Como Kim Jong-un subiu ao poder na Coreia do Norte - e quais seus planos para o país

Kim Jong-un no funeral do pai, em 28 de dezembro de 2011 Direito de imagem EPA
Image caption Kim Jong-un no funeral do pai, em 2011; ele não era o primeiro na linha de sucessão ao poder

28 de dezembro de 2011 foi um dia de frio intenso em Pyongyang.

Nevava forte no momento em que a limusine preta cruzava lentamente as ruas da capital norte-coreana. Sobre o teto do carro, o caixão com o corpo do supremo líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il, repousava em uma cama de crisântemos brancos.

Acompanhando o cortejo, uma multidão de pessoas vestidas em preto se espremia nas calçadas. Chorando e batendo no peito, elas gritavam "papai", "papai" e precisaram ser contidas pelos soldados.

A pé, ao lado do carro, o filho do ditador morto e sucessor ao posto máximo, Kim Jong-un, então com 27 anos, mostrava sinais de profundo abatimento. Durante o velório, ele chorou convulsivamente várias vezes.

Logo atrás seguia seu tio Chang Song-thaek, considerado o segundo homem mais poderoso na Coreia do Norte. Do outro lado do carro, estavam o chefe de gabinete das Forças Armadas, Ri Yong-ho, e o ministro da Defesa, Kim Yong-chun.

A partir daquele momento, pensava-se que esses homens experientes deteriam o poder em Pyongyang. Mas não foi bem assim.

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Image caption Telão em Pyongyang com noticiário; país tem um histórico de fome e isolamento

Na década de 50, o avô de Kim Jong-un, Kim Il-sung, criou algo que não existia no mundo comunista: transformou a Coreia do Norte em uma "dinastia familiar" onde o poder central e único passava de pai para filho.

Durante duas décadas, Il-sung preparou seu filho mais velho, Kim Jong-il, para sucedê-lo. Levava o filho a todos os lugares onde ia. Em 1994, quando o velho faleceu, Kim Jong-il assumiu o poder imediatamente. Mas quando ele próprio faleceu, inesperadamente, em 2011, seu filho mal tinha iniciado o aprendizado para se tornar o terceiro supremo líder da Coreia do Norte.

Esse fato fez com que vários analistas previssem o colapso do sistema de governo centrado em um único homem. Não iria demorar para que percebessem seu erro.

Expurgos

Dentro de poucos meses, o chefe de gabinete, Ri Yong-ho, e o ministro da Defesa, Kim Yong-chun, foram ambos demitidos. Até hoje não se sabe o paradeiro de Ri.

Em dezembro de 2013, Kim Jong-un tomou a decisão mais chocante de todas. Durante uma reunião do patido, seu próprio tio, Chang Song-thaek, foi detido, acusado de traição, sendo em seguida executado. Alguns relatos não confirmados disseram que na execução foi usada uma arma antiaérea de grande porte.

Entre 2012 e 2016, Kim levou a cabo a maior limpeza política já vista na Coreia do Norte desde os tempos de seu avô. O Instituto Nacional de Segurança Estratégica da Coreia do Sul relatou a execução de 140 autoridades do governo e oficiais de alta patente das Forças Armadas. Outras 200 pessoas foram demitidas e/ou presas no país.

Kim eliminou todos que de alguma forma estavam no seu caminho, substituindo-os por jovens leais a ele. O grupo vem sendo liderado pela irmã, Kim Yo-jong, eleita para o Politburo em 2017, quando tinha 30 anos.

Atualmente, não há dúvida sobre quem dá as cartas em Pyongyang. O líder supremo é Kim Jong-un, que deve voltar a fazer história nesta terça-feira ao se reunir com o presidente americano Donald Trump.

Encontro com a Coreia do Sul

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Image caption Encontro entre Kim Jong-un e Moon Jae-in foi assistido por milhões de pessoas, tentando decifrar cada gesto

Numa tarde de abril de 2018, Kim Jong-un está sentado à mesa colocada sobre uma ponte de madeira, numa clareira de floresta bem no meio da zona desmilitarizada (DMZ, na sigla em inglês) que separa a Coreia do Norte da Coreia do Sul.

Seis anos haviam se passado desde aquele dia de frio intenso em Pyongyang.

Kim toma chá em pequenos goles, ouvindo o que diz o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in. O encontro histórico está sendo transmitido ao vivo em todo o mundo. Ninguém na audiência pode ouvir uma palavra sequer que é dita pelos dois líderes.

Por meia hora, milhões de pessoas em todo o mundo assistem perplexos a essa conversa muda, tentando decifrar cada gesto.

Poucos meses antes, Kim realizara testes militares, disparando mísseis balísticos que cruzaram o espaço aéreo japonês. Ele também ameaçou atacar a Coreia do Sul e os Estados Unidos.

Agora, ele senta à mesa, sorridente, e conversa seriamente com seu inimigo declarado.

O que exatamente Kim deseja? Ele está blefando? Ou será que ele está realmente resolvido a seguir um caminho diferente daquele inaugurado por seu avô, Kim Il-sung, e passado a ele por seu pai Kim Jong-il?

O pequeno general

Em 1992, numa vila em Pyongyang, uma festa de aniversário celebrava os oito anos de um menino vestido com um uniforme de verdade - uma versão em miniatura, mas um autêntico uniforme de general do Exército Popular da Coreia. O menino era justamente Kim Jong-un.

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Image caption Kim Jong-un na infância: 'Era impossível crescer como uma criança comum, sendo tratado daquele jeito pelas pessoas que o cercavam'

Ao chegar à festa, outros generais, muito mais velhos, cumprimentaram o menino de oito anos com reverência.

A história de como ele se tornou o "General Kim" foi contada em 2016 pela tia de Kim em uma entrevista ao Washington Post. Há quase 20 anos, Ko Yong-suk e seu marido se tornaram dissidentes, fugindo para o Ocidente. Atualmente, eles moram nos EUA.

Na entrevista, Ko disse que deixou aquela festa de aniversário convencida de que Kim Jong-un já tinha sido consagrado como herdeiro e sucessor de seu pai Kim Jong-il.

Ko disse que "para ele, era impossível crescer como uma criança comum, sendo tratado daquele jeito pelas pessoas que o cercavam".

Ela descreveu o adolescente Jong-un como temperamental e arrogante.

"Ele não era um encrenqueiro, mas era mal-humorado e intolerante. Quando sua mãe lhe dava bronca por ficar brincando mais do que estudando, ele não revidava. Mas protestava de outras maneiras, como fazendo greve de fome."

Pequenas informações como essas são praticamente tudo que sabemos sobre a infância de Kim Jong-un. Não é muito para construir uma imagem de quem ele é e por que foi escolhido para suceder seu pai no lugar de seu irmão mais velho, Kim Jong-chol, e do meio-irmão Kim Jong-nam.

O primeiro a prever a ascensão de Kim Jong-un ao poder parece ter sido um chef japonês que atende pelo pseudônimo de Kenji Fujimoto, que acabou entrando para o círculo íntimo dos Kim por preparar comida japonesa para Kim Jong-il.

Em livro de 2001, Fujimoto descreveu seu primeiro encontro com Kim Jong-un e seu irmão mais velho, Kim Jong-chol.

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Image caption Kim Jong-il (centro) e Kim Jong-un com militares norte-coreanos em foto de 2010; filho era `muito com o pai`

"A primeira vez que conheci os dois jovens príncipes, ambos usavam uniformes militares. Eles apertaram a mão de cada um dos funcionários. Mas quando chegou a hora de apertar minha mão, o príncipe Kim Jong-un me deu um olhar gelado. Era como se quisesse dizer: 'Nós odiamos japoneses como você'. Eu nunca vou esquecer seu olhar afiado. Ele tinha sete anos de idade."

Em um segundo livro em 2003, Fujimoto fez uma previsão que à época foi notável, mas que acabou por se concretizar:

"Kim Jong-chol é considerado o sucessor mais provável. Mas duvido muito disso. Kim Jong-il costumava dizer: 'Jong-chol não é bom, ele é como uma menina'. Seu favorito é o filho mais novo, o segundo príncipe. Jong-un é muito parecido com seu pai. Ele foi criado como seu pai. Mas sua existência não foi revelada ao público."

O irmão envenenado

Há muito por trás de como Jong-un, o caçula, superou seus irmãos na ascensão ao poder - inclusive uma morte suspeita.

Seu pai Kim Jong-il teve duas mulheres oficiais e pelo menos três amantes, com quem teve cinco filhos.

Kim Jong-nam era filho de sua primeira amante, e Jong-un era o filho mais novo de sua segunda amante, Ko Yong-hui, uma ex-atriz nascida no Japão. O velho ditador manteve suas amantes e seus filhos em segredo. Eles viviam em moradias isoladas umas das outras. Embora compartilhassem um pai, Kim Jong-nam e Kim Jong-un nunca se encontraram.

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Image caption Kim Jong-nam era mais velho que Jong-un, mas se desentendeu com o pai; acabou sendo expurgado e morreu envenenado

Como o filho mais velho, Kim Jong-nam foi por muito tempo considerado o sucessor mais provável de Kim Jong-il. Até que, em 2001, ele foi preso quando tentou entrar no Japão com um passaporte falso. Ele planejava visitar a Disneylândia de Tóquio.

Reza a lenda que, para seu pai em Pyongyang, isso era uma humilhação imperdoável.

No entanto, segundo o jornalista Yoji Gomi, familizarizado com a família Kim, o problema de relacionamento com o pai começou depois que Jong-nam retornou do internato na Suíça no final dos anos 80. A experiência de viver nove anos na Europa afetara-o profundamente.

Durante a década de 1990, a Coreia do Norte foi atingida por uma grave fome, eufemisticamente chamada de "Marcha árdua". O colapso do apoio econômico após o fim da União Soviética e uma série de inundações devastadoras deixaram o país sem comida. Em mais de quatro anos, entre 1 e 3 milhões de pessoas morreram de doenças e desnutrição.

De acordo com Gomi, Kim Jong-nam queria que seu pai mudasse o sistema econômico da Coreia do Norte, defendendo reformas no estilo chinês em propriedade privada e mercado.

"Kim Jong-il ficou muito bravo", diz Gomi. "Ele disse a Kim Jong-nam que ele deveria mudar de ideia ou sair de Pyongyang."

O jornalista Bradley K Martin, autor da biografia da dinastia Kim, concorda.

"Kim Jong-nam não foi rejeitado porque queria ir à Disneylândia", diz ele. "Eu acho que Kim Jong-nam disse coisas sobre necessidade de mudar a política e seu pai não gostou."

Kim Jong-nam foi enviado para o exílio em Pequim. Ele acabou sendo envenenado em fevereiro de 2017 no aeroporto de Kuala Lumpur, capital da Malásia. A Coreia do Norte negou envolvimento.

O próximo da fila de sucessão ao poder deveria ser Kim Jong-chol, outro filho de Kim Jong-il. Mas parece que ele nunca foi seriamente considerado e diz-se que não tem interesse pela vida política. Em vez disso, Jong-il escolheu seu filho mais novo, Jong-un.

De acordo com Martin, "ele foi escolhido por seu pai porque ele era o mais desprezível e perverso de seus filhos".

Em outras palavras, ele tinha a melhor chance de sobreviver a uma luta brutal de sucessão e manter vivo o negócio da família.

E como fazer isso?

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Image caption Teste de míssil norte-coreano em novembro de 2017; alcance do programa nuclear do país é alvo de grande especulação

'Economia em primeiro lugar?'

Em 20 de abril deste ano, em uma sessão plenária do Partido dos Trabalhadores da Coreia, Kim Jong-un fez um discurso declarando o congelamento de todos os testes adicionais de armas nucleares e mísseis de longo alcance e de uma "nova linha estratégica" focada na construção da economia da Coreia do Norte.

O discurso foi visto por alguns observadores como um sinal de que Kim Jong-un quer seguir o exemplo econômico da China.

"A nova estratégia é a economia em primeiro lugar", diz John Delury, da Universidade Yonsei, em Seul. "Kim está dizendo: 'Eu realmente vou melhorar a economia. Você não vai ter que apertar seus cintos novamente'. Nos últimos cinco ou seis anos, houve uma melhora modesta, mas nada de inovador. Em vez disso, ele obviamente se concentrou no programa nuclear."

Outros, como Bradley K Martin, não têm tanta certeza.

"Ele está pensando seriamente que pode transformar seu país? Não sei. Não se encaixa com o que sabemos sobre ele. Ele teve anos para fazer isso se quisesse. Ele gosta de aparecer, como seu pai e seu avô. 'Vamos construir monumentos.' Cada um fez a mesma coisa."

Se Kim Jong-un está agora empenhado em desenvolver o seu país, ele precisa do fim das sanções internacionais contra Pyongyang. Ele precisa de comércio e investimento maciço. Em troca, os Estados Unidos e o Ocidente exigem que ele entregue sua "espada preciosa", suas armas nucleares. É o que Kim fará agora?

Isso não está claro.

A Coreia do Norte tem perseguido seu programa de armas nucleares obstinadamente, com grande custo econômico e apesar da intensa pressão internacional contrária.

Depois de chegar ao poder em 2011, Kim Jong-un acelerou dramaticamente o programa nuclear e de mísseis, e muitos especialistas externos concordam que o país parece ter a capacidade de atingir os EUA.

Nos últimos meses, Kim prometeu concessões em seu programa nuclear e, em gesto de distensão, enviou uma delegação à Olimpíada de Inverno na Coreia do Sul.

Mas ainda restam questões importantes a serem respondidas, a começar por: qual é o arsenal norte-coreano de mísseis nucleares?

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Image caption Trump e Kim devem se reunir em 12 de junho

Em sua recente reunião com o presidente Moon, Kim Jong-un pediu a "completa desnuclearização da península coreana" e prometeu suspender todos os testes e desmantelar suas instalações de testes nucleares.

Mas, segundo o especialista em armas nucleares Duyeon Kim, do Fórum do Futuro da Península da Coreia, isso não significa que Kim Jong-un esteja pronto para se desarmar unilateralmente - longe disso.

"Ele declarou na verdade que (a Coreia do Norte) é uma potência nuclear", diz. "Kim Jong-un está preparando sua persona, entrando nesses encontros para ser visto como o líder de um país poderoso e normal em pé de igualdade com os EUA."

E para que servem as armas nucleares norte-coreanas? A resposta, segundo Duyeon Kim, é conseguir o chamado "desacoplamento" - impedir que os Estados Unidos ajudem a Coreia do Sul se e quando Pyongyang decidir que é hora de "unificar" novamente a península coreana.

"Com base nas declarações públicas do Norte e suas ações e seus comentários privados, parece que as armas nucleares são para dissuasão e para uso potencial em uma unificação forçada. Isso é algo que eles falam abertamente e em privado."

A ideia de que a pobre e atrasada Coreia do Norte poderia impor a unificação em um Sul moderno, rico e militarmente mais avançado parece absurda, e talvez seja. Mas Bradley K Martin diz que, por mais improvável que seja, esse continua sendo o objetivo de Pyongyang.

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