O que diz a abstenção sobre o resultado da eleição presidencial na Venezuela

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Image caption Maduro governará a Venezuela pelos próximos seis anos

O desencanto com a grave crise que assola a Venezuela se refletiu no domingo, 20, nas eleições presidenciais do país, que levaram à reeleição de Nicolás Maduro com 68% dos votos, contra 21% para o opositor Henri Falcón.

Em um pleito com baixa participação de eleitores, a abstenção foi a grande vencedora, atingindo um índice de 54% - de um total de 20,5 milhões de pessoas registradas para votar. Na eleição presidencial de 2013, a participação nas urnas foi de 80%. O voto não é obrigatório no país.

Nas ruas de Caracas e Maracaibo, as duas principais cidades do país, a atmosfera de eleição presidencial mal era sentida.

"Em outras ocasiões havia enormes filas para votar", disse Nancy González enquanto esperava para registrar seu voto no popular bairro de Petare, no leste de Caracas.

A participação de 46% de eleitores nesse pleito seria considerada alta em alguns países da região, mas é muito baixa na Venezuela, onde sempre houve grande comparecimento e interesse na eleição presidencial - de vitória simples, sem segundo turno, ganha quem levar mais votos.

A participação média nas últimas três eleições presidenciais (2006, 2012 e 2013) foi superior a 79%, segundo dados de Eugenio Martínez, jornalista especialista em processos eleitorais.

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Image caption Muitos locais de votação em Caracas ficaram praticamente vazios, mesmo em redutos chavistas

Oposição celebra

Maduro se gabou de ter alcançado 68% dos votos. Mas ele não mencionou que esse dado representa 29% do eleitorado. Sem dúvida, foi o mais votado, mas os números são equivalentes aos do pior resultado em 20 anos de seu antecessor e padrinho político, Hugo Chávez.

A baixa participação de eleitores é uma vitória para a parte da oposição que preferiu não participar do pleito por considerar que as condições para um processo justo e transparente não foram cumpridas.

"A oposição institucional pode alegar que obteve sucesso porque isso deslegitima a eleição", disse o analista e pesquisador de opinião Luis Vicente León à BBC Mundo.

"A farsa foi derrotada pela ausência do povo", disse Juan Pablo Guanipa, representante da Frente Ampla Venezuela Livre, que fez campanha pela abstenção e celebrou o que descreveu como "desobediência em massa".

Segundo a Frente Ampla, a participação não chegou a 30%.

O opositor Henrique Capriles, que teve os direitos políticos cassados, afirmou em uma "carta ao povo" publicada em sua página do Facebook, que a abstenção deve ser lida como uma "manifestação contundente do verdadeiro clima político que se vive na Venezuela".

"Os que votaram e os que não (votaram) estão esperando que uma nova ação política dê sentido à decisão que tomaram ontem. Então, nosso empenho deve estar dirigido a dar ao país um rumo definido e uma agenda de mudanças".

A ausência dos venezuelanos nas urnas, para Capriles - que também fez campanha pela abstenção -, reitera que a oposição precisa se articular "para dar respostas mais contundentes", mas também sinaliza uma decepção que pode se tornar "perigoso terreno fértil para a antipolítica".

Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas, exilado em Madri, afirmou pelo Twitter que os venezuelanos haviam "protagonizado o mais contundente ato de desobediência civil", que amparava um "direito de legítima defesa com respaldo da comunidade internacional para dar um passo a um governo de transição".

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Image caption Ex-prefeito de Caracas Antonio Ledezma comemorou a abstenção como respaldo dos venezuelanos aos opositores que pedem o fim do regime de Maduro.

Da embaixada do Chile na Venezuela, onde vive desde novembro do ano passado, o político Freddy Guevara também comemorou o nível elevado de abstenção. "A desobediência e a rebeldia venceram a farsa e as ameaças. Superamos com êxito essa armadilha: a farsa foi absolutamente deslegitimada, Maduro ficará mais frágil e nós, mais fortes para o que vem. Força e fé!"

Em um pronunciamento na tarde desta segunda, a também opositora e ex-deputada María Corina Machado ironizou o pedido de novas eleições feito por Falcón e afirmou que "o único caminho é o da desobediência total". "A Venezuela falou claro: aqui, o que precisamos é derrubar o regime".

Agora, resta saber se a oposição, desunida nos últimos meses, usará esses números para traçar uma estratégia que enfraqueça o governo ou o force a fazer mudanças.

Na tarde de domingo, o chavismo já celebrava o triunfo de Maduro, mas mostrava preocupação com o baixo índice de participação.

A baixa participação indica que não apenas os adversários, mas também os partidários de Maduro se abstiveram.

A escola secundária no bairro de 23 de Janeiro, onde Hugo Chávez votava, parecia vazia em comparação com as eleições mais recentes - as regionais de 2017, que elegeram a Assembleia Nacional Constituinte.

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Image caption Alguns eleitores apoiadores de Maduro rebateram as críticas de que não havia filas para votar dizendo que o processo estava muito rápido

O resultado foi um duro golpe na intenção expressa por Maduro durante a campanha de atingir dez milhões de votos, um número que o carismático Chávez não conseguiu alcançar - nem em momentos de boom econômico.

Nem mesmo o prêmio prometido aos eleitores por meio do controverso "carnê da pátria", o documento que garante aos venezuelanos acesso aos programais sociais, animou a participação. Maduro não explicou como, mas prometeu que esses eleitores teriam alguma recompensa financeira ao comparecerem para votar.

Essa tática foi uma das razões apresentadas pelo candidato Henri Falcón para não reconhecer o processo eleitoral e pedir novas eleições.

Dessa maneira, Falcón se alinha novamente à oposição que exigia o boicote.

"A abstenção é, sem dúvida, uma vencedora dentro da oposição", disse Luis Vicente León.

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Image caption A oposição fez campanha pedindo boicote ao pleito para provar que o processo era pouco transparente e fraudulento

As causas da baixa participação são complexas, mas com certeza a grave crise econômica do país - uma das piores de sua história - é uma delas.

Outra razão é que muitos venezuelanos deixaram o país devido à crise. Outra é que muitos dos opositores seguiram as ordens de seus líderes que pediram para não fossem às urnas.

Outras pessoas, como um eleitor ouvido pela BBC, não encontraram nenhuma opção atraente contra Maduro na cédula eleitoral. "A verdade é que eu não gosto de nenhum", disse ele sobre os candidatos.

"Eu não acredito em eleições, não vou votar e não há eleições justas", resumiu Juvenal Zambrano de manhã, enquanto tomava um refrigerante em uma rua vazia.

Pressão internacional

Boa parte da comunidade internacional disse não respaldar a eleição de Maduro. O Brasil não reconheceu a legitimidade do processo. Em uma nota conjunta, o Grupo de Lima, do qual o Brasil faz parte, afirmou que a votação não estava "em conformidade com os padrões internacionais de um processo democrático, livre, justo e transparente".

Participam do chamado Grupo de Lima, além do Brasil, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia. Todos concordaram em reduzir os níveis de relação diplomática com a Venezuela e chamar seus embaixadores para consultas.

A União Europeia, os Estados Unidos, o Canadá e vários países latino-americanos afirmam que a eleição não foi transparente.

No domingo, Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, criticou novamente o processo eleitoral.

"Eleições fraudulentas não mudam nada, precisamos que o povo venezuelano assuma o país ... Um país com tanto a oferecer ao mundo", escreveu ele no Twitter.

A abstenção, de certa forma, legitima as impressões da comunidade internacional.

"Maduro não consegue legitimar-se nem perante a comunidade internacional nem perante a oposição", analisou León. Para ele, o resultado do pleito é decepcionante para o chavismo.

"Nunca antes o chavismo teve uma porcentagem tão baixa do total de votos. A abstenção seria, portanto, a vencedora. Ela não tem impacto legal, mas sim sobre a legitimidade", acrescentou.

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Image caption Eleitores de Maduro comemoram a reeleição do presidente venezuelano

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