Como o 'senhor da guerra' colombiana se transformou em um Nobel da Paz

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, durante discurso na ONU Direito de imagem Getty Images
Image caption Juan Manuel Santos comandou as negociações de paz com as Farc, que duraram quatro anos

"Continuarei buscando a paz até o último minuto do meu mandato", disse o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, no último domingo, quando os eleitores rejeitaram nas urnas o histórico acordo firmado com as Farc poucos dias antes numa emotiva cerimônia em que ele trocou um aperto de mãos com o líder rebelde, Rodrigo Londoño Echeverri, o Timochenko.

O acordo de paz tinha como objetivo pôr fim a um conflito que deixou cerca de 260 mil pessoas mortas e deslocou milhões no país sul-americano nas últimas cinco décadas. Mas que, para os críticos e 50,2% dos colombianos que foram às urnas, fazia concessões demais aos guerrilheiros.

Os esforços de Santos, porém, lhe renderam o Prêmio Nobel da Paz de 2016.

E o curioso disso tudo é que o presidente nem sempre foi conhecido pelo tom otimista e conciliatório que o levaram até a honraria.

Guerra e paz

Há menos de uma década, quando ocupava o cargo de ministro da Defesa, Santos autorizou o controverso bombardeio a um reduto das Farc no Equador. Sem avisar ao país vizinho.

E, ironicamente, a ascensão dele ao poder está ligada à sua associação com o predecessor, Alvaro Uribe, que comandou a campanha vitoriosa de rejeição ao acordo com a guerrilha no referendo.

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Image caption Santos (no centro) foi ministro da Defesa no governo de Alvaro Uribe (à direita)

Santos foi nomeado para a pasta da Defesa em 2006 por Uribe, que tinha acabado de ser reeleito com uma plataforma de tolerância zero com as Farc - um posto estratégico, dado o histórico de décadas de guerra no país.

Sob seu comando, a Colômbia realizou uma série de operações militares contra o grupo.

A mais famosa delas foi o a invasão do cativeiro da ex-senadora e candidata a presidente Ingrid Betancourt, em julho de 2008, após ela ficar seis anos em poder da guerrilha - três cidadãos americanos também foram libertados.

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Image caption O resgate da ex-senadora Ingrid Betancourt, em 2008, alavancou a popularidade do então ministro Santos

Quatro meses antes, o ataque às Farc no Equador havia resultado na morte do então líder do grupo, Raul Reyes.

Guinada

O bombardeio, porém, teve como efeito colateral uma crise diplomática: o governo equatoriano acusou Bogotá formalmente de violar sua soberania.

A administração de Uribe enfrentou ainda um escândalo: as denúncias de que forças militares estariam executando civis e os contabilizando como guerrilheiros como forma de "engrossar" as estatísticas do combate às Farc.

Mas se causou danos à popularidade do então presidente, essas crises não afetaram Santos, que em 2009 desligou-se do ministério para concorrer ao cargo máximo.

Acabou eleito em março do ano seguinte, recebendo uma das maiores votações da história colombiana. E com uma plataforma que tinha muito em comum com a que elegera Uribe, em especial quando o assunto era a área de segurança.

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Image caption As relações entre Santos e Uribe azedaram por causa da política conciliatória com as Farc

Mas Santos promoveu uma guinada logo nos primeiros meses do mandato.

Começou normalizando as relações diplomáticas com o regime de Hugo Chávez na Venezuela, acusado por Uribe de compactuar com as Farc. O então novo presidente também levou à Justiça integrantes do governo de seu antecessor, alvos de denúncias de abusos de poder.

E em 2012 Santos confirmou os rumores de que seu governo estava realizando negociações secretas de paz com as Farc em Cuba, com a intermediação de Raúl Castro.

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Image caption Santos (à esquerda) e Timochenko assinaram acordo para pôr fim a conflito

O anúncio foi o suficiente para pôr uma pá de cal nas relações com Uribe, que se transformou no principal líder de oposição ao governo.

Ao ponto dele apoiar o rival de Santos nas eleições de 2014 - o presidente acabou reeleito no segundo turno, com 50,95% dos votos, fiando-se justamente no acordo com o grupo paramilitar.

Tal acordo foi assinado em setembro deste ano, com a promessa de uma consulta popular que, no fim, terminou por rejeitá-lo.

Um resultado que, pelo menos até o anúncio do Nobel, era visto com uma vitória indiscutível de Uribe.

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