Atentado em Londres: 'A pessoa que me socorreu em um ataque extremista virou minha melhor amiga'

Will na ponte de Westminster um ano após o atentado
Image caption Will foi uma das 50 pessoas feridas em um atentado na ponte de Westminster em março de 2017

Will caminhava pela ponte de Westminster, em Londres, quando um carro se chocou contra ele, pelas costas. Ele ainda não sabia naquele momento, mas estava entre as vítimas de um ataque extremista que no total matou cinco pessoas e feriu outras 50 no dia 22 de março de 2017.

No caos que se seguiu ao ataque com o veículo, ele foi amparado por uma pessoa desconhecida, que pouco depois desapareceu na multidão. E que acabaria por se tornar sua grande amiga.

Will estava estressado naquele dia. Ele tinha uma reunião com sua equipe em um novo emprego - e estava atrasado. Sua roupa havia sido escolhida com cuidado: um jeans elegante e seu sapato favorito, de suede.

Correndo contra o tempo, ele havia decidido que o caminho mais rápido era pelo metrô perto da ponte de Westminster, que cruza o rio Tâmisa em pleno centro londrino, diante do Parlamento Britânico, em um dos pontos mais turísticos e importantes da cidade.

Cristina, por sua vez, estava em uma loja popular, comprando produtos de limpeza. Ela havia acabado de sair de um seminário sobre economia em países em desenvolvimento, um tema pelo qual se interessava desde que fora trabalhadora voluntária na China e em Mianmar.

Ela colocou suas compras na cestinha da bicicleta e decidiu pegar o caminho pela ponte de Westminster para voltar para casa. Não era o caminho mais curto, mas o que Cristina achava mais bonito.

Como havia muitos turistas na margem norte da ponte, Will decidira cruzar para o outro lado, onde conseguiria caminhar com mais rapidez. Mas foi nesse momento que ele escutou um carro acelerando com força atrás dele. E sentiu seu corpo sendo arremessado antes que tudo ficasse escuro.

Cristina notou o trânsito excessivamente carregado na região, mas não estranhou. Até que ouviu gritos. E viu pessoas correndo e dizendo a ela que desse meia-volta, porque havia ocorrido um acidente terrível na ponte. Em vez de voltar, porém, ela estacionou sua bicicleta e seguiu caminho a pé. Com treinamento básico em primeiros-socorros, ela achou que talvez pudesse ser útil.

Ela notou um jovem de sapatos marrons caído no chão. Ela se ajoelhou e perguntou seu nome.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Trânsito e ambulâncias na região de Westminster imediatamente após o ataque; Cristina viu a confusão e decidiu tentar ajudar as vítimas

O ato extremista do britânico Khalid Masood, que avançou com seu carro contra uma multidão de pessoas e acabou morto pela polícia, os colocou no mesmo lugar ao mesmo tempo.

"Nós não teríamos nos encontrado em circunstâncias normais. Temos idades e profissões diferentes, vivemos e trabalhamos em áreas diferentes da cidade", pondera Will, passado um ano desde a tragédia. "É incrível que nossa amizade tenha derivado de algo tão horrível."

Will e Cristina conversam com a reportagem da BBC News em um restaurante em Londres. Ele tem 25 anos, passou sua vida em Londres e trabalha com urbanismo. Ela é portuguesa, tem 34 anos, mora em Londres há 12 e trabalha em publicidade.


Will acredita ter sido a segunda pessoa atingida pelo carro de Masood. Quando recobrou a consciência, estava caído no chão, na sarjeta.

"Tinha uma forte sensação de dor em todo o corpo", conta. "Ouvia o pânico, mas ainda não entendia do que se tratava."

Foi socorrido por Cristina nos minutos seguintes.

"Ele não parecia estar ferido gravemente, mas estava muito confuso", conta ela. "Ele estava entrando em pânico porque precisava ir para algum lugar, mas não lembrava aonde. Eu o amparei, o abracei e tentei acalmá-lo, fazendo várias perguntas. Estávamos sentados na sarjeta, assistindo àquela cena terrível, tendo uma conversa trivial sobre seus pais e seu emprego."

Image caption Cristina é portuguesa e mora em Londres há 12 anos

Ferido no atentado

Eles esperaram os paramédicos lidarem com os casos mais graves. Will tinha um ferimento nas costas e nas pernas e foi levado ao hospital na última ambulância a deixar a ponte. Não havia espaço para Cristina ir junto.

"Eu queria muito ter ido com ele, mas sabia que não cabia a mim e que havia um jovem policial para acompanhá-lo", relembra. "Em meio ao caos, ninguém perguntou os meus dados pessoais, então, eu simplesmente fui embora."

Foi só depois que Cristina soube que não se tratara de um acidente de trânsito comum, mas sim de um atentado.

De volta a sua casa, ela ainda telefonou aos empregadores de Will para relatar o ocorrido.

"Como ele havia me dito muitas coisas sobre si, consegui localizá-lo no Facebook e deixar-lhe uma mensagem: 'Espero que você esteja bem, me mande notícias'. Acho que estava em estado de choque. Era como se eu tivesse assistido a um violento filme em 3D."

Direito de imagem Getty Images
Image caption Cristina ficou ao lado de Will enquanto serviços de emergência atendiam os casos mais urgentes

Enquanto isso, o estado de saúde de Will piorava. Como seu caso era de baixa prioridade, seu atendimento demorou. Ele começou a sentir náuseas.

"Minha fala começou a ficar estranha. Eu tentava falar e saía a palavra errada. Me colocaram em uma cadeira de rodas e eu vomitei." Os médicos começaram a ficar preocupados.

Will foi diagnosticado com dissecção da artéria carótida - uma ruptura em uma das artérias de seu pescoço permitiu que o sangue entrasse na parede da artéria e rompesse suas camadas, formando um coágulo que corria o risco de derivar em um AVC.

Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Livros e itens pessoais de Will ao lado de sua cama hospitalar; ele teve uma grave lesão em uma artéria no pescoço

Os dias passaram e Cristina tentou seguir com a vida. Mas ela notou que continuava abalada - e se sentia ansiosa a cada carro que passava ao seu lado.

"Passei por uma fase em que avaliava cada rua (por onde passava), se ela poderia ser alvo de um ataque", conta.

No entanto, sentiu-se estranhamente calma ao atravessar a ponte de Westminster novamente.

"Acho que é porque pensava que um ataque não ocorreria no mesmo lugar duas vezes."

Cristina não havia tido notícias de Will, mas presumiu que ele entraria em contato quando quisesse. O que ela não sabia era que ele estava ativamente tentando encontrá-la.

Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Will com sua mãe em Londres; ele precisou de cuidados médicos nos meses após o atentado

No hospital, Will lentamente recuperou sua habilidade de caminhar.

Sua memória sobre o dia do atentado era fragmentada, mas ele se lembrava de que uma mulher o havia ajudado - e ele sentia vontade de agradecê-la.

"Eu achei que ela fosse espanhola e me lembrava de que ela tinha dentes bonitos, então (pedi à) polícia que procurasse alguém assim na lista de testemunhas", conta.

Depois de uma semana hospitalizado, Will voltou a morar na casa de seus pais, um período que descreve como "intenso".

"Eu havia saído de casa aos 18 anos e era muito diferente. Foi difícil voltar a ser cuidado e ver as pessoas tomando decisões por mim."

Will queria ficar bem o mais rápido possível, mas ainda sentia os efeitos das lesões do acidente.

"Eu sentia tontura com frequência e não conseguia dormir muito à noite porque meu pescoço doía demais", conta. "Também precisei me afastar um pouco das pessoas (familiares e amigos). Elas obviamente estavam preocupadas e queriam saber o que havia acontecido, mas eu me via repetindo uma espécie de roteiro (do atentado). E não gosto de ser o alvo das atenções."

Image caption Will viveu altos e baixos após o atentado, sentindo-se tanto melancólico quanto forte

Um mês depois do ataque, Will ficou desapontado ao saber que a polícia ainda não tinha pistas da mulher que o havia ajudado. Mas, no dia seguinte, ele entrou no Facebook e acabou deparando com mensagens esquecidas, de pessoas que não eram da sua lista de contatos.

Foi quando viu a mensagem de Cristina.

"Corri para contar para os meus pais, que ficaram com os olhos cheios de lágrimas", relembra.

Will respondeu imediatamente e eles combinaram de se encontrar.

"Foi tão estranho", conta Cristina, de volta ao restaurante onde esse encontro aconteceu pela primeira vez, um ano atrás. "Me senti muito próxima do Will, mas ele na verdade nem lembrava da conversa que tivemos (após o atentado)."

Mas Will conta que "a reconheci imediatamente. E nos abraçamos".

Image caption Will and Cristina em um restaurante em Londres; eles antes só conversavam sobre o atentado, mas viraram confidentes

Relembrando o ataque

Will tinha consigo um mapa, para que Cristina pudesse mostrá-lo em que ponto da ponte o havia encontrado e explicar-lhe o que havia acontecido.

Ele também lhe deu um cartão escrito por sua mãe, agradecendo o fato de Cristina ter ajudado seu filho em um momento crítico.

"Deu muito conforto à minha família o fato de que alguém cuidou de mim quando eles não estavam lá", explica Will.

Os dois continuaram a se encontrar na semana seguinte. A princípio, Will fazia perguntas constantes sobre o dia do atentado. Mas aos poucos a conversa se tornou mais pessoal e levou a uma amizade.

"Como você vira amigo de alguém? Acho que, no nosso caso, pensamos de modo similar", prossegue Will.

"Foi algo muito natural", agrega Cristina. "Conversávamos sobre como ele estava, como eu estava. Ambos estávamos passando por grandes momentos em nossa vida."

Cristina havia acabado de terminar um longo relacionamento amoroso, enquanto Will estava se adaptando a seu novo emprego e havia se mudado para um novo apartamento.

"Não existe um manual sobre como seguir a vida após um ataque terrorista", diz ele. "Só segui minha intuição. Queria recobrar o controle da minha vida. Não queria ficar sentado em casa, triste e frustrado a respeito do que aconteceu."

Mas essa transição foi mais difícil do que ele imaginava, e ele se sentia inseguro para tomar decisões.

"Vivi altos e baixos. Havia horas em que me sentia péssimo e outras em que me sentia muito forte."

Image caption 'Uma amiga da minha mãe acha que a Cristina foi o meu anjo naquele dia (do atentado). Fico muito feliz que ela tenha decidido passar pela ponte naquele dia'

Durante esse período, ele contou muito com a ajuda de Cristina.

"Era muito útil, quando eu me sentia mal a respeito do atentado, ter por perto alguém que havia me visto em meu pior estado", diz ele. "Ela sempre foi muito honesta. Quando eu me sentia melancólico, ela me fazia levar outras coisas em consideração."

Com o passar do tempo, Will sentia cada vez menos o impacto do atentado. "Até que algo aconteceu e me fez lembrar a respeito disso outra vez."

Em novembro, oito meses depois do ataque, ele estava dentro de um táxi no centro de Londres quando viu pessoas em pânico correndo pela rua. Era uma falsa ameaça de atentado, mas foi o suficiente para despertar reações inesperadas em Will.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Ameaça de atentado no centro de Londres despertou memórias difíceis em Will

"Fiquei com dificuldade para respirar, minhas mãos e braços ficaram dormentes, minhas pernas estavam bambas. Minha sensação de pânico eventualmente passou, mas me deixou exausto. Precisei tirar uma semana de folga do trabalho para me recuperar."

No mês passado, Will ouviu dos médicos que, por culpa da lesão na sua artéria, ele não deve voltar a nadar, correr ou pedalar - atividades das quais gostava muito.

"Realmente sinto raiva e tenho momentos de frustração por ainda não estar curado", conta. "Mas também acho que cresci muito. Tenho uma perspectiva melhor a respeito do que importa na vida e não me preocupo tanto com a opinião das outras pessoas."

Direito de imagem Getty Images
Image caption Cerimônia pelas vítimas do ataque na ponte de Westminster; cinco pessoas morreram naquele dia

Cristina, por sua vez, se considera "privilegiada por ter estado perto dele neste último ano".

"Will é uma pessoa muito generosa, sensível e muito aberta ao mundo. Conhecê-lo marcou um momento de carinho na minha vida."

Os dois se encontram quinzenalmente.

"Cristina é muito forte e me deu muito apoio. É uma pessoa genuinamente adorável", ele diz. "Uma amiga da minha mãe acha que a Cristina foi o meu anjo naquele dia (do atentado). Fico muito feliz que ela tenha decidido passar pela ponte naquele dia."