A volta da tradição católica que promete perdão dos pecados ao atravessar porta de igreja

Papa Francisco no Jubileu de 2015 Direito de imagem EPA
Image caption Papas têm direito de decretarem jubileus extraordinários, como Francisco fez em 2015

É uma tradição católica que começou em 1294: todos os anos, sempre no mês de agosto, quem atravessa a porta principal da Basílica de Santa Maria de Collemaggio em Áquila, na região dos Abruzos, Itália, recebe da Igreja a indulgência plenária - ou seja, o perdão dos pecados.

Esse salvo-conduto para o Paraíso na histórica catedral, entretanto, havia sido interrompido em 2009, quando, em 6 de abril daquele ano, um terremoto de magnitude 6,7 teve seu epicentro justamente na cidade.

A tragédia deixou 309 mortos, cerca de 1 mil feridos, 15 desaparecidos e centenas de edifícios parcial ou totalmente destruídos. Entre esses edifícios, a histórica basílica. Que, logo em seguida, começou a ser recuperada, em obras que foram concluídas em dezembro de 2017.

Neste agosto, portanto, conforme informa o Vaticano, pela primeira vez desde o terremoto de 2009, o chamado Perdão Celestino "retorna em toda a sua dimensão histórica e espiritual".

Até o dia 29 de agosto, os fiéis podem atravessar a chamada "porta santa" da Basílica de Santa Maria de Collemaggio e, assim, serem perdoados de seus pecados.

Para Massimo Alesii, porta-voz do Comitê do Perdão Celestino, a volta ao nascedouro da tradição representa "um momento de renascimento" para os devotos.

Perdão celestino foi o primeiro jubileu da história

Considerado o primeiro Jubileu da História, o "Perdão Celestino" foi criado a partir de uma bula papal promulgada pelo papa Celestino 5º, em 1294.

De acordo com registros do Vaticano, Celestino 5º se tornou o 192º papa da história da Igreja depois de um tumultuado conclave, que chegou a ser interrompido por conta da peste negra e acabou elegendo um novo pontífice apenas dois anos depois de seu início.

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Image caption Até 29 de agosto, fiéis podem atravessar a porta da basílica de Áquila para terem seus pecados perdoados

E o escolhido foi alguém de fora do Vaticano, no caso o religioso Pietro da Morrone, um beneditino que vivia como ermitão. Com o resultado do conclave, uma comitiva formada por três bispos foi designada a encontrar o asceta e dar a ele a notícia.

Encontraram-no no maciço de Maiella, nos Apeninos, no eremitério de Santo Onófrio. Informado da eleição para o cargo, Pietro aceitou a incumbência divina, assumiu o nome de Celestino V e resolveu ser coroado papa não em Roma, mas em Áquila.

E, conforme a historiografia oficial, foi montado em um burro que ele adentrou a cidade em 29 de agosto de 1294. Nobres, cardeais e, segundo o Vaticano, uma multidão de 200 mil fiéis se apinharam para aplaudir o novo papa e rezar com ele.

Seu primeiro ato foi uma bula, ou seja, um documento papal, concedendo o perdão dos pecados a quem passasse por aquelas portas.

O Perdão Celestino é considerado patrimônio imaterial da Itália desde 2011. E avança o processo para que seja reconhecido pela Unesco como patrimônio imaterial da Humanidade - de acordo com o Vaticano, a candidatura deve ser homologada em 2019.

Comemoração a cada 25 anos

Segundo os registros do Vaticano, o Perdão Celestino foi a antecipação de uma celebração que se tornaria frequente na Igreja Católica: o Jubileu.

Trata-se de uma comemoração católica que em geral ocorre a cada 25 anos - os chamados "ano santos" - e são momentos em que a indulgência plena é concedida àqueles que, com fé, cruzam por portas de igrejas de todo o mundo.

Há duas explicações para o nome. A primeira diz que a palavra jubileu vem do hebraico yovel, referindo-se ao carneiro, animal cujo chifre, transformado em corneta, seria utilizado para anunciar o período festivo.

Outra interpretação afirma que yovel significa "trazer de volta", numa alusão a essa chamada, com o perdão, a todo o rebanho cristão.

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Image caption O papa emérito Bento 16 foi o convidado de honra do Jubileu de 2015

O primeiro Jubileu da história foi instituído por bula papal de Bonifácio 8º em 1300, ou seja, seis anos após a edição inicial do Perdão Celestino.

Segundo levantamento realizado, a pedido da BBC News Brasil, pelo teólogo e filósofo Fernando Altemeyer Júnior, professor de Ciências da Religião da PUC-SP, nesse formato já foram realizados 28 jubileus católicos.

Nem sempre isso ocorreu com regularidade. O primeiro foi em 1300; o segundo, apenas 50 anos depois, em 1350. Depois, em 1390 - portanto, 40 anos mais tarde.

Mesmo quando o evento engrenou em uma lógica de 25 em 25 anos, houve falhas. Não foi realizado Jubileu em 1800 nem em 1850.

E é facultado aos papas o direito de decretar jubileus extraordinários. Como João Paulo 2º fez em 1984, por exemplo. E como Francisco fez em 2015.

Na inauguração deste último, inclusive, um fato inédito ficou na história da Igreja: pela primeira vez dois papas católicos participaram juntos de um evento.

Toda a cerimônia foi conduzida por Francisco, e o papa emérito Bento 16 - que renunciou ao cargo em fevereiro de 2013 - foi o convidado de honra.

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