O que assassinato de chefe da máfia de NY diz sobre poder da organização criminosa

Foto de 2008 de Frank Cali distribuída pela polícia dos EUA Direito de imagem Divulgação
Image caption Frank Cali, líder da família criminosa Gambino, foi morto a tiros em frente a sua casa no distrito de Staten Island, em Nova York

Parece coisa de filme de Hollywood. Frank Cali, líder da família criminosa Gambino, foi morto a tiros em frente a sua casa no distrito de Staten Island, na cidade de Nova York, a apenas alguns minutos de carro da residência da família Corleone no aclamado filme O Poderoso Chefão (1972).

Autoridades dizem que o autor do homicídio atirou seis vezes contra o homem de 53 anos antes de fugir do local em uma caminhonete. Foi o primeiro assassinato de um chefe da máfia na cidade desde a morte do então líder da família Gambino, Paul Castellano, em 1985.

Mas este assassinato violento em um subúrbio de Nova York indica que o crime organizado está mais uma vez em ascensão na cidade?

"É raro em Nova York", diz Federico Varese, professor de criminologia da Universidade de Oxford, na Inglaterra. "É um acontecimento bastante significativo, que mostra que a máfia ítalo-americana ainda está ativa."

O que é a máfia ítalo-americana?

Desde 1931, cinco famílias comandam a máfia ítalo-americana de Nova York: os Bonanno, os Colombo, os Gambino, os Genovese e os Lucchese.

Frank Cali seria o chefe da família Gambino e casado com Rosaria Inzerillo, ligada à família siciliana Inzerillo. Os Inzerillo fugiram da Sicília para os Estados Unidos na década de 1980, depois de perder uma guerra contra famílias rivais.

Cali também era parente de John Gambino, antes líder da facção siciliana da família - outro elo que poderia explicar sua rápida ascensão à liderança da máfia.

Seu número exato de integrantes é desconhecido. O FBI estima que haja cerca de 3 mil membros e afiliados de gangues de crime organizado ítalo-americanas no país.

As famílias já foram incrivelmente poderosas, exercendo influência sobre políticos e detendo participações em empresas da indústria de entretenimento, mas as autoridades americanas têm lentamente reprimido o crime organizado. Uma série de grandes condenações e deserções nos anos 1980 e 1990 enfraqueceu sua liderança.

O ex-chefe da família Gambino John Gotti - que planejou o assassinato de seu antecessor em 1985, executado do lado de fora do Sparks Steak House, em Manhattan - era conhecido como Dapper Don por seus ternos caros e seu comportamento extravagante com a imprensa. Sob seu comando, sua família faturou centenas de milhões de dólares por ano.

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Image caption John Gotti, que planejou assassinato de seu antecessor em 1985, executado do lado de fora de um restaurante, morreu na prisão

Ele foi condenado por cinco assassinatos, evasão fiscal, extorsão, agiotagem e jogos ilegais em 1992, e foi sentenciado à prisão perpétua. Morreu de câncer na garganta na prisão, dez anos depois.

Selwyn Raab, autor do livro Five Families (Cinco Famílias, em inglês), disse à revista Rolling Stone que os ataques terroristas em Nova York em 2001 mudaram completamente o foco do FBI para o terrorismo. Algumas forças-tarefa para lidar com o crime organizado que tinham 400 agentes passaram a ter 20 ou 30. "Quando você não tem a equipe necessária, você não terá acusações ou condenações", disse ele.

As famílias da Máfia ainda são poderosas?

Em 2011, o FBI prendeu mais de 100 membros da Máfia, incluindo o suposto chefe da família Colombo.

Apesar de essa ter sido uma dos maiores operações do tipo na história do FBI, o chefe do escritório em Nova York disse que "condenar as hierarquias das cinco famílias com altas penas não erradicou o problema", e que teria sido um "mito" a percepção de que o crime organizado tinha sido derrotado.

Anna Sergi, professora de criminologia da Universidade de Essex, concorda.

"As cinco famílias são bem mais felizes do que no passado", diz ela à BBC.

Eles estão forjando ligações internacionais com cartéis de drogas mexicanos e colombianos, bem como com a 'Ndrangheta, da região italiana da Calábria.

O próprio Cali foi condenado apenas uma vez, após sua prisão como parte de uma operação conjunta dos EUA e da Itália para tentar anular a cooperação entre grupos criminosos italianos e ítalo-americanos.

Direito de imagem EPA/POLICE HO
Image caption Polícia italiana tirou fotos de Frank Cali em Roma como parte de operação conjunta com FBI

Sergi disse que grupos ligados ao crime organizado italiano estão atualmente mudando as rotas de fornecimento de drogas e dinheiro, e até mesmo assumindo o controle de algumas operações nos EUA.

"Essa mudança no poder poderia explicar esse assassinato agora", diz ela.

O que significa o assassinato?

A polícia não sabe qual foi o motivo. Não houve prisões e uma investigação sobre o assassinato de Cali está em andamento.

"Seu assassinato mostra que ele estava ativo e, obviamente, pisou em dedos de alguém", diz Varese, chamando-o de "um cara sério" na organização.

Acreditando ser "bem improvável" que o assassinato tivesse sido realizado por um grupo externo ou de outra família, o professor Varese sugere que, na balança das probabilidades, pode ter sido um ataque de um membro da própria família Gambino.

"Não é incomum que um chefe interino seja morto", diz ele. "E se esse for o caso, as outras famílias não interfeririam."

Sergi, por sua vez, considera o assassinato "muito significativo" e que não se pode ignorar o contexto internacional.

"Qualquer coisa que acabe em assassinato tem que significar uma cicatriz muito profunda no sistema", diz ela.

"Ou é o fim de algo ou o começo de outra coisa."

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