Menina que virou símbolo da separação de famílias nos EUA e estampou capa da Time não foi tirada da mãe

A imagem de Yanela Denise chorando ao olhar para a mãe gerou revolta contra medidas anunciadas em abril pelo governo Trump Direito de imagem Getty Images
Image caption A imagem de Yanela Denise chorando ao olhar para a mãe gerou revolta contra medidas anunciadas em abril pelo governo Trump

A menina que virou símbolo da política americana que separou famílias de imigrantes e estampou a capa da revista 'Time' não foi tirada da mãe na fronteira com o México, diz seu pai.

A imagem da pequena hondurenha chorosa com um casaco rosa, olhando para a mãe, foi feita durante a detenção de um grupo que tentava cruzar ilegalmente a fronteira.

Na montagem feita pela Time, Yanela Denise foi colocada em frente ao presidente Donald Trump, que a observa sob a legenda "Bem-vinda à América".

Milhares de outras crianças, contudo, foram afastadas dos pais nos Estados Unidos nas últimas semanas.

A imagem foi feita pelo fotógrafo John Moore para a agênciaGetty Images no dia 12 de junho na cidade de McAllen, no Texas.

Ganhador do prêmio Pulitzer, ele disse à BBC que, momentos antes de ser detida, a mãe amamentava a criança. Elas chegaram aos EUA de bote, pelo Rio Grande, que banha os dois países.

Moore afirma que elas foram levadas juntas por agentes da Patrulha de Fronteira.

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Image caption Denis Valera (esq.) afirma que a mulher saiu de casa sem avisá-lo de que tentaria entrar no EUA

A foto gerou revolta contra medidas anunciadas em abril pelo governo Trump, que preveem que crianças sem documentação detidas na fronteira entre EUA e México possam ser separadas dos pais, e ajudou a levantar US$ 17 milhões em doações.

Mobilização contra Trump

Centenas de milhares de pessoas participaram de uma campanha realizada no Facebook para levantar fundos para o Centro para a Educação e Serviços Legais para Refugiados e Imigrantes (Refugee and Immigrant Center for Education and Legal Services), organização sem fins lucrativos baseada no Texas.

"Minha filha se tornou símbolo da separação de pais e filhos na fronteira dos Estados Unidos", afirmou Denis Valera, pai da menina, à agência de notícias Reuters.

"Ela pode ter tocado o coração do presidente Trump", acrescenta. "Ver a reação dela naquele momento parte o coração de qualquer um."

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Image caption Sandra Sanchez e a filha foram detidas na fronteira da cidade de McAllen, no Texas

Valera afirmou que sua filha e a mãe dela, Sandra Sanchez, foram detidas juntas na fronteira da cidade de McAllen, quando Sanchez tentava pedir asilo.

O vice-ministro hondurenho de Relações Exteriores, Nelly Jerez, confirmou a versão de Valera à Reuters.

Carlos Ruiz, agente da Patrulha de Fronteira que deteve Sanchez e sua filha, afirmou que as autoridades pediram que a mãe deixasse a filha no chão para que pudesse ser revistada.

"A criança começou a chorar assim que ela a colocou no chão", acrescenta Ruiz. "Eu fui pessoalmente até a mãe e perguntei: 'Você está bem? A criança está bem?'"

"Ela respondeu: 'Sim. Ela está cansada, tem sede. São 11 da noite.'"

A pequena Yanela Denise tem dois anos de idade, de acordo com o jornal britânico Daily Mail.

Valera afirmou que Sanchez e sua filha deixaram a cidade hondurenha de Puerto Cortes sem avisá-lo ou aos três outros filhos do casal.

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Ele disse acreditar que ela tenha tentado entrar nos EUA em busca de melhores condições de vida.

"Se elas forem deportadas, tudo bem, contanto que não deixem a criança sem a mãe. Estou aguardando para ver o que vai acontecer com elas", declarou.

Ao Daily Mail, ele afirmou saber que a mulher pagou US$ 6 mil a um coiote que prometeu ajudá-la a cruzar a fronteira.

Segundo jornal, os outros três filhos do casal têm 14, 11 e seis anos de idade.

"As crianças têm acompanhado as notícias. Ela estão um pouco preocupadas, mas eu tento não falar muito sobre isso. Eles sabem que a mãe e a irmã estão bem agora."

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Image caption Deputada pela Califórnia, Lucille Roybal-Allard (dir.) segura foto da garotinha em protesto no Capitólio nesta terça-feira

A revista Time defendeu sua capa e declarou, nesta sexta-feira, que não foi à toa que a menina hondurenha virou "o símbolo mais visível de atual debate sobre imigração na América".

"Nossa capa e reportagem capturam o que está em jogo neste momento", escreveu o editor-chefe, Edward Felsenthal.

A revista, contudo, corrigiu a reportagem, que dizia que a menina tinha "sido levada, enquanto gritava, por agentes da Patrulha de Fronteira dos EUA". O texto foi substituído pela afirmação de que a mãe e a menina tinham sido "levadas juntas".

A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, alegou, em um post no Twitter, que políticos do Partido Democrata e a imprensa "exploraram a foto de uma garotinha para promover sua agenda".

"Ela não foi separada da mãe. A única separação aqui é a dos fatos", ela escreveu.

Nesta sexta, Trump acusou os democratas de fazer política com "uma história falsa de dor e tristeza".

Crise na fronteira

Cerca de 2,3 mil crianças foram tiradas de suas famílias desde que a política de "tolerância zero" de Trump em relação à imigração ilegal começou, em maio. Elas foram colocadas em centros de detenção provisórios administrados pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS).

Alguns abrigos, incluindo três no Texas, recebem crianças em "tenra idade", com menos de cinco anos de idade.

Cerca de 500 voltaram às famílias desde maio, informou o Departamento de Segurança Interna.

Em meio às críticas - que vieram até de seu próprio partido e da mulher, Melania -, Trump voltou atrás nesta quarta-feira e assinou um decreto que estabelece que, a partir de agora, as famílias de imigrantes ilegais serão mantidas juntas.

A medida, contudo, não dissipou a polêmica em torno da postura do governo frente aos imigrantes. No dia da divulgação não ficou claro, por exemplo, como se daria essa detenção - informações que só foram divulgadas no dia seguinte pelo Pentágono - e até agora não se sabe se a nova regra vale também para as milhares de crianças que já estão sozinhas em abrigos.