Como o comunismo usou o neon para afastar os fantasmas do stalinismo na Polônia

Museu do Neon Direito de imagem Neon Muzeum
Image caption A 'neonização' fez Varsóvia lembrar Nova Iorque e Las Vegas

Na Polônia comunista do final dos anos 50, o colorido das luzes de neon - emblema do capitalismo no Ocidente - foi uma das armas usadas pelo regime para apagar a memória do negro período stalinista e acalmar uma população ansiosa por mudanças.

A história, pouco documentada, está conservada entre as paredes de tijolos vermelhos de uma antiga fábrica de biscoitos convertida no Museu do Neon por um casal de britânicos.

"Houve uma 'campanha de neonização' bem planejada", explicou à BBC Brasil o artista gráfico David Hill, que criou o espaço há dez anos junto com sua parceira, Ilona Karwinska, fotógrafa de origem polaca.

Hill, que pesquisou o tema durante muitos anos, afirma que a campanha foi confiada a arquitetos e artistas poloneses renomados, que tinham a missão de redefinir a paisagem urbana e a imagem visual do regime comunista.

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Image caption Os neons tinham alta qualidade técnica e gráfica

"As autoridades acreditavam que, com a banalização dos painéis de neon, podiam levar um pouco da magia ocidental às cidades polonesas e satisfazer, de uma certa forma, o desejo de modernização".

Para o governo, os painéis, inteiramente concebidos e produzidos no país, funcionavam como mais uma exibição da força e do talento dos trabalhadores da República Popular da Polônia.

Hill destaca a "alta qualidade do trabalho, tanto técnico como gráfico".

"Os traços daqueles painéis da Guerra Fria são modernos até para nossa época. Para mim, são pura arte eletrográfica. Mas há uma relação fascinante entre a arte soviética e o uso que o regime fazia dela", afirma.

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Image caption Havia cerca de mil painéis em uma das avenidas da cidade

'Las Vegas socialista'

Em poucos anos, a campanha de "neonização" daria a Varsóvia uma imagem noturna comparável a de grandes centros capitalistas do ocidente, como Nova York ou Las Vegas.

Entre os anos 60 e 70, a Avenida Pulawska, uma das principais artérias no sul da capital polonesa, tinha mais de mil painéis coloridos brilhando entre os blocos de concreto soviéticos de 14,5 quilômetros de extensão.

Na cidade de Poznan, a sede da Orquestra Filarmônica ganhou um painel animado de 25 metros de extensão no qual dezenas de pássaros coloridos se alternavam cantando sobre uma nota musical.

Diferentemente do Ocidente, os neons poloneses não estavam associados a marcas comerciais, mas a símbolos comunistas: um elefante rosa para a loteria nacional; a sereia, símbolo de Varsóvia, coroando um livro na entrada das bibliotecas municipais; uma vaca na porta dos centros de distribuição de leite.

"O neon era controlado pelo governo, era publicidade socialista cobrindo todas as ruas das principais cidades", observa Hill.

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Image caption O museu abriga cerca de 200 painéis de neon da era pós stalinista

A abundância e variedade das placas luminosas contrastavam com os poucos produtos disponíveis nos estabelecimentos que anunciavam.

Ele cita uma pequena loja de flores "controlada por duas senhoras velhinhas que deveria ter umas oitenta plantas à venda, nada mais, e quase nenhum cliente".

"Mas a fachada da floricultura era inteiramente coberta de flores de neon coloridas. Quer dizer: tinha mais investimento no neon do que na loja em si", revela.

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Image caption A sereia, símbolo de Varsóvia, coroando um livro ficava na entrada das bibliotecas municipais

Peças de museu

Os painéis de neon perderam espaço com a decadência do regime comunista durante os anos 80, e com a abertura política.

"Houve um desejo de modernização e de romper com tudo o que ligava o país ao passado comunista. Os painéis de neon eram um símbolo forte desse período. Então pouca gente tinha interesse ou dinheiro para restaurar e manter esses painéis, o que é caro e complicado. A política os criou e a política os destruiu", afirma Hill.

Foi o desejo de conservar esse aspecto da história polonesa que o levou a abrir o Museu do Neon, que reúne hoje cerca de 200 painéis, todos do período da Guerra Fria, alguns deles acompanhados de fotos de época e de reproduções dos projetos originais.

As peças da coleção foram todas doadas por proprietários que queriam se desfazer da herança comunista.