As acusações de ex-advogado de Trump que envolvem eleições e pagamentos a ex-atriz pornô

Michael Cohen Direito de imagem Getty Images
Image caption Michael Cohen (foto) já disse que 'levaria um tiro' por Donald Trump - mas numa entrevista recente disse que sua lealdade à sua família e ao seu país são mais importantes

Michael Cohen, ex-advogado do presidente dos EUA Donald Trump, declarou-se culpado a um tribunal de Nova York por ter violado a lei eleitoral durante as últimas eleições americanas.

À Justiça, Cohen disse ter atuado seguindo ordens "do candidato", com "o objetivo de influenciar na eleição". Cohen teria admitido subornos à ex-atriz pornô Stormy Daniels, suposta ex-amante de Trump.

No total, o advogado de 51 anos admitiu ter cometido oito crimes diferentes, incluindo fraudes fiscais e bancárias. As admissões fazem parte de um acordo negociado por ele com procuradores - similar às delações premiadas existentes no Brasil.

Em depoimento à Justiça nesta terça-feira, ele disse ter recebido ordens de "um candidato à um cargo federal" para quebrar a lei eleitoral dos EUA - acredita-se que a referência seja a Donald Trump.

As acusações contra Cohen poderiam resultar numa pena de prisão - ele admitiu ter cometido crimes de evasão fiscal cinco vezes, por exemplo. Ele deve ser sentenciado pela Justiça no dia 12 de dezembro deste ano. A pena, que poderia chegar a 65 anos de prisão, deve cair graças ao acordo com os procuradores. Segundo o juiz do caso, William Pauley, a pena pode ficar em cinco anos e três meses de prisão.

Repórteres que estavam presentes no julgamento disseram que Cohen estava com a voz trêmula enquanto respondia as questões do juiz. Ele foi questionado sobre se teria consumido álcool ou drogas antes do julgamento, mas disse que tinha apenas tomado uma dose de uísque ao jantar na noite anterior.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Ao chegar em Virgínia Ocidental, Trump ignorou perguntas de repórteres sobre Cohen

'Ele passou por cima da profissão'

A jornalistas, um dos procuradores do caso disse que os crimes de Cohen eram "particularmente importantes" por ser ele um advogado de formação. "Ele passou por cima de sua profissão. Passou por cima da tradição (de sua categoria profissional), disse o procurador Robert Khuzami. "Cohen achou que estava acima da lei, e pagará um preço muito alto por isto", disse.

O acordo de Cohen vem à tona no mesmo dia em que um tribunal do Estado da Virgínia condenou parcialmente o coordenador da campanha presidencial de Trump de 2016, Paul Manafort, por fraudes bancárias e fiscais.

O presidente Trump ignorou perguntas de jornalistas sobre o suposto acordo de Cohen nesta terça-feira, durante um comício no Estado da Virgínia Ocidental.

Direito de imagem Reuters
Image caption Repórteres que acompanharam o depoimento disseram que Cohen (centro) tinha a voz trêmula na audiência desta terça

Qual o objetivo dos subornos?

Em maio, Donald Trump admitiu ter reembolsado Cohen depois de ele ter feito um pagamento à atriz pornô Stormy Daniels - com o objetivo de que ela mantivesse o silêncio a respeito de seu suposto caso amoroso com o presidente. O pagamento teria ocorrido dias antes da eleição.

Antes desta admissão, Trump tinha negado qualquer conhecimento sobre o pagamento de US$ 130 mil, que era parte de um acordo de não divulgação de informações.

No mês passado, veio a público que Cohen tinha feito uma gravação secreta de uma conversa sua com Trump. No áudio, eles discutem a compra dos direitos de uma reportagem apurada pelo tablóide National Enquirer, envolvendo a ex-modelo da revista Playboy Karen McDougal.

Mc Dougal vendeu seu depoimento ao Enquirer ainda na pré-campanha da eleição presidencial de 2016.

Pagamentos deste tipo - secretos - por parte de candidatos podem ser considerados uma violação das leis eleitorais dos EUA.

Direito de imagem Getty Images
Image caption A ex-atriz pornô Stormy Daniels (esq.) e a ex-modelo da Playboy Karen McDougal (dir.) disseram ter feito sexo com Donald Trump

O que dizem as defesas de Trump e Cohen?

Nesta terça, o advogado de Michael Cohen, Lanny Davis, disse que seu cliente está "cumprindo com a promessa feita por ele no dia 2 de julho, de colocar sua família e seu país em primeiro lugar e contar a verdade a respeito de Donald Trump".

"Hoje, ele disse sob juramento que Donald Trump lhe ordenou que cometesse um crime, ao fazer pagamentos para duas mulheres com o objetivo principal de influenciar uma eleição", disse o advogado.

"Se estes pagamentos representaram um crime para Michael Cohen, porque não representariam um crime para Trump?", questionou Davis.

Já o advogado de Trump, Rudy Giuliani, disse a jornalistas que "não há qualquer alegação de cometimento de crimes da parte do presidente, nas acusações dirigidas pelos procuradores contra Cohen", disse. "Está claro que, como dito pelos procuradores, as ações de Cohen refletem um padrão de mentiras e desonestidade, durante muito tempo", completou Giuliani.

Direito de imagem Getty Images
Image caption As acusações de Cohen dominaram a mídia norte-americana nesta terça-feira

Como a investigação começou?

A natureza do acordo de delação de Cohen ainda não é conhecida em detalhes - e não é possível afirmar oficialmente que ele tenha delatado o atual presidente dos Estados Unidos, apesar das declarações de advogados.

Cohen trabalhou nas empresas de Donald Trump por mais de uma década, e continuou a atuar como advogado pessoal do presidente após as eleições de 2016. Eles se afastaram depois que Cohen deixou de atuar na defesa de Trump, em maio deste ano.

Investigadores federais apuraram informações sobre os negócios de Cohen durante meses, inclusive sobre uma empresa de táxis de propriedade dele e de sua família.

Nesta terça, procuradores disseram que ele deixou de declarar cerca de US$ 1,3 de lucros da empresa de táxis nos últimos cinco anos, entre outros ganhos. Além disso, Cohen também teria obtido ganhos indevidos da campanha de Trump ao pedir reembolsos com notas fiscais falsas.

Em abril deste ano, o FBI apreendeu vários documentos de Cohen numa batida em um quarto de hotel e num escritório dele em Nova York. A batida teria ocorrido a pedido de Robert Mueller - integrante do Conselho Especial que investiga se Trump teria recebido ajuda do governo da Rússia para vencer a eleição presidencial de 2016.

Notícias relacionadas