O que é a 'nakba', a 'catástrofe' que há 70 anos mudou destino de palestinos e está na raiz de conflito com Israel

Palestino protesta em Gaza Direito de imagem EPA
Image caption A inauguração da Embaixada dos EUA em Jerusalém gerou o mais violento confronto na Faixa de Gaza desde 2014, com mais de 50 palestinos mortos e 2,7 mil feridos, segundo autoridades palestinas

As 48 horas dos dias 14 e 15 de maio trazem marcas profundas do passado a israelenses e palestinos - e emoções conflitantes de um lado a outro. No ano de 1948, a primeira data marca a fundação do Estado de Israel, a concretização de uma aspiração histórica e uma conquista para os judeus anos após os horrores do Holocausto. Do lado palestino, o dia 15 é lembrado como o início de um êxodo em massa que está na raiz do conflito travado há décadas com os israelenses.

Anualmente, os palestinos relembram a data que passaram a chamar de "al nakba", árabe para "a catástrofe". Horas após a declaração de independência de Israel, tropas de Egito, Líbano, Síria, Iraque e Jordânia iniciaram uma ofensiva contra o novo país da região.

Os combates começaram horas após o fim do mandato britânico na Palestina - iniciado em 1923 por determinação da Liga das Nações para estabilizar e coordenar a partilha das terras da região.

À meia-noite do dia 15 de maio de 1948, encerrou-se a administração do Reino Unido, sem uma direção clara a ser seguida em relação à possível criação de um estado para os palestinos.

Confronto

Forças militares recém-formadas em Israel responderam aos ataques. Os israelenses receberam apoio de voluntários que chegaram de diferentes países do mundo - grupo que ficou conhecido como Machal - para repelir as ofensivas árabes.

O conflito forçou milhares de palestinos a deixarem suas casas. O número aproximado mais preciso, segundo a ONU, fica em torno dos 700 mil ao longo de toda a Primeira Guerra Árabe-Israelense.

Os números e motivos da saída palestina, no entanto, são objeto de discussão até hoje entre os dois lados. Os palestinos afirmam que houve um grande número de expulsões e muitas famílias foram impedidas de retornar após a guerra.

Israel se defende afirmando que nunca houve uma política de expulsões, apesar de reconhecer alguns casos isolados e atribuí-los a iniciativa própria de alguns agentes do estado ou paramilitares.

Em dezembro de 1948, a ONU emitiu a resolução 194, determinando que fosse permitido o regresso a todos os refugiados palestinos que desejassem voltar. O texto também pedia o pagamento de indenizações aos que não pretendessem retornar.

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Image caption Israel considera que a 'nakba' não existiu

Tensão contínua

Com a vitória israelense na guerra, em junho de 1949, o domínio territorial cresceu em relação às primeiras linhas definidas na partilha definida inicialmente.

Conflitos subsequentes e o aumento quase ininterrupto das tensões entre os dois lados levaram a um efeito ainda mais profundo na saída de palestinos para países árabes vizinhos.

Desde a nakba, o número de palestinos vivendo como refugiados cresceu para cerca de 5 milhões, segundo a ONU.

Em 1998, o então presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, tornou o Dia da Nakba oficial no calendário palestino.

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Image caption Grupos palestinos nunca reconheceram o Estado de Israel e todos os anos organizam uma série de protestos para o dia da 'nakba'

Disputa por Jerusalém

Neste ano, a nakba foi marcada pelos enterros dos 58 palestinos que morreram nos protestos contra a transferência da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém.

Em um comunicado, as Forças de Defesa israelenses disseram que 40 mil palestinos estavam participando de "atos de vandalismo violentos" em 13 localidades ao longo da cerca de segurança da Faixa de Gaza e ameaçando a segurança do território ocupado por Israel.

O ato formal de transferência da embaixada, realizado ontem, foi autorizado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e consolidou o reconhecimento da cidade como capital israelense - algo inaceitável para os palestinos.

Ao final do conflito de 1948, Jerusalém foi dividida. A parte ocidental da cidade ficou sob controle de Israel e a parte oriental com a Jordânia, um dos países vizinhos de Israel que tinha participado da guerra.

Mesmo antes da criação do Estado de Israel, no entanto, já havia disputas territoriais entre árabes e judeus nessa região.

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Image caption Protestos marcaram o dia da 'nakba' na Faixa de Gaza

Histórico turbulento

A Palestina recebeu esse nome dos romanos, que ocuparam o território (desde aproximadamente 63 a.C até o século 4 d.C.). Por volta do ano 70 d.C., após várias rebeliões contra a ocupação, grande parte dos judeus foi expulsa de suas terras pelos romanos. Com o surgimento do Islã, no século 7 d.C., a Palestina foi ocupada pelos árabes e, durante as Cruzadas, foi palco de inúmeras batalhas entre forças árabes e cristãos europeus - ambos buscavam o controle sobre o que viam como Terra Santa.

Em 1516, a Palestina passou a fazer parte do Império Otomano, que durou até a Primeira Guerra Mundial. A partir daí, franceses e britânicos ocuparam a região, redefinindo as fronteiras com países vizinhos.

No começo dos anos 1920, o território da Palestina passou a ficar formalmente sob o comando do Reino Unido e, com apoio dos britânicos, judeus de todas as partes do mundo começaram a retornar à Terra Santa. Jerusalém foi capital do Mandato Britânico da Palestina até 1948.

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Image caption Ivanka Trump na abertura da embaixada dos EUA em Jerusalém que, provisoriamente, vai funcionar no prédio do consulado americano na cidade

Em setembro de 1947, a Comissão Especial das Nações Unidas para a Palestina defendeu a criação de um Estado judeu no Oriente Médio, se fundamentando em "argumentos baseados em fontes bíblicas e históricas" e na Declaração de Balfour de 1917 - na qual o governo britânico se posicionou favoravelmente a um "lar nacional" para os judeus na Palestina.

Em 29 de novembro do mesmo ano, a Assembleia Geral da ONU, em sessão presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, aprovou uma resolução recomendando a partilha da Palestina em substituição ao Mandato Britânico.

Em 1956, houve novo confronto com países árabes, quando Israel - com o apoio de França e Inglaterra -, declarou guerra ao Egito. Em jogo, estavam a nacionalização do canal de Suez e o fechamento do porto de Eilat, no Mar Vermelho, pelo então presidente egípcio Gamal Abdel Nasser.

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Image caption Milhares de palestinos protestaram contra a abertura da embaixada americana em Jerusalém

Foi nessa época que surgiu o Al Fatah, o Movimento para a Libertação Nacional da Palestina. Trata-se de um importante grupo político-militar palestino, que teve entre seus fundadores Arafat, que mais tarde chefiaria a Autoridade Palestina.

Em junho de 1967, veio a Guerra dos Seis Dias, em que Israel enfrentou forças sírias, egípcias e jordanianas - e venceu.

Depois da vitória, Israel assumiu o controle sobre Jerusalém Oriental - onde passou a construir assentamentos para colonos.

Estima-se que um terço da população de Jerusalém seja composta por palestinos - e muitas são as famílias que estão na região há séculos.

A ONU criou nessa época dezenas de acampamentos de refugiados nos países limítrofes, inclusive em Jerusalém Oriental. Mas, desde então, os confrontos se tornaram cada vez mais frequentes, violentos e mais difíceis de resolver.

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