Sykes-Picot: o acordo secreto que está na raiz de conflitos no Oriente Médio

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Image caption O mapa de 1916 , com as assinaturas dos diplomatas Mark Sykes e Francois Georges-Picot

Ao completar cem anos (em 2016) em meio a críticas generalizadas na região, o legado do acordo secreto de Sykes-Picot de 1916 continua relevante. O tratado, firmado durante a Primeira Guerra Mundial e já com a expectativa de vitória aliada em mente, permitiu a partilha do Oriente Médio entre as duas principais potências da época, a França e o então Império Britânico.

Na verdade, praticamente nenhuma das atuais fronteiras do Oriente Médio foi delineada no documento concluído em 16 de maio de 1916 pelos diplomatas Mark Sykes, britânico, e François Georges-Picot, francês.

Um posto de fronteira entre Síria e Iraque destruído pelo Estado Islâmico, por exemplo, como parte de sua guerra sangrenta, ficava provavelmente a centenas de quilômetros da famosa "linha na areia" desenhada por Sykes e Picot. Ela corria desde a fronteira persa no nordeste, descendo entre Mosul e Kirkuk e pelo deserto rumo ao Mediterrâneo, tomando depois a direção norte até contornar a extremidade da Palestina.

As fronteiras atuais da região surgiram, portanto, de um longo e complexo processo de tratados, conferências, acordos e conflitos que vieram após a queda do Império Otomano e o fim da Primeira Guerra Mundial. Mas o espírito do tratado de Sykes-Picot, dominado pelos interesses e as ambições implacáveis de duas potências coloniais, prevaleceram durante este processo.

No caso dos palestinos, passaram do domínio turco otomano para o domínio britânico, que durou de 1920 até 1948, quando parte dos chamados territórios palestinos foram cedidos para a criação do Estado de Israel, em um processo que, se por um lado fazia Justiça ao povo judeu, por outro, levou à expulsão de milhares de palestinos de suas casas e gerou uma série de guerras, iniciadas por países árabes vizinhos e vencidas por Israel, com apoio dos Estados Unidos. A novas fronteiras de Israel foram determinadas pela apropriação de mais território, ao fim dessas guerras.

O acordo de Sykes-Picot, portanto, traiu promessas de liberdade feitas aos árabes pelos britânicos em troca de seu apoio na luta contra o Império Otomano, que dominavam o chamado mundo árabe.

Também conflitou com a visão do presidente dos EUA Woodrow Wilson, que pregava a autodeterminação de povos subjugados pelo Império Otomano.

A ideia inicial era que israelenses e palestinos tivessem o direito a um Estado, segundo o princípio da autodeterminação dos povos. Os palestinos, no entanto, perderam território paulatinamente e não contam sequer com um território contíguo.

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Image caption O Estado Islâmico divulgou vídeo em junho de 2014 de militantes demolindo um posto de fronteira entre Síria e Iraque

O conselheiro de política externados Estados Unidos, Edward House, foi posteriormente informado sobre o acordo pelo secretário do exterior do Reino Unido, Arthur Balfour, que 18 meses depois daria o nome a uma declaração que causaria um impacto ainda maior na região.

House escreveu: "Tudo é ruim e eu avisei Balfour sobre isso. Estão gerando um criadouro para guerras no futuro." Ele se referia à Declaração de Balfour, uma carta escrita pelo secretário do exterior britânico a um líder da comunidade judaica no Reino Unido, comunicando o apoio britânico a criação de um Estado judeu na Palestina, no caso de derrota do Império Otomano e vitória na Primeira Guerra Mundial.

Xadrez complexo

Por ter inaugurado aquela era, e consolidado o conceito de acertos coloniais clandestinos, Sykes-Picot se tornou um marco de um período em que forças externas impunham sua vontade, traçavam fronteiras e trocavam governos, em um jogo de dividir e conquistar com os "nativos" e em um xadrez complexo com os rivais coloniais.

A herança para o Oriente Médio atual é uma variedade de Estados cujos limites foram traçados com pouca atenção a características étnicas, tribais, religiosas ou linguísticas.

Formados quase sempre por um apanhado de minorias étnicas, esses países sofrem uma tendência natural à desintegração, a menos que sejam unificados pela mão de ferro de um líder ou por um governo central poderoso.

A ironia é que as duas forças mais potentes a desafiar o legado de Sykes-Picot são inimigas mortais: os militantes do EI e os curdos do norte do Iraque e da Síria.

Nos dois países, os curdos, ao combater o EI, mostraram ser os aliados mais efetivos da coalizão ocidental liderada pelos EUA, embora os dois lados dividam a determinação em redesenhar o mapa da região.

"Não sou apenas eu dizendo, o fato é que o Sykes-Picot falhou, está acabado", afirmou à BBC o presidente da região iraquiana autônoma do Curdistão, Massoud Barzani.

"Passamos por experiências amargas desde a formação do Estado iraquiano depois da Primeira Guerra Mundial. Tentamos preservar a unidade do Iraque, mas não somos responsáveis por sua fragmentação - são os outros que dividiram o país", afirma.

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Image caption O mapa foi traçado com uma linha da Pérsia ao rio Jordão

A luta silenciosa envolve a busca por fórmulas de convivência de comunidades dentro de fronteiras traçadas pela história do século 20, ou a definição de novos limites para acomodar esses povos.

"Sykes-Picot está acabado, isso é certo, mas tudo está no ar agora, e ainda demorará para o resultado disso ficar claro", afirma o líder druzo libanês Walid Jumblatt.

*Este artigo foi originalmente publicado em 18 de maio de 2016 e atualizado em 6 de dezembro para incluir referências mais claras a como o tratado afetou os chamados territórios palestinos.