As bombas esquecidas que matam mais crianças do que adultos

Menino do Laos segura um modelo de bomba de fragmentação Direito de imagem Legacies of War
Image caption A maioria dos civis mortos em 2017 pelas bombas de fragmentação não detonadas no mundo era criança

Em março do ano passado, uma menina de dez anos estava a caminho da escola no Laos quando encontrou um objeto metálico redondo e brilhante no chão.

Ela carregou o artefato pelas ruas e levou para uma festa de família em uma pequena vila na província de Xiangkhouang, no norte do país.

O objeto, que ela confundiu com um brinquedo, era na verdade uma bomba lançada no Laos durante ataques aéreos dos EUA entre 1964 e 1973.

E explodiu durante o evento, matando a menina e ferindo 12 de seus parentes – incluindo uma criança de 2 anos e um adulto de 57.

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Image caption As bombas de fragmentação se parecem com uma bola e são do tamanho de laranjas

Longe de ser um caso isolado, o incidente foi um lembrete de quantos civis – grande parte, crianças – são mortos a cada ano por resquícios de bombas de fragmentação lançadas em zonas de guerra em todo o mundo.

Apesar do esforço internacional para proibi-los, esses artefatos ainda são usados em conflitos, como na Síria e no Iêmen, matando centenas de civis.

Erros mortais

As bombas de fragmentação carregam vários explosivos menores que, ao serem lançados, se espalham por uma vasta área, causando um estrago maior que uma bomba convencional.

Mas essa ação indiscriminada significa que 99% das vítimas são civis. E, como alguns artefatos não explodem, permanecendo intactos, acabam matando civis acidentalmente muito tempo depois que as bombas foram lançadas originalmente.

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Image caption As crianças são especialmente vulneráveis às bombas de fragmentação, atraídas por sua aparência de brinquedo

Assim como as minas terrestres, esses artefatos são particularmente perigosos para as crianças, que são naturalmente curiosas e as confundem com brinquedos.

No ano passado, 289 pessoas foram mortas por ataques com bombas de fragmentação e, na sequência, pelos explosivos que não haviam sido detonados, de acordo com o relatório anual do Cluster Munition Monitor.

A maioria das vítimas estava na Síria (187) e no Iêmen (54), onde esses explosivos estão sendo ativamente usados.

O número de mortos foi muito menor do que no ano anterior, quando 857 pessoas foram mortas na Síria, elevando o número total de vítimas para 971.

Segundo o relatório, as bombas "esquecidas" também tiraram vidas no Camboja, Iraque, Laos, Líbano, Sérvia, Síria, Vietnã e Iêmen, assim como nos territórios de Nagorno-Karabakh e no Saara Ocidental.

Mas enquanto as crianças correspondiam a 36% das vítimas em geral, elas representavam 62% dos mortos por dispositivos remanescentes.

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Image caption Civis ainda são mortos por ataques a bombas de fragmentação, principalmente no Iêmen e na Síria

'País mais bombardeado'

Titus Peachey faz parte de um grupo de estrangeiros que conversou com sobreviventes após a explosão de março de 2017 no Laos.

Ele preside o conselho da ONG Legacies of War ("legados da guerra", na tradução literal para o português), criada em 2004 para buscar uma solução para o problema dos explosivos não detonados após o bombardeio americano.

O Laos detém o título de país mais bombardeado do mundo per capita. Durante a Guerra do Vietnã, os EUA lançaram cerca de 260-270 milhões de bombas em uma "batalha secreta" para combater a insurgência comunista.

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Image caption Os EUA lançaram cerca de 270 milhões de bombas de fragmentação no Laos

Cerca de um terço dos artefatos não explodiu, e apenas uma fração foi removida.

Peachey diz que ainda existem de 75 a 80 milhões de bombas não detonadas espalhadas pelo Laos que precisam ser eliminadas.

Ele contou à BBC que, em sua última visita ao país, ele se encontrou com um homem que perdeu os dois filhos. Eles tinham saído para pegar o búfalo da família e encontraram um artefato intacto.

Apesar dos esforços para educar as crianças nas escolas sobre os riscos desses explosivos – por meio de campanhas, livros didáticos ilustrados e até teatro de marionetes –, ainda ocorrem incidentes fatais.

Área 'contaminada'

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Image caption Crianças aprendem sobre bombas de fragmentação na escola no Laos

O relatório Cluster Munition Monitor de 2018 mostra que 26 países e outros três territórios ainda estão contaminados por resquícios de bombas de fragmentação.

E há uma preocupação especial com os civis na Síria e no Iêmen, onde foi registrado o uso do explosivo recentemente.

Nos últimos cinco anos, 77% das vítimas de bombas de fragmentação em todo o mundo estavam na Síria, onde o governo continuou a utilizar essas bombas com o apoio da Rússia, de acordo com o relatório.

Mas tanto a Síria quanto a Rússia negam deter bombas de fragmentação.

No Iêmen, a coalizão liderada pela Arábia Saudita usou bombas fornecidas pelos EUA em 2017.

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Image caption Mais de 75% das mortes por bombas de fragmentação nos últimos cinco anos foram registradas na Síria

Mas a Cluster Munition Coalition afirma que novos ataques provavelmente não foram notificados.

Convenção da ONU

Dez anos após a convenção da ONU proibir o uso e armazenamento de bombas de fragmentação, 120 países assinaram o acordo – embora nem todos o tenham ratificado.

Juntos, esses países destruíram 99% de seus estoques de armas.

Mas esses esforços são limitados, já que países como os EUA, Rússia, Israel, Paquistão, Índia e Arábia Saudita não fazem parte do acordo.

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Image caption Há campanhas para limpar as áreas onde há bombas não detonadas no norte do Laos

As forças armadas são relutantes em abrir mão do armamento, pois com ele um piloto pode atingir uma instalação militar com apenas uma tentativa – minimizando assim os riscos para o piloto.

Mas, com um histórico que sugere pouca confiabilidade, é provável que essas bombas continuem representando uma ameaça para os civis anos após serem lançadas.

"As bombas de fragmentação representam um perigo extremo para os civis no momento do uso, como os conflitos na Síria e no Iêmen mostram, mas os dispositivos remanescentes também oferecem uma ameaça significativa para os civis muito tempo após o conflito ter terminado, como revelam os casos registrados no Laos e em outros países", diz Jeff Abramson, coordenador do relatório.

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