Governo Trump desafia FBI e divulga documento que acusa agência de parcialidade e abuso de poder

Memorando crítico ao FBI divulgado por republicanos Direito de imagem AFP
Image caption Memorando crítico ao FBI foi divulgado com o consentimento de Trump e representa novo patamar da tensão entre o governo e a agência de segurança

A tensão entre o governo de Donald Trump e a principal agência de segurança dos Estados Unidos, o FBI, chegou a novo patamar nesta sexta-feira.

Alvo de disputa entre o presidente e políticos republicanos, de um lado, e diretores da agência e congressistas democratas, de outro, um memorando que acusa o FBI de "abuso de poder" e conspiração contra a campanha de Trump foi divulgado com o consentimento do presidente no fim da manhã desta sexta, em Washington, contrariando recomendações expressas da agência de segurança - o FBI seria o equivalente à Polícia Federal no Brasil.

Encomendado por políticos republicanos, o documento teve sua classificação de segurança rebaixada para a divulgação. O texto afirma que o FBI usou fontes e informações tendenciosas para justificar sua "espionagem" contra um membro da campanha de Trump.

Questionado por jornalistas sobre o conteúdo, o presidente afirmou que "muita gente deveria se sentir envergonhada" pelas ações descritas no memorando.

Pelo Twitter, na manhã desta sexta, Trump antecipou a divulgação do documento, dizendo que diretores da agência de segurança e do departamento de Justiça americano politizaram suas investigações para prejudicar seu governo e o Partido Republicano, favorecendo seus rivais democratas.

"Isso seria inimaginável pouco tempo atrás", escreveu Trump.

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Image caption No Twitter, Trump antecipou a divulgação do memorando com críticas ao FBI

A divulgação coloca em xeque o futuro do procurador especial Robert Mueller, principal responsável pela condução no FBI das investigações sobre uma eventual interferência da Rússia nas eleições americanas - e desafeto de Trump.

Segundo a imprensa americana, o conteúdo do memorando pode ser usado como justificativa para a demissão de Mueller. Ainda de acordo com veículos nos EUA, o diretor do FBI, Christopher Wray, pode pedir desligamento da agência como resposta à divulgação.

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A divulgação do documento indica um racha definitivo entre o governo Trump e os principais diretores do FBI e do Departamento de Justiça dos EUA.

Em quatro páginas, o memorando acusa os dois órgãos de omitirem que a fonte para o pedido de monitoramento de Carter Page, um auxiliar de Trump na campanha presidencial, seria um dossiê produzido, em grande parte, por encomenda dos rivais democratas.

Page virou alvo do FBI após uma série de viagens para a Rússia em 2016, quando trabalhava como conselheiro de política externa da campanha Trump - ele nega qualquer aliança entre republicanos e russos.

Produzido pelo ex-espião britânico Christopher Steele, o dossiê que teria servido como base para a autorização de monitoramento de Page pelo FBI recebeu recursos de membros da campanha de Hillary Clinton.

O objetivo dos democratas com a encomenda do dossiê seria encontrar novas informações sobre o suposto apoio de russos ao republicano durante as eleições.

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Image caption Prédio do FBI em Washington; em um raro comentário público, agência demonstrou preocupação com a divulgação do memorando

Segundo o texto do memorando, a omissão da fonte representaria "uma quebra preocupante dos processos legais estabelecidos para proteger o povo americano de abusos".

O documento recém-divulgado descreve ainda Steele como alguém "desesperado" para que Trump não vencesse - tornando, na opinião dos republicanos, o material politicamente tendencioso.

Atrapalhar investigações

Para democratas, o objetivo dos republicanos com a divulgação do documento seria atrapalhar as investigações sobre um suposto conluio entre Trump e autoridades russas durante as eleições, contra a então adversária Hillary Clinton.

O FBI, em um raro comentário público sobre este tipo de controvérsia, disse durante a semana que estava "seriamente preocupado" com a divulgação do memorando, que em sua visão omitiria informações importantes sobre a investigação para criar uma impressão equivocada sobre a atuação da agência.

Até a publicação desta reportagem, a agência não havia comentado a divulgação do texto, nem as críticas feitas por Trump pelo Twitter.

Pela mesma rede social, o ex-diretor do FBI James Comey, que foi demitido por Trump já em meio às investigações sobre os russos, em maio, a divulgação do memorando "destrói a confiança" do povo americano na agência de inteligência americana.

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Image caption Robert Mueller, procurador e principal responsável pela condução das investigações sobre a influência da Rússia nas eleições, fica mais vulnerável após a divulgação

Já Nancy Pelosi, líder democrata no Congresso americano, foi mais longe e disse que a divulgação do documento seria como um "envio de flores" ao presidente russo Vladimir Putin.

"O presidente Trump renunciou à sua responsabilidade constitucional como comandante-em-chefe, divulgando conteúdo de inteligência altamente sigiloso e distorcido. Ao não proteger fontes e métodos de inteligência, ele simplesmente enviou um buquê a seu amigo Putin".

Em nota oficial enviada após a divulgação do documento, a Casa Branca disse que "o memorando suscita sérias preocupações quanto à integridade das decisões tomadas nos mais altos níveis do Departamento de Justiça e do FBI".

De acordo com a secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders, "a decisão (pela divulgação) foi tomada com a contribuição da equipe de segurança nacional do presidente, incluindo funcionários responsáveis pela aplicação da lei e membros da comunidade de inteligência, por quem o presidente tem um grande respeito. Ele é especialmente grato aos servidores públicos de alto nível que trabalham todos os dias para manter a América segura e defender nossas leis, protegendo os direitos constitucionais de todos os americanos".

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