Incêndio na Grécia: cenário é de 'pós-guerra', diz Cruz Vermelha

Nuvem de fumaça em subúrbio de Atenas Direito de imagem EPA
Image caption A nuvem de fumaça escurece o ambiente neste subúrbio de Atenas

Há poucos dias, a costa da região de Ática era um típico paraíso de resorts de verão no sul da Grécia, à beira do Mar Egeu. Desde segunda-feira, no entanto, algumas partes daquela área viraram cenário de incêndios que produziram a maior tragédia do tipo em décadas no país.

O primeiro foco de chamas começou nas montanhas de Gerania, no vilarejo de Kineta. Um segundo ocorreu em Rafina, destruindo quase por completo o povoado de Mati. Até o momento, ao menos 85 pessoas morreram. Outras dezenas estão internadas ou desaparecidas, incluindo duas irmãs gêmeas de apenas nove anos de idade.

"A paisagem é desoladora. Era uma área densa, cheia de árvores e pessoas, mas agora está tudo devastado. As casas estão queimadas, as arvores estão queimadas. Parece um cenário de pós-guerra", conta Lina Tsitsou, chefe de equipe para resposta nacional a desastres da Cruz Vermelha Helênica, por telefone à BBC News Brasil, direto de Rafina.

Tempo seco ajudou a espalhar chamas

Após um inverno atipicamente seco e com os fortes ventos do verão, os incêndios se alastraram pela vegetação de alguns vilarejos ao leste e ao oeste da capital Atenas. A rapidez das chamas impediu que centenas de pessoas pudessem fugir a tempo. Aqueles que chegaram às praias foram resgatados pela guarda costeira e por barcos privados.

De acordo com dados de quarta-feira, ao menos 164 adultos estão feridos (71 dos quais permanecem hospitalizados, sendo 10 em situação grave), 23 crianças precisaram de atendimento médico, das quais 11 estão internadas.

Direito de imagem European Union / Copernicus
Image caption A região das montanhas de Gerania, vista por satélite. A área em amarelo é a que foi atingida pelo fogo

O governo grego precisou declarar estado de emergência e solicitou ajuda de outros países da União Europeia por meio do Mecanismo de Proteção Civil do bloco. Alemanha, Espanha, França, Itália e Polônia já enviaram apoio, como aviões de combate a incêndio e bombeiros.

As autoridades seguem realizando buscas por desaparecidos, com mais de 130 agentes das Forças Armadas e dos Bombeiros nas áreas de Neos Voutzas, Mati e Rafina, segundo a Cruz Vermelha. Mais de 200 bombeiros trabalham para conter o fogo (e prevenir novos focos de incêndio) em Gerania e Rafina, com ajuda de aeronaves e helicópteros.

Famílias perderam tudo

"Há o elemento humano [nesta tragédia]. Vi pessoas dizendo que só lhes restam os sapatos e as roupas do corpo e que estão de luto por seus vizinhos", afirma Tsitsou.

"Elas dizem que perderam tudo. Todas as economias e o trabalho de uma vida, investidos em uma casa. Para os gregos, ter uma casa é muito importante. E esse investimento está agora acabado. O drama vem de muita, muita gente. As pessoas estão traumatizadas", conta a funcionária da Cruz Vermelha.

O governo grego anunciou uma série de medidas para auxiliar as vítimas, entre elas um alívio fiscal e 5 mil euros para famílias e indivíduos afetados pelos incêndios e 6 mil euros para famílias com três ou mais crianças. Negócios que tenham sofrido danos poderão receber 8 mil euros. Um fundo emergencial de 40 milhões de euros, aberto a doações, também foi anunciado para ajudar as áreas afetadas.

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Image caption O fogo chegou a varrer áreas urbanas na Grécia

Mapas do Copernicus, serviço de satélite da UE, mostram o tamanho da devastação. Em Rafina, 1.275 hectares foram queimados. Em Gerania, 1.923 - um espaço equivalente a 258 Maracanãs (incluindo toda a área construída do estádio).

Citando o ministro da Infraestrutura, o jornal grego Kathimerini destaca que dos 2.489 prédios afetados pelos incêndios avaliados por engenheiros, 1.218 foram considerados inabitáveis.

Na região dos incêndios, a Cruz Vermelha identificou diversos moradores com problemas respiratórios devido à fumaça inalada e a queimaduras. A ONG oferece atendimento médico móvel na área, além de atuar em atividades de resgate e busca por desaparecidos.

"Essas pessoas estão exaustas psicológica e fisicamente. Há necessidade de apoio psicológico e intervenções médicas porque muitas têm queimaduras. Mas, por respeito às pessoas com queimaduras mais graves, eles não procuram ajuda médica", revela Tsitsou.

De acordo com Tsitsou, as vítimas estão traumatizadas. Algumas, inclusive, apresentam sinais de estresse pós-traumático. "Ontem, uma senhora veio se registrar com o serviço médico e conversou com a nossa equipe. Então, ela começou a chorar. Depois, agradeceu porque era a primeira vez em três dias que conseguiu chorar. É uma situação muito difícil", lembra Tsitsou, com a voz embargada.

"Há um sentimento de tristeza e ao mesmo tempo gratidão por estarem a salvo. Os mecanismos de compensação das pessoas afetadas me surpreende. Elas dizem que perderam tudo, mas não reclamam porque se salvaram. Para mim, isso é impressionante", diz.

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