria farmacêutica e a indústria de dispositivos de saúde foram fundamentais para o desenvolvimento da medicina, que hoje dispõe de um arsenal terapêutico de diagnóstico e de monitoramento impressionante.

Mas, naturalmente, a indústria farmacêutica tem interesses mercantis, porque são empresas cujo último fim é fazer negócios, incrementar seu valor em bolsa e melhorar a cada ano os seus resultados econômicos.

É um pouco paradoxal, é como se a indústria da saúde fosse uma indústria de televisões ou de automóveis.

Além disso, se estamos mais sãos e se vivemos mais anos, até certo ponto deveríamos receber menos tratamento do que recebemos.

Mas a indústria farmacêutica, como qualquer outra indústria, quer seguir crescendo. E nisso, ela emprega práticas desonestas. E isso precisa ser denunciado.

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A indústria farmacêutica, como qualquer outra, quer seguir crescendo

BBC: A que práticas desonestas a indústria farmacêutica recorre?

Sitges-Serra: A práticas de subornos, a publicar coisas incorretas, a financiar de maneira exagerada a formação continuada, uma formação enviesada em favor da indústria...

Tudo isso é devido ao fato de que a indústria médica em geral é uma indústria capitalista como qualquer outra. Os acionistas pressionam, é necessário aumentar vendas... E então entramos no excesso de medicação e na promoção de doenças.

Começam, por exemplo, a aparecer em muitos jornais notícias falando não de impotência, mas sim, de disfunção sexual, que tem um espectro muito mais amplo do que a impotência, e isso pode ajudar a aumentar as vendas de Viagra.

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A intoxicação por efeitos adversos de medicamentos representa algo entre a terceira e quinta maior causa de internações urgentes nos EUA

BBC: Tudo isso pode ser também fruto do nosso endeusamento da tecnologia e da ciência? Qualquer coisa que vier com a etiqueta "ciência" nós costumamos comprar sem duvidar...

Sitges-Serra: Claro. Eu penso que a população em geral, os cidadãos, têm um conceito de ciência muito dogmático.

É paradoxal: nós rechaçamos os dogmas religiosos para aceitar outros. Especialmente quando a ciência ainda é muito controversa. Os que hoje defendem a ciência podem não defendê-la amanhã.

A natureza da ciência é ser crítica, revisar constantemente o que se diz.

É claro, há conhecimentos adquiridos, sólidos, que ninguém discute.

Mas é preciso cuidado em ter fé na ciência porque isso nos leva a deturpar o seu sentido.

A ciência se equivoca muitas vezes ou, pelo menos dentro dela, há opiniões muito diversas.

BBC: Nós vimos isso por exemplo com a pandemia de coronavírus...

Sitges-Serra: É isso. Quase cada país, cada epidemiologista, cada regime sanitário atuou de forma diferente.

As evidências científicas são, por natureza, questionáveis; em alguns aspectos as coisas estão mais claras, mas em muitos outros, não.

Há quem defenda o uso de máscara e quem não o faça, quem defenda o confinamento e quem não o faça, quem defenda uma coisa para os doentes e outra para os sãos.

Eu acredito que a cidadania neste momento deveria ser um pouco mais cética a respeito do que representa a ciência, porque esta pandemia demonstrou que ele é muito insuficiente.

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Na ciência, há sempre opiniões diversas. Por exemplo, sobre o uso de máscaras contra o coronavírus

BBC: Vivemos também em um período dominado pelo hedonismo, com o medo de doenças e também da morte. Há até médicos que asseguram que vamos vencer a morte, que em alguns anos seremos imortais. Tudo isso está relacionado com o conceito capitalista da saúde?

Sitges-Serra: É claro. O Google, por exemplo, está destinando centenas de milhões de dólares para lutar contra o envelhecimento e buscando a chave para a vida eterna.

Há grandes corporações que já congelam pessoas muito doentes com a promessa de descongelá-las quando a ciência e a tecnologia o permitirem.

Há todo um movimento transhumanista, que está fortemente apoiado na indústria e que pretende convencer o público de que eliminar a morte, ou retardá-la por muitos anos, está ao nosso alcance.

BBC: E o senhor acredita que isso seja possível?

Sitges-Serra: Eu acho que é uma grande mentira e que, além disso, me parece que essa ideia é pouco honrada em respeito às gerações que virão.

Deveria haver uma certa solidariedade intergeracional, de se dar lugar às pessoas das gerações seguintes.

O mundo não é nosso, apenas tomando ele emprestado e teremos que passá-lo adiante. Ninguém pode se apropriar dele para sempre.

Tirando questões estritamente ideológicas ou tecnológicas, a questão de viver para sempre ou por muito mais anos tem um aspecto filosófico e ético que me faz ser muito crítico.

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'O mundo não é nosso, o mundo nós temos de empréstimo e precisamos passa-lo adiante'

BBC: O que hoje está acontecendo é que doenças incuráveis estão se tornando males crônicos, o que faz com que as pessoas que sofrem dessas doenças tenham, em muitos casos, uma qualidade horrível de vida, inclusive de agonia...

Sitges-Serra: Sim. Eu sou a favor de prolongar a vida, mas não de prolongar a morte. Porque, como já disse (o filósofo austríaco) Ivan Illich, um dos precursores da crítica cultural da medicina, a medicina gera muitas patologias.

Também cura coisas, mas gera muita gente doente, muitas vezes com doenças crônicas.

Eu acho que seria prudente investir menos na medicina em fases terminais e investir mais na prevenção ou, por exemplo, em outras medidas sociais.

BBC: Imagino que seria necessário analisar a qualidade de vida de algumas dessas pessoas, não?

Sitges-Serra: Sim, a qualidade de vida, as visitas ao médico, os exames complementares, os tratamentos de quimioterapia que muitas vezes não tem nenhuma finalidade terapêutica.

E além de a qualidade de vida de um doente muitas vezes ficar comprometida, o doente está totalmente dependente do sistema de saúde. Tudo isso é enormemente caro, tanto em termos de qualidade de vida do paciente como para os cofres públicos.

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Para Sitges-Serra, é preciso avaliar se vale a pena manter com vida os pacientes com câncer incurável

BBC: Lendo seu livro, descobri que, nos últimos anos, apesar da "hipermedicação" da sociedade, nos países mais desenvolvidos a expectativa de vida não só estagnou como está retrocedendo...

Sitges-Serra: Sim, sim. Há notícias sobre isso na França, Estados Unidos, Espanha, que apontam que deve haver uma estagnação no crescimento da expectativa de vida. De fato, a curva está se achatando há anos.

E existe uma lógica: estamos nos aproximando do que muitos de nós acreditam ser os limites biológicos. Por questões biológicas e de deterioração do próprio organismo, eu acredito que seja desaconselhável tentar alongar demais a vida.

E, por fazer isso, estamos pagando um preço: por exemplo, com o mal de Alzheimer, que é uma doença terrível, já quase com proporções epidêmicas.

O alongamento da vida tem uma outra face: o surgimento de mais cânceres, de mais doenças neurológicas incuráveis e de maior deterioração do sistema cardíaco e vascular.

Se a isso somarmos que a obesidade está se espalhando, que os vícios estão ganhando terreno e que estão reaparecendo doenças relacionadas com mudanças climáticas, há uma lógica para que a esperança de vida não cresça, e inclusive que retroceda.

Crédito, Antonio Sitges-Serra

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Na opinião de Sitges-Serra, estamos assistindo a uma "hipermedicação" da sociedade

BBC: E, doutor, como curamos todos esses problemas?

Sitges-Serra: Um pouco com o empoderamento do enfermo. Será difícil. Hoje, não vemos sinais de que o sistema esteja adotando medidas para que ele próprio mude, apesar de termos avisos vindos de todas as partes.

Eu não descarto que haja uma involução e uma mudança de rota em alguns dos temas fundamentais sobre os quais estamos falando. Mas cada um de nós deve ser consciente de tudo isso.

O paciente que tem câncer pelo menos precisa ver que não pode passar dois anos morrendo pouco a pouco, pelo menos precisa se perguntar em que seu médico realmente está lhe ajudando, ou se estão fazendo testes clínicos às suas custas ou testando um remédio para tentar prolongar a vida por mais um mês, para que o sistema público gaste 50 mil euros a mais com este paciente.

Acho que deve haver maior responsabilização própria e uma certa aceitação da morte natural. Antes, dizíamos de nossos avós que eles morriam de morte natural.

Agora a morte está supermedicada, é muito artificial.

BBC: Como seu livro foi recebido pelos seus colegas médicos?

Sitges-Serra: Talvez as pessoas não escrevam a um autor para dizer que ele lhe fez mal, porque recebi muita correspondência me dizendo que já era hora de alguém colocar o preto no branco nas coisas que muitos de nós pensávamos.

Acho que este livro cristalizou algo que já estava há tempos flutuando no ambiente.

Agora, ele colocou em evidência — e talvez até ofendido — aqueles que acham que a medicina é uma ciência básica. A oncologia e a psiquiatria estão entre os alvos do meu livro e alguns profissionais devem ter se sentido atacados.

Por exemplo, eu faço uma crítica muito dura à "psiquiatrização" social que transforma em doenças mentais alguns estados fisiológicos, com abuso de medicamentos. Hoje em dia, cerca de 15% dos homens e quase 30% das mulheres recebe algum tipo de remédio antipsicótico.

Em geral, meu livro foi bem recebido e acho que o público vê essa mensagem como libertadora. Além disso, está documentado, cheio de números, de fatos, de dados. E pode-se criticar as opiniões, mas os fatos e dados estão ali.

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