Por que milhares de professores não voltaram às escolas após as férias na Turquia

Crianças a caminho da escola
Image caption Cerca de 18 milhões de estudantes na Turquia voltaram para a sala de aula pela primeira vez desde o golpe falhou em julho

Escolas na Turquia reabriram suas portas pela primeira vez desde a fracassada tentativa de golpe contra o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan, em julho.

Cerca de 18 milhões de alunos voltaram às salas de aula nesta semana.

Após a revolta, dezenas de milhares de juízes, funcionários públicos, professores e soldados foram suspensos, demitidos ou presos. No sistema educacional, as consequências das punições ficaram evidentes esta semana, com o fim das férias de verão na Turquia.

Huseyin Ozev, presidente do sindicato dos professores Istambul, disse à agência de notícias AFP que teme que o "caos" se instale no sistema por causa da falta de professores. A entidade assegura que 1 milhão de estudantes foram afetados pela falta de professores em todo o país.

O governo turco, por sua vez, tenta minimizar o impacto das punições contra professores.

Direito de imagem Reuters
Image caption Houve vários protestos na Turquia contra a suspensão de dezenas de milhares de professores

O vice-primeiro-ministro turco, Nurettin Canikli, informou na segunda-feira que 27.715 professores foram demitidos e outros 9.465 estão suspensos e sob investigação.

As demissões e suspensões são parte da reação do governo contra supostos seguidores do teólogo turco Fethullah Gülen, acusado pelo presidente Erdogan de ser mentor do golpe.

'Limpeza'

Após a tentativa de golpe, Erdogan prometeu "limpar todas as instituições do Estado". O presidente turco tem encarado a reforma do sistema de ensino, em especial, como "missão pessoal".

Era sabido que o movimento liderado por Gülen, que nega as acusações de envolvimento com a tentativa de golpe, tem estreitas ligações com o sistema de ensino e conta com amplo apoio e endosso de professores, diretores e reitores de escolas e universidades do país.

Cerca de 75% dos professores demitidos são acusados ​​de serem seguidores de Gülen. Mais de 1 mil escolas ligadas ao movimento foram fechadas e seus alunos absorvidos por outras instituições de ensino.

Direito de imagem Reuters
Image caption 75 % dos professores suspensos na Turquia são acusados ​​de ter ligações com o teólogo Fethullah Gulen (foto), que nega ter envolvimento na tentativa de golpe

A reação do presidente turco não se limitou aos supostos seguidores de Gülen. Outros 11,3 mil professores são acusados ​​de ter ligações com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK ), banido do sistema partidário por ser, de acordo com a Turquia, uma organização terrorista. Esses professores foram suspensas no início deste mês .

Segundo o governo turco, as punições afetaram menos de 2% da mão de obra no sistema educacional, que conta com 850 mil professores.

Mas, desde o início deste ano, cerca de 15,2 mil funcionários do Ministério da Educação ficaram sem emprego e 21 mil professores de escolas privadas perderam suas licenças.

Panfleto, filme e minuto de silêncio

Conforme a agência de notícias AFP, ao chegarem nas escolas, estudantes receberam livros escolares acompanhados de panfletos do Ministério da Educação nos quais se comemorava o "triunfo da democracia em 15 de julho e em memória dos mártires".

Direito de imagem AP
Image caption O presidente Recep Tayyip Erdogan encara como "missão pessoal" a reforma do sistema educacional na Turquia

O Ministério da Educação informou que foram exibidos dois vídeos sobre a tentativa de golpe aos estudantes.

Neles, havia imagens de Erdogan lendo a letra do hino nacional e cenas da noite do golpe, como de tanques e aviões na capital, Ancara.

Alunos também fizeram um minuto de silêncio nos pátios escolares para as vítimas do levante, que resultou em 270 mortes.

Líderes do sindicato dos professores acusam o governo de usar leis especiais para situações de emergência para "livrar-se dos seus opositores" em instituições públicas.

O governo insiste que tomou as medidas necessárias uma vez que o país enfrenta uma situação atípica. Assegura ainda que a falta de professores será resolvida em outubro, quando devem ser recrutados 20 mil novos profissionais.