A capital europeia onde lápides de cemitérios judaicos viraram calçada de paralelepípedo

Paralelepípedos de Praga
Image caption Os paralelepípedos de Praga revelam um segredo quando virados de cabeça para baixo

A cada ano, milhões de turistas caminham pelas calçadas da cidade velha de Praga, capital da República Tcheca - possivelmente sem saber que muitas das pedras abaixo dos seus pés foram saqueadas de um local que deveria ser sagrado. O repórter da BBC Rob Cameron descobriu esse segredo recentemente e conta a história abaixo:

"Nós estávamos parados no meio de uma das ruas mais movimentadas da capital tcheca. Um fluxo constante de pessoas nos empurrava e reclamava que estávamos bloqueando o tráfego de pedestres. Enquanto isso, nós espiávamos o chão.

Ao longe, avistamos o fundo da Praça Wenceslas, onde multidões se reuniam em volta de artistas de rua e de quiosques que vendiam salsichas e cerveja. 'Lá', disse Leo Pavlat, diretor do Museu Judaico de Praga, apontando para uma fina faixa de paralelepípedos quadrados e escuros no chão. 'Lá! Você consegue ver?', e correu em direção ao local.

Então, Pavlat retirou dois paralelepípedos de uma sacola plástica. Eram praticamente idênticos àqueles que estavam cravados no chão. Porém, os paralelepípedos que Pavlat carregava podiam ser virados de cabeça para baixo, e era possível ver que uma face era polida.

Em um deles, era possível identificar uma data: 1895. O outro tinha três letras do alfabeto hebraico, cobertas de tinta dourada, que brilhavam ao Sol.

'O que isso significa?', eu perguntei. 'É parte de um nome?'. Pavlat franziu a testa. 'Não faço ideia'.

Image caption Leo Pavlat com seus paralelepípedos feitos a partir de lápides judaicas

Leo Pavlat é dono dessas pedras há mais de 30 anos, desde que as colocou no bolso em uma manhã de primavera no final dos anos 1980. 'Deve ter sido um pouco antes da vinda de Gorbachev, porque eu me lembro que refizeram os paralelepípedos especialmente para sua visita', contou.

Posteriormente, eu procurei na internet e descobri que o líder soviético Mikhail Gorbachev havia visitado Praga em abril de 1987. A visita incluiu uma caminhada na Praça Wenceslas.

De volta a Pavlat e seus paralelepípedos. Naquela manhã de primavera, mais de 30 anos atrás, ele estava à caminho do trabalho, que ficava perto do local onde paramos para ver os paralelepípedos. Então, ele passou por uma cena que é comum em Praga até hoje - pilhas de paralelepípedos esperando para serem dispostas no chão por trabalhadores.

Algo chamou-lhe a atenção. Então, ele se abaixou para olhar. Aquelas pedras eram fragmentos de lápides judaicas, cortadas em cubos de granitos perfeitos. A julgar pelas datas encontradas, elas haviam sido removidas de um cemitério do século 19. Chocado, Pavlat pegou alguns dos paralelepípedos e saiu dali correndo.

'Não era fácil ser judeu naquela época (final dos anos 1980)', diz Pavlat. 'Eu era um membro ativo da comunidade, mas não em círculos oficiais. E não era um membro do Partido Comunista'. A simples participação em um evento semanal e autorizado na sinagoga poderia fazer com que você fosse interrogado pela polícia secreta, conta ele.

'Eu acho que o regime queria que a comunidade judaica acabasse lentamente'.

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Image caption Paralelepípedos foram feitos a partir de lápides; na imagem, um antigo cemitério judaico em Praga, em 1904

A população judaica da Checoslováquia, que era de cerca de 350 mil pessoas antes da Segunda Guerra Mundial, foi reduzida a 50 mil em 1946 - incluindo aqueles que haviam conseguido retornar dos campos de concentração.

Depois, ao longo de décadas de comunismo, o país foi tomado por um antissemitismo oficial e vivenciou uma emigração voluntária de judeus. No final da década de 1980, a população judaica mal chegava aos 8 mil.

Em vilarejos e cidades espalhadas pelo país, há cerca de 600 cemitérios judaicos esquecidos e abandonados. As autoridades comunistas - e, ao que parece, os próprios líderes da comunidade judaica - viram esses locais como um depósito de materiais de construção valiosos.

Leo Pavlat não se lembrava de onde suas pedras vieram, mas me enviou um artigo que havia escrito vários anos antes. Seus paralelepípedos, ao que parece, foram cortados de lápides retiradas de um cemitério judaico criado em 1864 na cidade de Udlice.

Ali, havia uma comunidade judaica desde o século 17, com uma sinagoga, uma escola religiosa e dois cemitérios. Em 1930, a população judaica de Udlice havia caído a apenas 13 pessoas. Já na década de 1980, quando o cemitério foi saqueado, provavelmente não existiam mais judeus na cidade.

Depois de uma caminhada de alguns minutos, nós chegamos ao fim da linha de granito, no final da Praça Wenceslas. Os turistas apenas passavam apressados.

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Image caption Um trecho da Praça Wenceslas é coberto de paralelepípedos como os de Pavlat

Eu perguntei a Pavlat o que ele gostaria que a cidade fizesse a esse respeito. 'Não é simples. As lápides nunca poderão ser refeitas. E arrumar outros paralelepípedos para a cidade pode custar milhões'. 'Eu não acho que isso tenha sido feito deliberadamente pelos comunistas para ofender os judeus. Mas foi muito insensível.'

Ele gostaria que a cidade colocasse uma pequena placa no local, que informasse as pessoas sobre a vida judaica vibrante que um dia existiu em Praga. E lembrasse sobre a barbárie do regime comunista."

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