País 'penetra' celebra sua controversa estreia nos Jogos Olímpicos

Delegação de Kosovo Direito de imagem Getty Images
Image caption Kosovo conseguiu o endosso do COI e fez sua estreia nos Jogos na abertura da Rio 2016

Mesmo para um evento acostumado às pressões geopolíticas e que já enfrentou boicotes e uma Guerra Fria, a situação do Kosovo é um caso à parte.

Desde que decretou sua independência da Sérvia em 2008, após uma guerra civil, o país ainda não teve sua soberania reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por grande parte da comunidade internacional.

Ainda assim, Kosovo conseguiu o endosso por parte do Comitê Olímpico Internacional (COI) e, na cerimônia de abertura da Rio 2016, teve a honra de fazer sua estreia nos Jogos.

A Sérvia, um dos países que se recusam a aceitar a secessão kosovar, ao lado da Rússia, protestou de forma veemente contra a decisão do COI e chegou a ameaçar um boicote à competição.

“Não aceitamos o reconhecimento de um ato unilateral de secessão”, disse recentemente o ministro das Relações Exteriores sérvio, Ivica Dacic.

No fim das contas, a Sérvia veio para o Rio, com sua delegação de 132 atletas. Um número pelo menos 15 vezes maior que os nove kosovares.

Ainda assim, com exceção do atleta sérvio e astro do tênis Novak Djokovic, o 'penetra' Kossovo recebeu muito mais atenção da mídia de plantão na Zona Internacional da Vila dos Atletas.

Nadador 'pop star'

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Image caption O nadador Zhaveli estranhou o assédio na Vila Internacional

O nadador Lum Zhaveli, por exemplo, parecia atordoado pela quantidade de abordagens que recebeu durante um simples passeio em busca de café. “Estou me sentindo um pop star aqui. Um pop star que nunca ganhou nada na vida”, brincou o nadador, wue disputa os 50m livre e sequer chegou à final de sua primeira competição, o Mundial de Natação do ano passado, em Kazan (Rússia).

Nem todos os kosovares, porém, estão a passeio no Rio. A judoca Majlinda Kelmendi, bicampeã mundial e europeia na categoria até 52kg, não só foi a porta-bandeira do Kosovo na cerimônia de abertura como ganhou a medalha de ouro na estreia de seu país nos Jogos.

“É uma responsabilidade imensa para mim e espero marcar essa participação inédita com um resultado que orgulhe meus compatriotas”, disse Kelmendi na abertura dos Jogos.

“Mas, acima de tudo, queremos mostrar que o Kosovo não é apenas um país com uma história de guerras, mas uma nação em que as pessoas preferem batalhar no esporte”.

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Image caption Majlinda Kelmendi ganhou a medalha de ouro no judô

Política

O COI reconheceu o Kosovo em dezembro de 2014, mas nem por isso os esportistas do país tiveram vida fácil. No Mundial de Judô do ano passado, na Rússia, Kelmendi por pouco não pôde competir, por conta do fato de Moscou não reconhecer o Kosovo independente.

Nos Jogos de Londres, em 2012, Kelmendi teve que competir pela Albânia, país do qual muitos kosovares descendem etnicamente.

“A gente não pode se incomodar demais com a política. Eu estou sem acreditar que vou participar de uma Olimpíada e acho que essa entrada do Kosovo na família olímpica pode inspirar uma geração de atletas no meu país”, acredita Zhaveli.

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Image caption Independência do Kosovo não é reconhecida por quase metade dos membros da ONU

Com apenas 1,8 milhão de habitantes, o Kosovo espera que as Olimpíadas ajudem a trazer mais reconhecimento. O país também tem chancela da Fifa, a entidade máxima do futebol, para participar de torneios internacionais, incluindo a Copa do Mundo.

“Bilhões de pessoas verão que somos iguais aos outros países do mundo. Que bom que vivi para ver esse momento”, conta Driton Kuka, treinador da judoca.

Através dela, ele realizará seu próprio sonho olímpico: em 1992, ele estava classificado para participar dos Jogos Olímpicos de Barcelona, mas a Sérvia, a quem o Kosovo então pertencia, foi suspensa pelo COI por causa da Guerra da Iugoslávia.

“Mas meu sonho finalmente está sendo realizado. Como técnico, é também uma honra estar aqui no Rio”.

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